Acredita-se,
aliás, que também há certa conveniência em fazer de conta, dar alguma linha,
como faz o pescador quando o peixe pica: deixa-o sossegado três segundos e…
puxa rápido, para o apanhar desprevenido!

E
porquê?
Porque
– então como hoje – são bem nossas conhecidas as personagens que vão
perpassando diante de nós, ainda que usando guarda-roupa excêntrico a condizer com
a sua função (grande abraço de
parabéns, Fernando Alvarez!): ele é o cauteleiro, o judeu errante, este político,
aquele político, este eleitor, aquele eleitor (se bêbado ainda melhor, porque
de fala mais desbragada e feroz…), o accionista, o banqueiro, o candidato, o
cego, o mane ta, o que anda de gatas,
o que tem muletas… Alto aí! Isso é um palco ou corredor de serviço de urgência
hospitalar? É. Uma coisa e outra. O pior é que não há médicos por perto. Uma
fada, um D. Quixote, o ministro da reinação ,
o lírico, o satânico, a princesa Ratazana… servirão? Não servem.
E,
de retrato em retrato, vamos rindo, vamos sentindo na pele o que ali em tom
jocoso (só aparentemente jocoso, diga-se) vigorosamente se retrata, sem pudor. Porque
não havia pudor. Sim, escrevi «havia», porque a peça foi escrita por um tal de
Gil Vaz, pseudónimo (veio a saber-se) de Guerra Junqueiro e Guilherme de
Azevedo, uns trastes, uns desbocados, uns tipos malcriados que não respeitavam
a ordem estabelecida, que eram capazes de pôr o destemido candidato a um lugar
político a envergar traje cheio de bolsos donde podia ir tirando tudo o que eram
prebendas (promessas!...) para quem se dispusesse a apoiá-lo!...

«A
nossa aversão à mudança será sempre inversamente proporcional à competência de
quem nos governa, governou e há-de governar».
E
constata, com amargura:
«Simplesmente
já não temos a verve do final do século XIX para nos expressarmos com o mesmo
humor e ironia ou, se calhar, estamos demasiado cansados para o fazer».
E
continua:
«Mandam-nos
emigrar, mas talvez seja mais correcto assumir que devíamos todos optar pelo
exílio». […] Temos de nos perguntar se conseguimos abandonar a Parvónia antes que
ela se apodere de nós».
Rimo-nos.
Rimo-nos muito. Sátira é, quase opereta, a que a divertida música original de
Luís Pedro Fonseca e a ajustada coreografia de Paulo Jesus emprestam maior
sabor!
É,
porém, um riso bem amargo, oh! se é!...
E
surgem-me de novo, inexoráveis, as palavras de Gustave Le Bon, no seu A Psicologia das Multidões, publicado em 1895, por conseguinte não
muito tempo depois desta Viagem à roda da
Parvónia:
«O programa
escrito do candidato não deve ser muito categórico, pois os seus adversários
poderiam mais tarde atacá-lo com base nesse facto; mas o programa verbal nunca
é exagerado. Podem prometer-se sem receio as mais amplas reformas, No momento,
os exageros produzem bastante efeito e não comprometem o futuro. O eleitor não
se preocupa nada em saber se o eleito obedeceu a profissão de fé aplaudida e à
qual deve a vitória. […] O candidato que consegue descobrir uma fórmula nova,
bastante destituída de significado preciso, e, por consequência, adaptável às
mais diversas aspirações, obtém um sucesso infalível».
Estreada
no sábado, 13 de Abril deste ano da graça de 2013, no Teatro Municipal Mirita
Casimiro, ao Monte Estoril, pela companhia do Teatro Experimental de Cascais, Viagem à roda da Parvónia estará em cena
– até 26 de Maio – de quarta a sábado às 21h30, ao domingo às 16h00 (tel. 214
670 320).
A
não perder! Para ver se acordamos de vez!
Publicado em Cyberjornal, 2013-04-22:
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