sexta-feira, 15 de julho de 2022

Os talentos

            Antes de partir, o senhor chamou os empregados e deu a cada uma porção de dinheiro, com a recomendação de que dele se servissem como achassem melhor.

Na parábola do Evangelho (Mateus 25, 14-30), especifica-se: deu talentos. O talento era a moeda de então, como o euro agora. Fazia parte do sistema monetário romano e torna-se hoje bem difícil ajuizar quanto poderia valer. Fica-se, porém, com a ideia de que o senhor da parábola não teria sido parco na oferta.
            Conhece-se a continuação da história: cada um fez como lhe pareceu melhor e, no regresso, o senhor premiou quem lograra obter maior rendimento.
            De talento, moeda, a palavra ganhou – porventura devido à parábola – o conceito de dote, capacidade específica que o animal detém logo à nascença: «Nasceu para…». Claro, de imediato nos ocorre «nasceu para ser feliz», o anseio de todos os humanos. Há, contudo, o lado concreto: nasceu para ser músico, atleta, professor, político…
            Acentua-se, por conseguinte, o dom natural, a propensão inata, sabendo-se, todavia, que esse dom pode vir a ser amarfanhado ou potenciado. A Psicologia aponta nitidamente para a potenciação, partindo do princípio de que, se há dotes adquiridos pós-nascença, eles só foram possíveis por haver para eles plataforma favorável.
            Não gosto do nome do programa Got Talent:
– 1º) porque, embora compreenda a obrigatória obediência ao paradigma criado pelo talentoso inglês Simon Cowell, se poderia ter salvaguardado, no contrato, a possibilidade de o baptizar com nome português;
– depois, porque got significa adquirido e, se é certo que o talento se aperfeiçoa, caso ele não esteja na matriz da pessoa, escusado será pensar que ela venha a ser… talentosa.
Compete a cada um – e primeiro aos pais e aos educadores – observar-se e observarem, a fim de se fazer a escolha acertada.
Se temos de prestar contas de como usámos os talentos? A parábola não admite excepções!
Não nasci para ser marceneiro; até o vulgar parafuso não fica bem à primeira! Há, porém, um talento que faço questão em potenciar. Único, excepcional, perecível, fugidio, difícil de agarrar: o tempo! 24 horas do dia, 60 m numa hora, 60 s num minuto! Considero-o o talento mais importante. E esse todos o temos! À nascença!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 826, 15-07-2022, p. 12.  [Imagem de Vagda Campos]

Post-scriptum: Na época romana, o talento era uma moeda de conta, ou seja, nunca foi uma moeda física efectiva. Atribuía-se-lhe o peso de 27,300 gramas e valia 100 asses. Recorde-se que o denário (palavra donde deriva ‘dinheiro’) valia 10 asses.

 

 

Cada um nasce... (A propósito de António Salvado)

            «Cada um nasce para o que é fadado» – tema de fado, seguramente, a reflectir ideia generalizada. E é verdade, por mais excepções apresentadas.

Vejam-se os músicos: quantos não começaram a tocar aos 3 anos, alguns a compor antes dos 10!
Desses fiéis seguidores das pisadas previstas, alguns, chegados ao tempo de as revisitar, ousam mostrar como haviam sido os primeiros passos, titubeantes embora.
Foi o caso de António Salvado, poeta. Após dezenas de livros publicados, muitos milhares de versos escritos, decidiu voltar a publicar agora poemas vindos a lume em 1951 (do opúsculo «Poemas da Alma») e 1952 (de «Imensidade») no livro Primeiros poemas, edição de 2021 de RVJ – Editores, Castelo Branco, 200 exemplares, 40 páginas, propriedade da Junta de Freguesia de Castelo Branco. Terão sido esses os primeiros e não «A Flor e Noite» que se mencionou “como o primeiro livro publicado pelo poeta”.
Intitulou António Salvado “Para ser lido” o prólogo deste livrinho. Explicita, aí, as recordações do jovem sonhador e, embora termine a concordar com a frase do crítico de 1952, “a precocidade nem sempre revela um génio para o futuro”, há a secreta esperança de que, não podendo, por modéstia, considerar-se um génio, António Salvado quis este regresso, quase numa obediência ao vaticínio de António Machado, “são tuas pegadas o caminho e nada mais”.
Longo caminho, esse, sem dúvida. A aplaudir.
Cumpria analisar, agora, poemas e deles inferir do caminho. Tarefa, porém, que se deixa ao leitor, ainda que se não resista a agarrar num desses passos da caminhada, arbitrariamente colhido. Esse, da pág. 15, convite a que se dê às crianças a liberdade de correr, mesmo que se possa ficar temeroso de que alguma passada a mais lhes possa vir a ser prejudicial. Escrito em 1951 e lido agora, em 2022, em clima completamente diverso, o apelo ganha ainda maior relevância, todavia: a liberdade de correr, num tempo em que surgem por toda a parte bons espaços para isso e, amiúde, o que falta é a vontade. “Deixa-as correr como o vento!” – saboreando a alegria de viver!
A Poesia, sempre, a desvendar caminhos!
Primeiros Poemas faz-se acompanhar de Nunca Ali o Azul (Sirgo, MMXXI, 12 p
áginas), a Poesia a comentar argutamente a Pintura de Cruzeiro Seixas, Artur Bual, Costa Camelo, Noronha da Costa, Júlio,  Álvaro Perdigão e Cargaleiro. Uma iniciativa de Cadernos de Quarto Minguante.

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Reconquista [Castelo Branco] nº 3982, 07-07-2022, p. 35.

 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Os nossos bordões

            – Não sei se sabes, mas no começo do século XX…

A frase chocou-me.
Inesperadamente.
Não me apercebera ainda de que, na boca de um entrevistado para um entrevistador, ela poderia significar de algum menosprezo. Inconsciente, claro!
Se o entrevistador fora pessoa sensível, teria razão para se melindrar e dar, até, uma resposta menos cordata. Não deu. E a conversa prosseguiu naturalmente.
Eu é que, enquanto saboreava a torrada com manteiga, dei comigo a pensar na quantidade de frases proferidas no quotidiano, susceptíveis de poderem ofender ou desagradar ao nosso interlocutor.
Não, já não falo do hã?! tão frequente em alguns dos  nossos locutores a quem não houve o cuidado de ensinar os mecanismos da boa respiração radiofónica. Chateia-me ouvir; desculpo, embora não compreenda.
Também não refiro «O quê?» com que amiúde somos bombardeados. Está um grupo na conversa; chega alguém, e quer logo entrar: «O quê?». Como quem pergunta: «O que é que vocês estão para aí a dizer?». Apetece-me sempre responder: «Espera aí, homem, já compreendes!».
Volto à frase inicial, para referir duas outras passíveis de ofender.
Bordões lhes chamamos nós em linguagem. «Palavra ou frase que se repete inconscientemente na conversa ou na escrita», explica-me um dos meus dicionários e aponta, até, como etimologia, a palavra latina burdo, que significa ‘mula’, quiçá (informa-me outro) por ser outrora o muar o bordão habitual do peregrino… «Não sei se estás a ver», «Estás a perceber?...» – aí estão eles!
E, como se vê, a ignomínia da incapacidade de compreensão é atirada para o interlocutor, quando o mais cordato seria, por exemplo: «Estou a explicar-me bem?».
E agora pergunto eu: será que me expliquei?

                José d’Encarnação

    Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 825, 01-07-2022, p. 12.