quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Abraçadeira

            Guardei religiosamente o papelinho no porta-moedas. Quando cheguei à drogaria, dei-o ao Ricardo:
– Encomendaram-me isto!
– «2 Abraçadeira de Espigão para Tubo PVC de 40»… Trago já!
            Eu trouxe o papelinho na mesma, não fosse haver engano. Não houve. Era mesmo disso que o Chico canalizador precisava para acabar de vez com a história do entupimento que nos massacrara a cabeça. E mostrou-me como é que tudo ficara. A água começou a correr normalmente. Eficaz fora a solução adoptada.

Abraçadeiras de espigão para tubo PVC de 40


Quando, no entanto, me dispunha a pôr o recado no cesto dos papéis, hesitei, “não ponho” e cá está ele a servir-me para a conversa de hoje.
Primeiro: eu diria ‘braçadeira’, que me parecia o termo correcto. Não é. O Chico Castro tem razão: abraçadeira está bem, porque, de facto, abraça. Faltou o ‘s’ do plural, mas… ninguém repara!
Segundo:  o Chico pôs todas as palavras com inicial maiúscula. Escreveu-as assim, decerto, sem motivo especial; o normal seria pôr todas as palavras em minúscula. Recordo-me, no entanto, do Celestino Costa, canteiro: quando, no cemitério, lhe encomendavam um letreiro, ele escrevia tudo em maiúsculas.
- Tudo em maiúsculas, Mestre Celestino?
- Pois é. A princípio, eu punha em letra pequena e, de vez em quando, dava erro. Assim, em letra grande, não há confusão, todos compreendem.
Confusão tem, contudo, muita gente no uso das maiúsculas. Não se estuda Gramática (ponho Gramática com g grande para chamar a atenção) e desconhece-se a função da maiúscula como elemento atribuidor de importância especial ao significado da palavra. Por exemplo, Igreja (com maiúscula) refere-se a uma confissão religiosa; já igreja matriz é com minúscula, um substantivo comum.
Tanto o Ricardo como o Chico sabiam exatamente o que ali estava escrito. Sabiam o que era uma ‘abraçadeira de espigão’; o que era um ‘tubo P.V.C. (que é habitual escrever-se PVC, siglas do policloreto de vinila); sabiam o que significava 40 (seguramente, digo eu, 40 milímetros de diâmetro)…
Como sói dizer-se: «Cada macaco no seu galho». O político, nomeadamente, deve saber falar; saber distinguir ‘sob’ de ‘sobre’ (e, aí, as asneiras diárias são muitas!…); conhecer a conjugação pronominal dos verbos… Tenho um colega que sistematicamente se refere a um senhor ministro chamando-lhe «Dr. Serálhe»; compreende-se porquê: sai-se, de vez em quando, com «será-lhe entregue…».
            O Ricardo trabalha na drogaria; o Chico Castro é canalizador. Conhecem ambos, como a palma das mãos, os nomes das ferramentas do seu dia-a-dia. Fale-lhes eu, epigrafista, em ‘campo epigráfico,’ ‘estela’, ‘cipo’ – e olharão para mim a sorrir. Como eu, ao princípio das andanças na pedreira, em miúdo, sabia lá o que era uma bujarda, o forro-a-melão, um camartelo!…

Parede com revestimento inferior de forro-a-melão

Todavia, voltando atrás: político que se preze não pode arriscar-se a dizer «será-lhe». Se não sabe distinguir ‘Igreja’ de ‘igreja’, vá que não vá, o Povo perdoa; mas «será-lhe entregue…», senhor ministro?!…

                                            José d'Encarnação 
            Duas Linhas, 22 de Setembro, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/09/abracadeira/

 

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