quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Uma rua sem graça nenhuma

            «A Rosa mora numa rua escura, num segundo andar escuro e costuma vestir-se normalmente de preto. A sua rua é uma rua a subir, estreita e cheia de prédios iguais a ela: escuros e velhos, cheios de reumático e humidade na alma. Não moram carros na sua rua e os vizinhos passam silenciosos carregados de anos e solidão. É uma rua fria, feia, e sem graça nenhuma».
            Trecho colhido a esmo do livro Viva a Vida, de Vítor Contreiras Barros. A tristeza que ensombra a velhice…

          Para documentar dois dos muitos aspectos com que este livro nos mimoseia. Primeiro, a apropriada acuidade da escrita. Estamos mesmo a ver a rua, a sentir-lhe a humidade nos ossos… Depois, a atenção do autor às pessoas. Vejo-o, ao longo do livro, de perene esferográfica na mão, qual pintor agarrado à tela – para contar o que vê, o que ouve, o que lhe desperta atenção. E tudo isso passar a escrito. Em partilha com a dor, a alegria, a vida – que ele nos incita a viver! Que viver é isso mesmo: estar atento aos outros, comungar, sentir. Na urgência, como diz, de «dar vida às palavras»!
            Logo a capa é um hino. A essa vida, porque aí se mostra a mãe, Gabriela, no trajar quotidiano das nossas mães e avós. Parece encostada, mas não está, a um valado de pedra seca, como são os nossos valados, com a alfarrobeira em frente; e, de mãos dadas (tinha que ser!), Petra e Núria, símbolos da vida por vir; está-lhe marcada na estranheza dos nomes a vontade de galgar horizontes doutros linguajares…
            A mãe, de quem deliciadamente escreveu histórias e memórias. Que delícia lê-las (p. 244-281)!
            Um livro que é retrato do S. Brás rural (ou do Algarve rural?), aberto, todavia, ao que os novos ventos lhe foram trazendo, nos sítios já com cafés, cabeleireiras, televisão e... Ora leia-se esta pincelada soberba:
            «Vestiu-se de preto, como sempre fazia desde que o seu Adérito partira, pegou na mala e no saco de asas amarelas que na última vez que tinha ido à vila comprara no chinês. Entrara lá por engano cuidando que iria ao café da Teresa e do Alberto e por vergonha acabara por comprar aquele saco. Até que não tinha sido caro e era bem bonito…».
            Que tal?
            Já confessei que o li de afogadilho. Tenho-o, contudo, à mão para, de vez em quando, o voltar a abrir, para me deliciar com estas «histórias, memórias, divagações e loucuras». E entre as divagações ou as loucuras perpassa aquele realismo mágico tão próprio das gentes do Barrocal. Nesta noite de Lua Cheia, naquela encruzilhada além, não viram vossemecês o lobisomem?...

                                                                                   José d’Encarnação

            Publicado em Notícias de S. Braz, nº 291, 20-02-2021, p. 13.

 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Agrada-me a sua resistência…

        Não é porque dietistas proclamem os seus elevados benefícios para a regulação intestinal, prevenção de ataques cardíacos e diminuição da vontade de comer. É porque também me agrada a luta que tenho de travar para a partir. Precisa-se de escolher bem o jeito, aperta agora, tenta outra posição… E vem depois aquele estalar dolente, rachado, como num estertor raivoso: «Eu não queria que me abrisses!»…  

      
Habituei-me a comer duas ou três nozes enquanto a gente se arruma à mesa. E, para além dessa resistência que me agrada, confesso que não resisto a admirar a forma inteligente como o fruto por completo se torceu para aproveitar todos os recantos disponíveis. Inconcebível engenharia divina!
            Outro dia, escrevia-me Júlia Nery: «Estou a ler os textos, saboreando conteúdo e escrita, "como quem trinca  bagos de romã sumarenta"». Também a romã me encanta. Aliás, sempre encantou o Homem, os Romanos quase lhe prestavam culto como manjar dos deuses… Encanta-me o trincar, mas encanta-me sobretudo ver como a Ana precisa de ter um cuidado enorme, ao descascá-la, para que nenhum bago se esmague, tão imbricados eles estão, tão bem aconchegadinhos!...
            Tive a dita de ler em moço o livro «Belezas Ignoradas», do Dr. Thiámer Topth, professor da Universidade de Budapeste. Comprei a 2ª edição (Coimbra Editora, 1958), que ainda conservo, qual relíquia, a precisar de encadernação cuidada. Foi com ele que aprendi a adestrar o meu espírito de observação e a admirar tantas belezas que me passavam despercebidas. Comecei, inclusive, um dossiê de folhas soltas sobre animais, em que fui escrevendo tudo o que de curioso ia lendo.  Sobre a aranha, por exemplo, um bicho que sempre me cativou, tenho manuscritas nove páginas!
            Copiei do livro «Our animal neighbours», de Alan Devoe (McGraw-Hill, Nova Iorque, 1953, p. 228) a resposta a esta pergunta: como se explica que a aranha não fique pegada à teia como os insectos que ela quer apanhar? É que deixa sempre uma «zona livre», um terreno seguro onde ela se pode emboscar, sem qualquer risco de ficar agarrada! E eu ficara a saber, na página anterior, que a aranha fabrica um fio muito fino de que se serve para tecer os sacos onde guarda os ovos; outro, mais espesso, para apanhar as presas e, à medida que vai e vem na teia, continuamente produz um fio, que é o seu fio condutor! Pensava Ariadne que descobrira uma novidade quando dera ao seu apaixonado Teseu um fio para, desenrolando-o, ele se orientar na saída do labirinto de Creta!...

José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 793, 15-02-2021, p. 11.

 

 

 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Ser gente

             A mensagem que Victor Brito hoje me enviou obrigou-me a teclar esta crónica. Assim num impulso íntimo – sem dúvida, motivado também pelos tempos que ora nos é dado viver.
            Charles  Plumb, o piloto  saltou de para-quedas quando o seu bombardeiro foi abatido na guerra do Vietname, contava a mensagem, que será bastante conhecida já. Feito prisioneiro, só ao fim de largos anos logrou ser libertado. Um dia, já nos Estados Unidos, num café, alguém lhe perguntou:
            – Você é Charles Plumb, o piloto que se salvou, não é?
– Sou, como é que sabe?
– Era eu quem dobrava o seu para-quedas! Parece que funcionou bem, não é verdade?
            O piloto sentiu um baque. Nunca ligara importância a esse homem que lhe falava agora, tantos anos volvidos, com quem tantas vezes se cruzara e a quem, decerto, nunca dera os bons-dias!...

          
E surgiu-me, de novo, a história dos meus jovens vizinhos de cabelo multicolorido que me ofereceram um bonito banco de jardim: «Sabe, é que vocês são os únicos que nos dão os bons-dias!». Ainda hoje, a sua expressão me arrepia!… E deles me lembro quando no banco me sento...
            Atropelam-se-me na memória palavras de reconhecimento e palavras de sincera discordância por parte de quem se cruza comigo. O gesto que fez bem, o gesto que marcou negativamente… Amiúde, mera expressão facial, duas ou três palavras... Ficaram na memória. Indelevelmente. Sinto-me responsável. E peço perdão por não ter sido oportuno. E fico contente quando me dizem, como há dias um amigo, ao telefone: «Não te apercebeste disso, mas a tua atitude deu-me alento». E a frase que alguém recebeu: «Bem haja pela sua enorme capacidade motivadora e por aquilo que ensina, talvez mesmo sem o saber».
            A nossa responsabilidade enorme de cidadãos.
           Evoco de novo aquele instantâneo na ilha Great Abaco, nas Baamas, em Maio de 1989. A equipa cruzou-se com uma senhora. Nós, uns estranhos. Saudou-nos num sorriso: «You welcome!».  Sorrimos também. E tenho presente o sorriso do condutor do autocarro que passa pelo meu bairro, quando lhe aceno. E a saudação habitual, em Londres, ao motorista quando se entra no autocarro e lhe agradecemos à saída!... Sim, esse o mundo de comunidade em que eu quero viver!...
         No final da mensagem, em que me respondia à pergunta se estavam bem, a minha amiga escreveu: «Tenho saudades de falar com Gente!». Acabei por lhe telefonar, no pressuposto de que… seria gente. E ambos fomos mais gente!

                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 792, 01-02-2021, p. 11.