Permita-se me que transcreva a síntese exarada na badana do livro Tempo sem Luz:
«Numa manhã aparentemente comum, um comboio parte de Lisboa rumo ao Porto, transportando passageiros cujas vidas seguem, por instantes, em paralelo –distantes, mas prestes a cruzar-se num ponto irreversível. Cada um deles carrega consigo uma história suspensa: o reencontro entre irmãs feridas pelo luto, um jovem arquitecto em busca de identidade, um bailarino às portas de um sonho, uma professora reformada em peregrinação íntima, um músico derrotado e um homem em rota de regresso ao amor que nunca perdeu».
Desconheço se
houve já romance a dar conta do que foram as nossas vidas no dia 28 de Abril de
2025, das 11,33 horas até por volta das 23. O «apagão»! Este, porém, de António
Tavares, Tempo sem Luz, resume a galopante infinidade de situações, sensações,
dúvidas, que, nessas e nas horas subsequentes, sobrevieram de rompante.
Tudo isso esmeradamente
retratado numa prosa lídima, tersa, que prende do princípio ao fim.
Incitar
veementemente a esta leitura? Faço-o com todo o gosto e plena consciência de
que nenhum leitor, assim que pegue no volume, o largará até saber o final,
porque será também seu esse reviver.
Quedar-se-á,
aí, a imaginar no final a Irmã que «dera mãos a desconhecidos, ouvira
confissões quebradas», numa prece a erguer «os olhos para o céu que escurecia,
a luz tocava-lhe o rosto com suavidade»...
Há-de, porém,
ter longamente parado a reler a página 118 («E quando descobriram… E quando
descobriram…») ou a tomar consciência do significado profundo – para quem esse
dia viveu – da frase inserta na página 9:
«O passado
havia sido convocado pelo apagão e insinuava-se nas ranhuras da velha cidade».
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), n.º 894, 20-9-2026, p. 10.

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