sábado, 14 de agosto de 2021

Evocação de uma bebé romana que viveu em Serpa

            Procede de Pias, no concelho de Serpa, uma placa de mármore, guardada no Museu Nacional de Arqueologia, de Lisboa. Foi dada a conhecer já em 1940, mas não se lhe terá dado até agora a devida importância, atendendo à singularidade do epitáfio que ostenta.
Fig. 1
         Estava fragmentada em três; uma das partes perdeu-se, mas, devido a ter sido estudada completa (ver fig. 1), não ofereceu problemas de leitura o seu letreiro, redigido, como habitualmente, em língua latina:

            Apolausis | Antistiae Pr|iscae delici|um Annicia | dierum XXXXVIII | h(ic) s(ita) e(st) s(it) t(ibi) t(erra) l(evis).

           Antes, porém, de apresentarmos a tradução, cumpre assinalar os aspectos que tornam singular este monumento epigráfico (fig. 2).
Fig. 2
        Dir-se-á, em primeiro lugar, que há aspectos estranhos. A defunta – se a leitura Annicia está correcta e parece que sim – tem dois nomes, Apolausis Annicia, o que seria excepcional para uma criança de tão tenra idade, normalmente identificada apenas com um nome.
Depois, não parece normal que se diga ter a criança morrido com 48 dias; o normal seria indicar meses e dias. Essa divisão em meses não foi, todavia, adoptada e essa opção detém particular significado: contaram-se os dias e foram poucos… A carga de ternura familiar aqui patente não poderia deixar de comover o passante.
O nome Prisca – e este é o 3º aspecto – é bem conhecido e, na placa, que se destinava a ser colocada na face dianteira do gavetão onde o corpo da menina foi depositado, o que se lê é PPisca!
Que pode concluir-se daqui? Que, como de vez em quando acontece, o canteiro encarregado de gravar o letreiro não compreendeu cabalmente o que vinha escrito na minuta que lhe apresentaram e… cometeu erros!
O caso de Ppisca em vez de Prisca não causou problemas, porque de imediato se compreendeu ter havido um lapso. Já a palavra Annicia se não entendeu logo muito bem e se optou por considerar, como se disse, o segundo nome da defunta, até que um dos investigadores, apercebendo-se das outras anomalias ortográficas, apontou mais uma para aqui: o que estava na minuta era annicla (o correcto seria annicula) e não Annicia! Não era um I mas sim um L e isso mudava por completo o entendimento do texto, porque annicula, com minúscula, é um adjectivo e não um substantivo próprio e quer dizer «de um ano»! Ou seja: a menina Apolausis morrera com um ano e 48 dias!
Estamos, desta sorte, em condições de dar agora a tradução do epitáfio:

«Aqui jaz Apolausis, delícia de Antístia Prisca, de um ano e 48 dias. Que a terra te seja leve».

Os estudiosos chamaram ainda a atenção para dois outros aspectos que tornam esse monumento deveras especial:
1º) O nome dado à menina é etimologicamente grego: deriva de um substantivo que significa “delícia”, o que sugere estarmos em presença de um ambiente de escravos, porquanto, nessa época, ter nome grego era, amiúde, sintoma de origem servil, pois os senhores gostavam de dar aos seus escravos nomes bonitos, e escolhiam-nos no vocabulário grego, até para darem uma ideia de serem pessoas eruditas!
O 2º aspecto é ainda mais curioso: não bastou à senhora dar à pequenina escrava o nome de Apolausis, com o significado de ‘delícia’, como se viu: especificou o relacionamento que tinha com a defunta, que fora a sua ‘delícia’, usando agora uma palavra latina – delicium! Um jogo de palavras que manifesta, sem dúvida, elevado grau de cultura por parte desta família romana.
Cumpre acrescentar que, no conjunto das inscrições romanas conhecidas até ao momento, da palavra delicium se registam perto de 200 testemunhos, qualificando primordialmente crianças ou jovens prematuramente falecidos. Todavia, no âmbito do território hoje português, é este o único registo.
Sim, já sabemos que Apolausis constituía as delícias de Antístia Prisca. Desconhece-se, contudo, qual o grau de parentesco entre as duas. Senhora e escrava, como se disse? Poderia ter sido, contudo, a mãe (natural ou adoptiva) e a ausência de menção explícita a essa maternidade justificar-se-ia pela dor imensa causada por esta morte prematura.
            Concluir-se-á, pois, que esta placa, apesar da sua simplicidade, pode ser considerada sintoma de um grau de cultura incompatível com gentes autóctones, pelo que Antístia Prisca pode ter vindo da Península Itálica, entre os primeiros colonizadores romanos da região.
           Encontra-se a placa no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, como se anotou. Ocorrerá, pois, perguntar: ¿dada a sua singularidade, não seria de se propor a execução de uma cópia da lápide completa para figurar no Museu Municipal de Serpa?
            Essa não é, hoje, tarefa nem difícil nem dispendiosa e a possibilidade de, em devido tempo, ser considerada «a peça do mês» no Museu sempre constituiria um pretexto mais para a população se consciencializar da importância que tem a salvaguarda destas pedras com letras, por mais insignificantes que pareçam.

                                                           José d’Encarnação 

Publicado no Diário do Alentejo  (Beja), 8 de Janeiro de 2021.

 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Os duendes dos parques cascalenses

O livro Contos dos Jardins de Cascais, da autoria de Teresa Ribeiro com ilustrações de Carolina Branco, proporciona às crianças – e aos adultos, porque não? – uma viagem mágica pelos parques de Cascais.

            Trata-se de uma assaz curiosa – e até inesperada! – publicação da Divisão de Arquivo, Bibliotecas e Património Histórico da Câmara Municipal de Cascais, excelente pretexto para aliciar a demorada visita a cinco parques cascalenses: o Parque Marechal Carmona, onde se assistirá à festa do rei Glei; o Parque Palmela, onde se falará de dragões e dragoeiros; o Parque da Ribeira dos Mochos, onde se irá à descoberta de outra terra; o parque da Quinta da Alagoa, de misteriosas esculturas; e, finalmente, o jardim do Museu Verdades de Faria, para aí escutar a alma da música.

            Tudo, diga-se desde já, entremeado de deliciosos desenhos a cores – que Carolina Branco soube, às mil maravilhas, captar o verdadeiro sentido de tudo e mui sabiamente acompanhar a narrativa. Despretensiosamente (parece!...), verdadeiras obras de arte!
            Por isso, cumpre vivamente congratularmo-nos com a feliz iniciativa.

A realidade

         Tudo não passa de fantasia, claro! Mas é uma saborosa fantasia essa de imaginarmos esses magníficos espaços povoados de minúsculos seres, que, afinal, poderão estar por detrás dos troncos, das minúsculas flores, das folhas mais pequeninas, a espreitar, a convidar-nos para não andarmos assim tão depressa!...
          É, porém, uma fantasia baseada na realidade e esse aspecto deve ser devidamente valorizado. Assim, no final de cada capítulo há um apêndice com fotografias do parque real e a explicação do que os duendes nos mostraram. Pergunta-se: «Que verdade liga a…?». Ou seja: amigos, o que é que, em concreto, está por detrás desta história?
            Do Parque Marechal Carmona, nada é descurado na fantasiada descrição:
– a ribeira que vai desaguar na praia (o Canal-de-Água), nessa ânsia de comerciar e partir para outros horizontes;
– aquele estranho castelo (castelo será? Na história é Gruta-Castelo-de-Rei!...);
– e, sobretudo, a descoberta dos frutos necessários para a festa do rei: bolotas, castanhas, figos, amoras (ai, amoras, que o rei adorava!), verdadeira lição para todos…
Do Parque Palmela, ‘antigo espaço de recreio dos Duques de Palmela’, ressalta-se o pinheiro das Canárias «classificado como de interesse público, que, em 2006, tinha 24,5 metros de altura» (e quantos não terá agora?!) e, sobretudo «a fabulosa mata de dragoeiros».
Do Parque da Ribeira dos Mochos:
– os mochos e o seu bem estranho nocturno viver, que, a dado momento, se encontram com os morcegos (e como eles têm pena que os morcegos estejam a desaparecer!...);
– o viveiro municipal de plantas e flores;
– o antigo aqueduto e é por ele que os duendes não hesitam em se aventurar…
No Parque da Quinta da Alagoa, conta-se como a lagoa nasceu do buraco deixado por uma pedreira, as rãs entram na história assim como essas figuras míticas dos dinossauros com que, mui felizmente, a topiária soube adornar o espaço. Topiária, a arte de fazer jardins!
Por fim, o jardim que rodeia a Casa-Museu Verdades de Faria, onde se guardam, entre muitas outras, as relíquias do magnífico labor dos músicos Fernando Lopes-Graça, Michel Giacometti e Álvaro Cassuto. O Museu da Música Tradicional Portuguesa.
Linguagem simples, deveras acessível. As situações retratadas são as do quotidiano, plenas de apontamentos pitorescos:

«Foram encontrar os gnomos músicos a chapinhar no tanque mágico»;

«Viram as gotinhas de água a sair de uma maquineta que andava à roda, enquanto molhavam tudo à sua volta».
Dá gosto ler, mesmo por um adulto que não se coíba de se deixar levar pela fantasia como num retorno à infância.
Além dos aspectos típicos de cada parque para que, ao correr da pena, se chama a atenção – e que, no final dos capítulos, como se disse, são realçados – há que assinalar-se o rigor técnico da terminologia usada. Veja-se, por exemplo, o cuidado em informar serem de crinas as cordas dos violinos; que a madeira de epícea e de ácer são as adequadas para fabricar partes dos instrumentos musicais; que este têm alma e esta se reveste da maior importância para a qualidade do som.
Enfim, lições as mais variadas, a determinar ser esta uma leitura que obriga a parar de vez em quando, para se consciencializarem essas peculiaridades.

Os dragoeiros menosprezados pela Câmara

            No rol das árvores citadas neste livro, ocupam os dragoeiros lugar primacial:
          «O guardião da Mata dos Dragões não nos deixa entrar sem o salvo-conduto do Rei. Infelizmente tem de ser assim. Aquelas árvores são demasiadamente preciosas para o nosso Reino. Não nos podemos esquecer que é nosso dever protegê-las! (p. 87).
            Assim deveria ser.
        Chamam-se dragoeiros porque a sua seiva tem a cor do sangue dum dragão (dizia-se antigamente), bem carmesim. Era, por isso, usada em tinturaria. Neste caso, os duendes carecem dela para dar, nomeadamente às caixas dos violinos, aquela cor vermelho-acastanhada que lhes é característica.
            Depois, porque existe no Parque Palmela – significativamente chamado no livro de Mata dos Dragões, como vimos – uma pequena floresta de dragoeiros, classificada “de interesse público” pela Autoridade Nacional Florestal (Aviso n.º 5/2012, de 16 de Março). Pequena, sim, mas basto significativa, pois, ao que parece outra não há deste tamanho no nosso País. E o dragoeiro é árvore bem bonita, convenhamos; a sua floração, exuberante!
            Escreve-se, no título deste apartado, que a Câmara Municipal tem menosprezado essa pequena floresta. Tem. E importa explicar porquê. É que existem, dois painéis publicitários que impedem ao transeunte a visão plena desta beleza. Um é institucional, como se diz, ou seja, serve a publicidade da Câmara; outro foi concessionado.
Ora acontece que, entre as medidas de gestão, designadamente para melhor usufruto dessa mata de espécies únicas, foi proposta a retirada desses painéis.
Iniciou-se, por isso, a 21 de Março de 2017, nos serviços camarários, por pronta intervenção da Cascais Ambiente, o processo que propunha a retirada de, pelo menos, o painel institucional gerido pela Câmara. Esse processo seguiu todos os trâmites necessários em tais situações, sempre angariando pareceres favoráveis, tendo culminado com a proposta de concordância, por parte do Director do Departamento de Gestão Territorial, Luís Campos Guerra, datada de 12 de Julho de 2017. Houve ocasião, a 1 de Junho de 2020, de insistir na resolução do assunto (referência E-DCID/2020/8367).
            Passaram, portanto, quatro anos e… nada! Já na imprensa local se falou disso amiúde. Aliás, Vasco Manuel Almeida da Silva, do Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves”, do Instituto Superior de Agronomia, publicara na revista Bouteloua, nº 21 (Junho de 2015), p. 123-133, o artigo «A mata de dragoeiros do Parque Palmela em Cascais (Portugal), contributos para a sua valorização».
            Pode ser que estejamos enganados, mas, pelo menos aparentemente, o Executivo não se tem verdadeiramente empenhado para que os seus técnicos dêem seguimento à sugestão preconizada.

Conclusão

            Publicou a Divisão de Arquivo, Bibliotecas e Património Histórico da Câmara Municipal de Cascais – e fez muito bem! – estes Contos dos Jardins de Cascais. Aí se faz claramente e com realce o elogio dos dragoeiros do Parque Palmela.
            É, pois, mais um bom pretexto, mesmo antes de a campanha eleitoral autárquica começar, para que o Executivo faça jus à sua proclamada vontade de valorizar o património natural concelhio! 
 
                                                               José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 09-08-2021: