quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O filho duma magana!

            Passado 2020, dei comigo a pensar que também ele, como o 2019, fora filho de uma magana. O 19 por nos ter brindado com o vírus; o 20 por o não ter conseguido extirpar.
            E a expressão, que me saltou assim de repente, sem eu a esperar nem pedir, fez-me regressar à infância, quando ouvia meu pai ou minha mãe, na brincadeira ou não, chamarem alguém de «filho duma magana». Nunca percebera exactamente o que isso poderia significar; mas, pelo jeito da expressão facial de um ou de outra, eu compreendia que, umas vezes, era brincadeira inofensiva, dirigida a alguém que tinha pregado alguma ‘peça’ e o pessoal ria de bom grado, que o fulanito a pregara a preceito; doutras, minha mãe assumia um ar grave, de coisa séria, e eu deduzia daí que a ‘peça’ fora grave, maldade a merecer castigo e a atribuição do epíteto carregado do seu forte sentido depreciativo.
            Corri, pois, agora, ao dicionário, a descobrir o que era isso de magana. Como substantivo e como adjectivo. Como adjectivo – olá!... – tem logo que se lhe diga: «jovial», «namoradeira», «concupiscente». Portanto, assim a modos de atiradiça, é preciso cuidado com ela, que gosta de brincar, mas… Como substantivo, fia mais fino. Surge-me, em primeiro lugar, a informação de que é uma música antiga. E lá vou eu ao google a ver que tipo de dança ela é; nada mais consigo saber além de que se trata de uma antiga tocata; quiçá os melómanos saibam dizer-me. Depois, «mulher desenvolta e lasciva». Vi também o masculino – magano – e saiu-me esta: «Mercador de escravos que enfeitava os negros para agradar os compradores»! Ora toma!
A origem etimológica não oferece dúvida: deriva da palavra castelhana «magaña» (leia-se ‘maganha’), com o significado de «ardil, astúcia, engano».
Vai mais além o Dicionário do Falar Algarvio,  de Eduardo Brazão Gonçalves, quando comenta: «Para evitar expressão menos polida, é muito frequente chamar-se ‘filho duma magana’ a quase tudo que nos desagrade e também a quase todos». Acho que, neste caso, também o Eduardo me saiu cá um filho duma magana!... Tão polido, tão polido, que misturou aí um ‘desagrade’ que pouco terá a ver com isso!...
Seja como for, fico na minha: o 2019 foi, de pleno direito, o filho duma magana; e o 2020 também! E alimentamos a esperança de que este ora começado não vá pelo mesmo caminho. Para já, brincando, brincando, está-nos a fazer a vida negra, o filho duma magana!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz, nº 290, 20-01-2021, p. 13.

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A arte de bem escrever

             Bem no sei, o título não prima pela originalidade, que já o senhor el-rei D. Duarte escreveu «A Arte de bem Cavalgar Toda a Sela», que teve como título inicial O Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela; o meu colega Cristóvão Pereira sabiamente dissertou sobre a ortografia de língua portuguesa, definindo-a como «a arte de bem escrever ao longo dos séculos» (Boletim de Estudos Clássicos, 55, 2011, p. 133-140»; e até a senhora D. Margaret Thatcher redigiu um livro sobre «A Arte de bem Governar» (não foi, decerto, por ele, que Donald Trump estudou…). E já que se fala em estudar, um dos meus livros de cabeceira data de 1943, está muito sublinhadinho desde a minha juventude, deve-se ao grande mestre Mário Gonçalves Viana e chama-se «A Arte de Estudar».

            Tudo artes, portanto, que se aprendem com o estudo e a experiência. Para se escrever nos jornais, também é preciso arte, mormente porque o jornalista procura ser o mais aliciante possível.
            Vem tudo isto a propósito de uns recortes que amigo meu me enviou, em ar de crítica ao pouco profissionalismo neles patente. É bem provável que já corram mundo, com milhares de visualizações. Achei-lhes piada, porque, no fundo, além da pressa em que se vive, esses títulos demonstram a enorme capacidade que o português tem de pôr em prática a máxima de que «a bom entendedor meia palavra basta». Ora veja-se:
            «Morreram 430 mortos nas estradas portuguesas» – título do Jornal de Notícias.
            A 6 de Março de 2014, um diário anunciava: «Carro capota com 4 pessoas e uma mulher».
 
         
   Numa das legendas da CMTV, sempre em directo e em primeiro: «Dois mortos em fuga». Esta, confesso, é um mimo, porque resume às mil maravilhas o que era preciso explicar, se não fôssemos todos inteligentes e não percebêssemos logo que houve um valdevinos que matou duas pessoas e se pôs em fuga. Para legenda televisiva, era complexo e o pessoal não tinha tempo para ler tudo!... Também a CMTV legendou doutra vez: «Acidente na A1 Três viaturas feridas». E pronto!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 791, 15-01-2021, p. 11.

 

 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Que grande seca!...

             Pronuncie-se ‘séca’, vocábulo que tem dois significados principais: o meteorológico, falta de chuva, e o do dia-a-dia, amiúde usado na nossa juventude (e não só!) quando o senhor fazia um discurso que nunca mais acabava e não usava formas de nos chamar a atenção: «ca ganda seca!»…
«O Semeador»
            Neste aspecto – como noutros, obviamente – há que seguir os ensinamentos de Cristo: o pessoal só compreende se lhes falares terra-a-terra, se lhes souberes contar uma história! Não foram isso as parábolas evangélicas? E não estamos nós sempre a referir-nos à parábola do filho pródigo ou à do semeador?... E o que são as fábulas dos senhores Esopo, Fedro e La Fontaine? Pequenas histórias com uma ‘moral’ no fim!
Achei piada ao meu ortopedista, outro dia, quando – para me explicar os exercícios que deveria fazer para retomar a motricidade do braço direito – me falou em «mexa a sopa da esquerda para a direita e depois ao contrário», «varra a cozinha», «limpe o pó à secretária!». E fazia os gestos correspondentes. Não vou esquecer. 
 Sem histórias, um discurso é uma seca. Isso mesmo eu tentei explicar ao Provedor  do Ouvinte da Antena Um neste Verão. Depois do noticiário das 9, havia sempre um minuto de conversa ou, se calhar mais, com um senhor da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Coitado do senhor! O que vale é que não era sempre o mesmo. O mesmo era sempre o que vinha no papel: as perguntas do jornalista e as respostas correspondentes. Ele era proibições disto e daquilo, ele eram recomendações da mais variada ordem para não se perturbar o combate ao fogo!... A gente já nem ligava e via-se mesmo que ambos os interlocutores já estavam fartos daquela lengalenga.
            Ora, se de permeio viesse a história do incêndio do dia anterior, provocado por uma máquina ou por um cigarro, a história do bom combate havido há dois dias, porque a população alertou a tempo, o ouvinte até dizia: «Deixa lá ver como é que foi ontem e o que é que correu bem ou mal!».
            ¿E, aqui para nós, os incêndios são devidos a quê? ¿Não explicou já o Prof. Jorge Paiva que, para evitar o que chama de «piroverões» (verões ardentes), o que é necessário é: a re-humanização das montanhas, pôr lá gente; e, «após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada»?
            Pois.

                                                           José d’Encarnação

Nota: Reproduz-se o quadro «O Semeador», de James Tissot (Brooklyn Museum).

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 790, 01-01-2021, p. 11.