quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Preguiçoso

            Tenho-me no conceito de preguiçoso.
Digo-o com frequência e, por vezes, até sinto vergonha de como tal me declarar. A verdade é que sou mesmo! Dou tudo, como sói dizer-se – para fazer o menos possível!
Claro que vêm logo garantir-me que é mentira, porque apresento trabalho feito.
É verdade: apresento. E tenho gosto nisso, pois me ensinaram que uma pessoa deve estar sempre ocupada em algo de útil.
E dizem até que faço muito. Se calhar, faço. E o segredo está na enorme preguiça que tenho!
Por exemplo: nos rascunhos, escrevo muitas palavras abreviadas. Uso um moitão de abreviaturas, desde jovem! Não é estenografia, mas quase. Pobre do jornalista em reportagem, há 40 anos, em que não havia gravadores portáteis, se não se desenrascasse!...
Como escritor que sou, uso, portanto, esse moitão de abreviaturas e estou constantemente a pôr novas no computador. Preencho constantemente a janela «opções de correção automática». Dito os textos rascunhados para o computador mos passar diretamente a escrito…
Consolei-me, por conseguinte, ao saborear o capítulo “O valioso dom da preguiça” do livro «Talvez um Dia…», de Helena Sacadura Cabral, verdadeiro dicionário de psicologia diária e prática. Considera a autora que a preguiça «é uma ciência», porque constitui, em seu entender, «a procura da máxima economia de energia».
E consolei-me especialmente quando aí li a frase atribuída a Bill Gates:
«Escolha sempre uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil. Ela encontrará a maneira mais fácil de o fazer».
Ora toma!

                    José d’Encarnação

     Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10

2 comentários:

  1. Sílvia Quinteiro, 3/09/2026 18:28
    Adoro este elogio da preguiça.
    Explico sempre aos meus alunos que sempre tive boas notas por ser preguiçosa e gostar de praia. Assim, que pus o pé na Nova percebi que o 14 me permitia vir de férias em maio e só regressar a Lisboa em outubro.
    Depois percebi que vindo a casa todos os fins de semana, e só lá fiquei 2 em 5 anos, tinha 10h de viagem para estudar.
    Foi uma rica vida :-)
    Beijinhos e viva a preguiça usada com inteligência.

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  2. Há uns anos, tive a meu cargo o projeto de um grande empreendimento em Alfragide, destinado a uma cooperativa de habitação. A obra era de grande dimensão e, na sua fase final, o estaleiro chegou a reunir cerca de setecentos operários.

    Setecentas pessoas a trabalhar ao mesmo tempo num estaleiro são uma pequena multidão. E controlar uma multidão não é coisa fácil. Por mais que haja encarregados atentos e uma organização rigorosa, há sempre quem trabalhe mais depressa, quem trabalhe mais devagar e, naturalmente, quem descubra maneiras engenhosas de trabalhar o menos possível.

    Foi nessa altura que comecei a reparar num homem que passava os dias no terraço do edifício mais alto. De lá de cima, tinha uma visão privilegiada de todo o estaleiro e parecia conhecer cada movimento dos que lá trabalhavam.

    De vez em quando, a sua voz fazia-se ouvir por toda a obra:

    — Oh pá, toca a trabalhar!

    E pouco depois:

    — Oh Vicente, olha que o patrão não te paga para estares na ronha!

    Aquilo começou a despertar a minha curiosidade. Quem seria aquele homem que, instalado lá no alto, não dava descanso a ninguém?

    Um dia, perguntei ao administrador da obra, um velho engenheiro, homem de muitos anos e muita experiência:

    — Quem é aquele tipo que lá em cima não dá descanso a ninguém?

    O engenheiro olhou para o terraço e respondeu, com um sorriso:

    — Ora, é o Custódio.

    Fiquei à espera de mais alguma explicação. E ela não tardou.

    — É o mais preguiçoso de quantos aqui trabalham.

    Olhei de novo para o terraço. O Custódio continuava no seu posto, atento a tudo o que se passava cá em baixo.

    — O mais preguiçoso? — perguntei, quase sem esconder a surpresa.

    — Sim — confirmou o engenheiro. — E é precisamente por isso que conhece os truques todos.

    Explicou-me então que o Custódio conhecia como ninguém os hábitos dos companheiros. Sabia quem gostava de se encostar, quem desaparecia quando ninguém estava a olhar, quem tinha sempre uma desculpa pronta e, sobretudo, conhecia todos os cantinhos do estaleiro onde um homem podia esconder-se durante algum tempo sem dar nas vistas.

    Depois, como quem acaba de enunciar uma verdade que a experiência lhe ensinara, concluiu:

    — Não há melhor que um preguiçoso para pôr os outros a trabalhar.

    A explicação pareceu-me tão simples quanto inesperada. O Custódio, por ser preguiçoso, conhecia a preguiça por dentro. Sabia reconhecer os sinais, os truques e os esconderijos dos outros porque, provavelmente, já os tinha experimentado todos.

    E assim, enquanto os outros trabalhavam cá em baixo, ele passava o dia no alto do edifício, a vigiar e a ralhar:

    — Oh pá, toca a trabalhar!

    Não sei se alguma vez alguém chegou a perceber a ironia daquela situação. O homem que talvez menos gostasse de trabalhar acabara por encontrar uma maneira de ser indispensável à produtividade dos outros.

    De vez em quando, ao recordar aqueles anos de obras e de estaleiros, lembro-me do Custódio lá no alto, senhor da sua torre de vigia, e da frase do velho engenheiro.

    Talvez ele tivesse razão.

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