quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A intrincada história de maçónicos beneméritos, arquitectos célebres e despejos odiosos!

          


 Embrenhar-se no que se diz e escreveu acerca dos dois imponentes edifícios abandonados – e também por isso envoltos em mistério – junto ao cemitério de Camarate (concelho de Loures) é bem complexo labirinto, de cuja saída, durante bastantes horas, eu procurei – qual Teseu – encontrar o fio de Ariadne.

Não encontrei.

Ou melhor: por outros labirintos mais complexos acabei por me embrenhar e, por isso, resolvi, alfim, ir bater à porta certa: o Dr. Jorge Afonso, mui prestável técnico do arquivo da Câmara Municipal de Loures. Esta crónica deveria, aliás, ser também assinada por ele, pois Jorge Afonso teve a gentileza de me ajudar cabalmente a pôr os pontos nos is.

Foram aqueles edifícios inacabados existentes na vetusta Quinta do Guarda-Mor mais uma das beneméritas iniciativas do proprietário dos Armazéns Grandella, o empresário e filantropo Francisco de Almeida Grandella (1853-1934)? Saíram os seus projectos da prancheta do célebre arquitecto Rosendo Carvalheira (1861-1919), a quem se ficaria também a dever o então chamado Sanatório de Santana, na Parede (Cascais), de magnífica traça arquitetónica? E esses actuais ‘monstros’ têm algo a ver com a intenção de um sanatório para tuberculosos no Cerro de Montachique, no mesmo concelho de Loures?...

Puseram-se as questões. Apresentam-se agora os dados, resultantes da leitura de vários documentos do processo de licenciamento em informação pública, existente num arquivo público, o da Câmara de Loures. Diz-me Jorge Paulo Afonso que a sua colaboração «foi mínima, apenas no sentido de permitir a um investigador produzir um texto sobre um edifício do concelho de Loures», com base nos dados constantes no Arquivo Municipal de Loures e ao Processo nº 34432/Antigo (1969). Não foi mínima – e fico-lhe grato.

As fases do processo

            Atendendo, então, às vicissitudes relacionadas com os edifícios, mais facilmente se lograrão compreender as fases do processo, dando a cronologia dos acontecimentos:

1969 – A Câmara Municipal de Loures, nesse ano e também posteriormente em várias ocasiões, solicita ao inquilino da casa da Quinta do Guarda-Mor que sejam realizadas obras de manutenção.

1971 – Em Abril, a Câmara Municipal de Loures vistoria novamente o edifício existente, que apresentava riscos motivados pela sua ruína, informando o proprietário, José Maria Gonçalves, que teria de proceder a obras de consolidação.

1973 – Em Fevereiro, o director da empresa SOLATU – Sociedade Familiar de Administração de Propriedades para Lavoura e Turismo, SARL, apresenta um pedido de alteração do uso do edifício, para Casa de Repouso, em conjunto com uma profunda ampliação para as traseiras.

1974 – José Maria Gonçalves, na qualidade de “proprietário” da Fundação Santa Maria da Silva apresenta novos pedidos de alteração à propriedade, acrescentando um edifício de traça semelhante ao alterado e um, mais baixo, para garagem de ambulâncias e instalação do pessoal afecto à, agora, clínica, que aí se propunha edificar. Essa fundação deve o seu nome à padroeira do local onde José Maria Gonçalves nasceu, Silva, no concelho de Valença; embora já existisse desde 1973 com essa designação, a Fundação Santa Maria da Silva só tem existência legal a partir de 1989, possivelmente por intervenção de Francisco Maria da Silva, empresário ligado à construção civil e responsável por extensa obra urbanística na região de Lisboa.

1975 – Sem ainda estarem concluídos, mas tendo-lhe sido dada já a designação de Lar Panorâmico, os edifícios são entregues, por contrato, ao IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais), para aí alojar umas seis centenas de cidadãos provenientes das ex-colónias, principalmente de Moçambique e da Guiné.

1986 – A Câmara Municipal de Loures inicia um processo de expropriação da parte rústica da quinta, para instalação do cemitério municipal de Camarate.

1987 – No final de Maio, por imposição da Fundação, o Tribunal decide que a expropriação da Câmara Municipal de Loures deve ser pela totalidade da propriedade. A 2 de Junho, eclode aí um incêndio e, conseguintemente, a Câmara Municipal de Loures opta pela evacuação dos edifícios, mas alguns ocupantes não são realojados.

1993 – O Tribunal decide a desocupação total dos edifícios. Os ocupantes são despejados com alguma violência e forte presença policial, despejo que teve larga repercussão na Comunicação Social, houve quem lhe chamasse “O escândalo de Camarate”, aliás, reportagens televisivas foram várias. A Fundação Santa Maria da Silva recupera, pois, a posse da propriedade e, até ao momento (Outubro de 2026), não foi realizada qualquer obra de recuperação.

Deslindando a arquitectura

Voltando a uma das questões que se tem levantado: a referida intervenção (ou não) de Rosendo Carvalheira nalguma das fases do processo, necessariamente antes de 1919, data, como vimos, da sua morte. Nenhuma intervenção se documenta. Na verdade, para o local, a referida empresa SOLATU faz dar entrada na Câmara um projecto de alterações (alçado principal e posterior) da citada Casa de Repouso (Procº nº 34432, folha nº 333). Por falta de tinta, não se consegue decifrar a data, que será de um dia 12 dum mês (SETembro?) da década de 90. Não se logra também identificar a rubrica do técnico, que teria talvez o nº 118.

Projectos de alterações aos dois edifícios apresentados por SOLATU

Anote-se, porém, que a figura do ‘arquitecto’ tal qual a entendemos hoje – especificamente diplomado – não existia então. Para além da notável Escola Industrial Machado de Castro, donde saíram importantes vultos do traço arquitectónico, existia também a Escola de Desenho Industrial Afonso Domingues – e aí se formavam ‘arquitectos’.

Ora, atribui-se, por vezes, o projecto dos Paços do Concelho de Loures a Rosendo Carvalheira. Não é verdade: foi Tiago da Silva Santos, que se intitula «construtor civil nº 358» quem, em 1913, gizou esse projecto e o ofereceu à Câmara, enquanto era vereador, a 30 de Março. Rosendo Carvalheira foi apenas chamado para dirigir a obra, que durou até 1916, e procedeu a alterações ao edifício, por falta de mão-de-obra especializada para determinados trabalhos, designadamente no telhado.


 

Em conclusão

            Embora localizados numa das várias quintas nobres existentes nos arredores da capital, os edifícios degradados que parecem vigiar o campo santo de Camarate nada têm de sacrossanto histórico que remonte a prístinos séculos. São, como vimos, obras inacabadas, com pouco mais de um século, e a intenção de virem a constituir um «Lar Panorâmico» (de facto, a vista dali é deveras panorâmica), com vertente de lar, um, e de residência de pessoal, o outro, não se insere numa lógica predominante de benemerência.


            Recentemente se fez uma ‘campanha’ de registo fotográfico, de iniciativa camarária, na medida em que há que tomar decisões e, por diversas vezes contactada, a Fundação de Santa Maria não se consegue que dê acordo de si.

                                                        José d'Encarnação

P. S.: Versão complementar do que foi publicado em Duas Linhas, a 7 de Outubro de 2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/macons-benemeritos-e-despejos-odiosos/

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