quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Jardim e biblioteca

            Das muitas frases que, diariamente, nos aparecem na pantalha do computador ou no pequenino ecrã do telemóvel algumas conseguem fazer-nos parar; muitas não, até porque são invasoras, surgem quais estrelas cadentes e nós estamos, frequentemente, noutro cumprimento de onda, sem capacidade receptiva.
Estoutra constituiu excepção, porque, além de atribuída a um grande orador romano do século I antes de Cristo, me calou fundo, por ser, como sói dizer-se: lapidar!
‘Lapidar’ tem esse forte sentido de ser curta, adequada, também por isso, a poder ser gravada na pedra, a fim de perdurar. Não a mandou gravar Cícero numa epígrafe: escreveu-a, sim, na 4ª carta do livro IX das «Epístolas a Familiares», dirigida, neste caso, ao seu amigo Varrão. Diz o seguinte, na versão que me chegou:
«If you have a garden and a library, you have everything you need» – «Se tens um jardim e uma biblioteca, tens tudo aquilo de que precisas».
Acontece, porém, que, desgarrada do contexto e mal traduzida, a frase ganhou notoriedade e significado diferente daquele que Cícero lhe deu. Na verdade, o texto original é: «Si hortum in bibliotheca habes, deerit nihil», «Se tens um jardim na biblioteca, nada faltará».
Deixando de parte as conjecturas filosóficas que despertou, lembrei-me do meu amigo Luís. A esposa tem como passatempo cuidar do pequeno jardim que lhes envolve a casa. Isabel passa horas esquecidas a apanhar folhas caídas. Há sempre “Folhas Caídas” – já Garrett o proclamara. Assim como, no jardim, o mais normal é deliciarmo-nos com… «Flores sem Fruto».
O Luís é jornalista e escritor. Por vezes, são também as flores do jardim que lhe inspiram crónicas, na vontade de serem mensagem a saltar os muros e a tocarem, se possível, dezenas e até centenas de leitores.
Aposentados ambos, optaram, pois, por aposentos complementares. Para Isabel, a serenidade do jardim; tantas experiências viveu Luís por desvairadas paragens que prefere o sossego do escritório, com livros e dicionários à mão, em tudo se baseando para transmitir experiência e contar do que aprendeu.
Mas para Cícero, hoje, o duo seria jardim e telemóvel, tendo consciência plena de que a volatilidade deste último jamais conseguiria substituir a material solidez das folhas que, a bel-prazer, se deixam manusear.

                                                 José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 895, 20-10-2026, p. 10.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário