Das muitas
frases que, diariamente, nos aparecem na pantalha do computador ou no pequenino
ecrã do telemóvel algumas conseguem fazer-nos parar; muitas não, até porque são
invasoras, surgem quais estrelas cadentes e nós estamos, frequentemente, noutro
cumprimento de onda, sem capacidade receptiva.
Estoutra
constituiu excepção, porque, além de atribuída a um grande orador romano do
século I antes de Cristo, me calou fundo, por ser, como sói dizer-se: lapidar!
‘Lapidar’ tem
esse forte sentido de ser curta, adequada, também por isso, a poder ser gravada
na pedra, a fim de perdurar. Não a mandou gravar Cícero numa epígrafe: escreveu-a,
sim, na 4ª carta do livro IX das «Epístolas a Familiares», dirigida, neste
caso, ao seu amigo Varrão. Diz o seguinte, na versão que me chegou:
«If you have a
garden and a library, you have everything you need» – «Se tens um jardim e uma
biblioteca, tens tudo aquilo de que precisas».
Acontece,
porém, que, desgarrada do contexto e mal traduzida, a frase ganhou notoriedade
e significado diferente daquele que Cícero lhe deu. Na verdade, o texto
original é: «Si hortum in bibliotheca habes, deerit nihil», «Se tens um jardim
na biblioteca, nada faltará».
Deixando de
parte as conjecturas filosóficas que despertou, lembrei-me do meu amigo Luís. A
esposa tem como passatempo cuidar do pequeno jardim que lhes envolve a casa. Isabel
passa horas esquecidas a apanhar folhas caídas. Há sempre “Folhas Caídas” – já
Garrett o proclamara. Assim como, no jardim, o mais normal é deliciarmo-nos com…
«Flores sem Fruto».
O Luís é
jornalista e escritor. Por vezes, são também as flores do jardim que lhe inspiram
crónicas, na vontade de serem mensagem a saltar os muros e a tocarem, se
possível, dezenas e até centenas de leitores.
Aposentados
ambos, optaram, pois, por aposentos complementares. Para Isabel, a serenidade
do jardim; tantas experiências viveu Luís por desvairadas paragens que prefere o
sossego do escritório, com livros e dicionários à mão, em tudo se baseando para
transmitir experiência e contar do que aprendeu.
Mas para
Cícero, hoje, o duo seria jardim e telemóvel, tendo consciência plena de que a volatilidade
deste último jamais conseguiria substituir a material solidez das folhas que, a
bel-prazer, se deixam manusear.
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 895, 20-10-2026, p. 10.


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