Tenho-me no conceito
de preguiçoso.
Digo-o com
frequência e, por vezes, até sinto vergonha de como tal me declarar. A verdade
é que sou mesmo! Dou tudo, como sói dizer-se – para fazer o menos possível!
Claro que vêm
logo garantir-me que é mentira, porque apresento trabalho feito.
É verdade:
apresento. E tenho gosto nisso, pois me ensinaram que uma pessoa deve estar
sempre ocupada em algo de útil.
E dizem até
que faço muito. Se calhar, faço. E o segredo está na enorme preguiça que tenho!
Por exemplo:
nos rascunhos, escrevo muitas palavras abreviadas. Uso um moitão de
abreviaturas, desde jovem! Não é estenografia, mas quase. Pobre do jornalista
em reportagem, há 40 anos, em que não havia gravadores portáteis, se não se
desenrascasse!...
Como escritor
que sou, uso, portanto, esse moitão de abreviaturas e estou constantemente a
pôr novas no computador. Preencho constantemente a janela «opções de correção
automática». Dito os textos rascunhados para o computador mos passar
diretamente a escrito…
Consolei-me, por conseguinte, ao saborear o
capítulo “O valioso dom da preguiça” do livro «Talvez um Dia…», de Helena
Sacadura Cabral, verdadeiro dicionário de psicologia diária e prática. Considera
a autora que a preguiça «é uma ciência», porque constitui, em seu entender, «a
procura da máxima economia de energia».
E consolei-me especialmente
quando aí li a frase atribuída a Bill Gates:
«Escolha
sempre uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil. Ela encontrará a
maneira mais fácil de o fazer».
Ora toma!
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10


Sílvia Quinteiro, 3/09/2026 18:28
ResponderEliminarAdoro este elogio da preguiça.
Explico sempre aos meus alunos que sempre tive boas notas por ser preguiçosa e gostar de praia. Assim, que pus o pé na Nova percebi que o 14 me permitia vir de férias em maio e só regressar a Lisboa em outubro.
Depois percebi que vindo a casa todos os fins de semana, e só lá fiquei 2 em 5 anos, tinha 10h de viagem para estudar.
Foi uma rica vida :-)
Beijinhos e viva a preguiça usada com inteligência.
Há uns anos, tive a meu cargo o projeto de um grande empreendimento em Alfragide, destinado a uma cooperativa de habitação. A obra era de grande dimensão e, na sua fase final, o estaleiro chegou a reunir cerca de setecentos operários.
ResponderEliminarSetecentas pessoas a trabalhar ao mesmo tempo num estaleiro são uma pequena multidão. E controlar uma multidão não é coisa fácil. Por mais que haja encarregados atentos e uma organização rigorosa, há sempre quem trabalhe mais depressa, quem trabalhe mais devagar e, naturalmente, quem descubra maneiras engenhosas de trabalhar o menos possível.
Foi nessa altura que comecei a reparar num homem que passava os dias no terraço do edifício mais alto. De lá de cima, tinha uma visão privilegiada de todo o estaleiro e parecia conhecer cada movimento dos que lá trabalhavam.
De vez em quando, a sua voz fazia-se ouvir por toda a obra:
— Oh pá, toca a trabalhar!
E pouco depois:
— Oh Vicente, olha que o patrão não te paga para estares na ronha!
Aquilo começou a despertar a minha curiosidade. Quem seria aquele homem que, instalado lá no alto, não dava descanso a ninguém?
Um dia, perguntei ao administrador da obra, um velho engenheiro, homem de muitos anos e muita experiência:
— Quem é aquele tipo que lá em cima não dá descanso a ninguém?
O engenheiro olhou para o terraço e respondeu, com um sorriso:
— Ora, é o Custódio.
Fiquei à espera de mais alguma explicação. E ela não tardou.
— É o mais preguiçoso de quantos aqui trabalham.
Olhei de novo para o terraço. O Custódio continuava no seu posto, atento a tudo o que se passava cá em baixo.
— O mais preguiçoso? — perguntei, quase sem esconder a surpresa.
— Sim — confirmou o engenheiro. — E é precisamente por isso que conhece os truques todos.
Explicou-me então que o Custódio conhecia como ninguém os hábitos dos companheiros. Sabia quem gostava de se encostar, quem desaparecia quando ninguém estava a olhar, quem tinha sempre uma desculpa pronta e, sobretudo, conhecia todos os cantinhos do estaleiro onde um homem podia esconder-se durante algum tempo sem dar nas vistas.
Depois, como quem acaba de enunciar uma verdade que a experiência lhe ensinara, concluiu:
— Não há melhor que um preguiçoso para pôr os outros a trabalhar.
A explicação pareceu-me tão simples quanto inesperada. O Custódio, por ser preguiçoso, conhecia a preguiça por dentro. Sabia reconhecer os sinais, os truques e os esconderijos dos outros porque, provavelmente, já os tinha experimentado todos.
E assim, enquanto os outros trabalhavam cá em baixo, ele passava o dia no alto do edifício, a vigiar e a ralhar:
— Oh pá, toca a trabalhar!
Não sei se alguma vez alguém chegou a perceber a ironia daquela situação. O homem que talvez menos gostasse de trabalhar acabara por encontrar uma maneira de ser indispensável à produtividade dos outros.
De vez em quando, ao recordar aqueles anos de obras e de estaleiros, lembro-me do Custódio lá no alto, senhor da sua torre de vigia, e da frase do velho engenheiro.
Talvez ele tivesse razão.