Além da conhecida palha de Abrantes e da tigelada, a cidade de Abrantes reserva novidades dignas de serem conhecidas e a arqueologia urbana acaba por nos reservar surpresas não esperadas!

Assim, a arqueóloga Célia Silva – que já descobrira, num buraco de parede, uma carta de 1721 a encomendar coelhos – encontrou, no forro desse mesmo edifício, um carrinho de linhas de madeira, tampas de publicidade redigida em francês (!) a uma pomada da marca ELGA – «pomada superior de cera sem ácido para calçado» – e a uma outra, essa portuguesa, pois que a legenda proclama: «Só a Rosinha dá brilho assim!!».


Este carrinho de linhas de madeira levou-me aos meus tempos
de menino e, confesso, acabei por não seguir com a devida atenção a brilhante
exposição da Dra. Célia Silva.
E que a um carrinho de linhas assim, nós, moços pequenos,
cortávamos as extremidades de modo a ficarem em jeito de rodas dentada e
imaginávamo-las rodas dos tanques de guerra, que fazíamos movimentar à força de
elásticos enrolados no sítio da linha e que, desenrolando-se devagar, faziam o
‘blindado’ avançar. Por vezes, até canhão lhe púnhamos: um pau de fósforo
servia às mil maravilhas para o efeito!
Pode acontecer que haja desses brinquedos imaginados em
Museus de Brinquedos ou em imagens de livros infantis. Adorava saber!
Aliás, no decorrer do colóquio organizado, no passado dia 26
pela Câmara Municipal intitulado «A Arqueologia Urbana ao Serviço da
Comunidade», Célia Silva mostrou tábuas com inscrições deveras curiosas, como
esta em que se lê:

Realizado no auditório do Museu de Arte Contemporânea
Charters de Almeida, este primeiro Colóquio da série prevista para mostrar a
cidade na sua relação com o rio ao longo dos séculos – «Abrantes, o Tejo e o
Tempo» – teve por objectivo mostrar como as intervenções arqueológicas levadas
a efeito no âmbito da própria cidade, além de não serem “empatas” do
desenvolvimento urbano, acabam por enriquecer o património, inclusivamente dos
prédios que vão ser renovados ou dos novos que aí virão a ser construídos.
Daí que se fale em “serviço da comunidade”, porque, tal como
as árvores necessitam das suas raízes para se alimentarem, assim a população
duma cidade carece de saber de onde veio, das fases por que passou, para melhor
compreender o seu presente.
Deu-se conta, pois, das intervenções feitas no centro
histórico de Abrantes, cujos conventos e colégios foram sendo paulatinamente
adaptados a outras funcionalidades. Luis Peri e André Freitas (da empresa
Gestcult) mostraram, por exemplo, as fases por que passou a transição do antigo
Convento de Nossa Senhora da Esperança para o Colégio de Nossa Senhora de
Fátima.

Por outro lado, a cidade de Abrantes deteve – e continua a
deter – uma posição estratégica, tanto do ponto de vista militar (veja-se o
papel que desempenhou no quadro das invasões francesas) como económico, pela
sua proximidade do Tejo (ia-se por via fluvial de Lisboa a Abrantes!…). Haja em
vista que os trabalhos de reabilitação do Cineteatro São Pedro permitiram
concluir que o local fora utilizado como cemitério entre 1810 e 1811, ou seja,
precisamente por altura das referidas invasões.
A cidade careceu, por conseguinte, de estar bem defendida e
não deixou de ser curioso que, ao se proceder a escavações nos edifícios
pertença da Misericórdia local, se haja encontrado um pouco da linha defensiva
militar da cidade. Por seu turno, o Convento de São Domingos estudado por
Filomena Gaspar e Vânia Janeirinho também sofreu alterações, de modo que as
investigadoras apontam para o local a seguinte trilogia em sequência: convento,
quartel e necrópole!
Esse, de resto, o espírito que preside às intervenções no
âmbito da Arqueologia Urbana: na sua estrutura urbana, a cidade está viva e,
por isso, o que se vai modificando não pode destruir, mas reabilitar, o que
está para trás, como memória a preservar. Nesse aspecto e também para esse
efeito, Abrantes dispõe já de uma notável rede museológica, de que podem
citar-se o referido Museu de Arte Contemporânea e o Museu Ibérico de
Arqueologia e Arte, galardoado este, pela Associação Portuguesa de Museologia,
em 2023, com o prémio “Museu do Ano”.
Publicado em Duas Linhas, 30 de Setembro, 2026:


De Regina Anacleto:
ResponderEliminarPenso que ainda tenho um carrinho daqueles, com linha, na caixa da costura. Sei que com eles se faziam brinquedos e com outras coisas semelhantes. O que aparece no interior das paredes das casas e escrito nas madeiras pode dar pistas interessantes. Aqui, no Seminário [de Coimbra], estão a fazer obras de conservação e, há tempos, montaram uma exposição com as portas dos quartos, onde se podiam ler memórias significativas.
Na casa que era dos meus avós maternos, os fulanos que me compraram a casa descobriram
[o lintel da porta com esta inscrição 1875 A. DIAS]..
Ou seja: o pai da minha avó mandou fazer a casa no ano em que ela nasceu.