Tenho-me no conceito
de preguiçoso.
Digo-o com
frequência e, por vezes, até sinto vergonha de como tal me declarar. A verdade
é que sou mesmo! Dou tudo, como sói dizer-se – para fazer o menos possível!
Claro que vêm
logo garantir-me que é mentira, porque apresento trabalho feito.
É verdade:
apresento. E tenho gosto nisso, pois me ensinaram que uma pessoa deve estar
sempre ocupada em algo de útil.
E dizem até
que faço muito. Se calhar, faço. E o segredo está na enorme preguiça que tenho!
Por exemplo:
nos rascunhos, escrevo muitas palavras abreviadas. Uso um moitão de
abreviaturas, desde jovem! Não é estenografia, mas quase. Pobre do jornalista
em reportagem, há 40 anos, em que não havia gravadores portáteis, se não se
desenrascasse!...
Como escritor
que sou, uso, portanto, esse moitão de abreviaturas e estou constantemente a
pôr novas no computador. Preencho constantemente a janela «opções de correção
automática». Dito os textos rascunhados para o computador mos passar
diretamente a escrito…
Consolei-me, por conseguinte, ao saborear o
capítulo “O valioso dom da preguiça” do livro «Talvez um Dia…», de Helena
Sacadura Cabral, verdadeiro dicionário de psicologia diária e prática. Considera
a autora que a preguiça «é uma ciência», porque constitui, em seu entender, «a
procura da máxima economia de energia».
E consolei-me especialmente
quando aí li a frase atribuída a Bill Gates:
«Escolha
sempre uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil. Ela encontrará a
maneira mais fácil de o fazer».
Ora toma!
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10

