Escreveu Rainer Daehnhart minúsculo livrinho a explicar o significado
original desta palavra «fanar» e desta expressão «meter a unha».
Boa surpresa!
Vai-se ao Dicionário da Academia e, aí, sem aparentemente qualquer sombra
de dúvida, se aponta, entre outros significados mais correntes, o de «fazer
perder ou perder a energia, a frescura, o viço», indicando-se como sinónimo «murchar».
Essa conotação prende-se com o verbo francês ‘faner’, que detém, originalmente,
o significado de ‘desfalecer’, donde deriva, por exemplo, a expressão «deu-lhe
um fanico», desmaiou, ainda que haja dicionários onde se aponta, logo em primeiro
lugar, a ideia de «remexer a erva (para a deixar secar)».
Quanto a meter a unha é a expressão coloquial, quase de calão, para
eufemisticamente expressar a ideia de ‘roubar’, explorar, vender caro. Aliás, em calão, fanar é exactamente o sinónimo de
‘roubar’.
Estávamos, portanto, muito longe de imaginar que verbo e expressão
tivessem uma origem bem concreta, a remontar ao período em que Portugueses
andavam, pelos séculos XV e XVI, em negociatas orientais. Negócio implica
compra e venda, implica pagamento de impostos, implica moedas. E é aí que entra
o fanão, pequenina moeda de ouro, com o peso aproximado de meio grama
(0,37/0,54 g), uma ninharia!
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| Capa do livrinho |
Conta Rainer Daehnhart que os nossos vice-reis da Índia recebiam fanões
em pagamento de direitos tributários. «Embora batidos no Indostão e no Ceilão,
os fanões», acrescenta Rainer, «correram durante perto de um milénio em todos
os portos, desde a ilha de Moçambique até Malaca».
E, afinal, qual é essa história do meter a unha e do fanar?
Muito simples: pagavam-se impostos com uma boa porção dessas moedinhas
minúsculas. Por conseguinte, foi necessário engendrar uma forma expedida de as
contar. Inventou-se, por isso, uma tábua com um certo número de concavidades (50,
100 ou 200). Despejava-se a bolsinha por cima da tábua e, com gesto firme, rasoirava-se
a superfície, a fim de que todos os buraquinhos ficassem ocupados. E é aqui que entra a unha, porque o
funcionário encarregado da tarefa (dizem as más-línguas…) deixava, de propósito,
crescer a unha do dedo mindinho, preciosa ajuda para que alguns fanhões deslizassem
sorrateiramente para outro sítio, que não o buraquinho apropriado!… Excelente,
pois, eficaz o papel da unha grandinha!
Assim se fanava, assim se metia a unha! Assim se ajuntavam sub-repticiamente
bem apetitosos fanhões de ouro. Eu tenho um, mas foi oferta!...
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| Moeda fanão do Índico (autêntica) |
Bem andou, pois, Rainer Daehnhart em dedicar algum do seu precioso tempo (não
é lugar-comum, é precioso mesmo!) a explicar minuciosamente como tudo se passou.
O livrinho tem a data de 26 de Julho de 2004 e chama-se Fanar Fanões.
E conta, no final, Rainer Daehnhart como uma dessas moedinhas lhes salvou
a vida, a ele e à avó, quando se dispunham a atravessar a fronteira (estava-se em
plena Segunda Grande Guerra!), vindos da Alemanha de Leste. Os soldados
americanos não os deixavam passar e, aí, a avó não esteve com meias medidas: descoseu
a borda da saia de chita onde escondera – junto aos habituais pequenos pesos do
chumbo destinados a manter a saia esticada – um punhado de fanões de ouro, com
que alegremente subornou a vigilância. Os militares trincaram; viram que era
mesmo ouro de lei e… cá temos, ainda hoje, Rainer Daehnhart, são e salvo, para
nos contar a história!
José d'Encarnação
Publicado em Duas Linhas, 16-10-2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/fanar-e-meter-a-unha/





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