Sob o título
«Acarear água», escrevi no Noticias de S. Braz (nº 310, 2022, p. 13) as
diligências que outrora se tinham de fazer para «acarear água», ou seja, para a
ir buscar e poupar. Nessa crónica disse, por exemplo, que «ao chafariz – ou,
pelo Inverno, à nascente que brotava límpida do chão a uns 200 metros de casa –
lá ia eu, de improvisado chinguiço ao ombro, e um balde de cada lado».Lembrei-me agora
de verificar se a palavra ‘chinguiço’ constaria no Dicionário da Língua
Portuguesa (da Academia das Ciências de Lisboa), em perene actualização,
por ser digital. Estava lá o seguinte:
«Peça
almofadada, de forma semicircular, que os carregadores colocam em torno do
pescoço e sobre a qual assenta a vara que suporta o peso da carga.
Citava-se, a
esse propósito:
«Aos andaimes, pelas travejadas rampas de
madeira, sobem homens as pedras suspensas do jugo que sobre os ombros e a nuca
lhes assenta, para sempre seja louvado quem inventou o chinguiço, alguém a quem
lhe doía» (José Saramago, 1982, p. 160).
E explicava-se:
Peça almofadada
sobre a qual assenta a correia usada para emparelhar os bois:. “Antes de
atrelar os animais, o lavrador ajustou o chinguiço para evitar que a correia
ferisse os bois”.
Portanto, a
princípio, apenas à almofada se chamava ‘chinguiço’; por extensão (por
metonímia, diz-se em gramática) passou, a dada altura, a dar-se esse nome a
todo o conjunto. Por isso, agora, numa 2ª acepção da palavra, como «regionalismo
algarvio», a explicação nesse Dicionário está mais completa: «Vara de madeira, em
geral ligeiramente curva, que se apoia nos ombros e de cujas extremidades
pendem recipientes ou outras cargas, permitindo transportá-los de forma
equilibrada» (veja-se https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=chinguiço).
Mais um termo,
pois, a mostrar a originalidade dos nossos falares barrocalenses.
José d’Encarnação
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 357, 20-08-2026, p. 13.

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