sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma lápida romana de beleza singular

            Encontra-se embutida na parede exterior da garagem da Quinta dos Prazeres, em Alvito, uma lindíssima placa funerária romana, de mármore do tipo Estremoz Vila Viçosa, intacta.
 

Houve ocasião de a estudar para o livro «Inscrições Romanas do Conventus Pacensis» (IRCP), de 1984, onde lhe foi dado o número 329.
Já então se acentuava como o campo epigráfico fora rebaixado em relação à moldura e que se tratava de um trabalho dentro dos moldes clássicos romanos, denotando influências exteriores à região.
Mede 61 cm de altura por 91,7 cm de largura.
Desde logo, uma chamada de atenção para a paginação, que é requintada com pretensões, seguindo eixo de simetria, certamente servida por linhas de pauta e cuidadosamente estudada para ser lida a partir de um nível de visão inferior. De facto, os caracteres diminuem de tamanho e os espaços entre as linhas também, à medida que as linhas se aproximam, digamos assim, do leitor. Por outro lado, a criteriosa utilização dos nexos, das pequenas letras, da grafia de XXIIX em vez da (mais longa) XXVIII – tudo isso obedece igualmente a esse propósito.
No fundo, o que parece interessar sobremaneira a quem encomendou a peça é chamar a atenção para o nome da família – CORNELIA – e, depois, para o voto final S. T. T. L., da linha 3, «Que a terra te seja leve»!.
Assim, a pontuação, geralmente triangular, colocada mesmo no final das linhas, não deixa de apresentar invulgares efeitos estéticos. (Recorde-se que, nas inscrições romanas, a pontuação serve para separar palavras). Na linha 1, por exemplo, há uma hera de limbo com pecíolo sinuoso para a direita. No começo da linha 3, uma hera cordiforme de pecíolo em forma de palma para trás. No final, uma outra com o ponto triangular a fazer de limbo, seguido de um grande pecíolo (com 9,5 cm), também em forma de palma e todo inclinado para a direita.
Os caracteres, muito bem delineados e cuidadosamente gravados a buril (veja-se como sabiamente se aproveita o efeito de claro-escuro pela inclinação do recorte), aproximam-se formalmente do tipo da letra capital usada no tempo do imperador Trajano (século II).
Estamos, pois, perante um monumento epigráfico bem diferente dos que temos vindo a observar, dado o enorme cuidado posto na sua gravação. Um belo exemplar, sem dúvida!
A estrutura textual está epigraficamente correta. A onomástica usada é perfeitamente latina.
Mas, afinal, o que é que esse epitáfio latino nos diz?
 

Que Cornélia Avita, filha de Lúcio, morreu com 28 anos, e a lápida identifica o túmulo em que está sepultada e deseja-se-lhe, por isso, é claro, que a terra lhe seja leve. Quem de tudo se encarregou foram os pais: o pai, Cornélio Rufino, a mãe, Júlia Rufina, que não deixam de se identificar como tais.
Além, por conseguinte, de ser um documento de excepcional importância do ponto de vista estético, é-o também porque mostra como a transmissão dos nomes foi segundo as regras: tanto o pai como a mãe têm o cognome Rufino, antropónimo tipicamente romano, que queria caracterizar, na sua origem, quem nascesse de tez alva e cabelo loirinho. Pode ser, aliás, nome que tenha sido comum na família.
Por seu turno, a filha recebe o nome de família do pai – Cornélia – e terá sido, mui provavelmente, a filha mais velha, na medida em que se diz que ela é «Avita». se Estava-se numa altura em que o nome a dar às crianças poderia relacionar-se com circunstâncias, por exemplo, do nascimento; neste caso, o adjectivo «avita» quer dizer ‘a mais velha’, a primogénita.
Tudo isto nos leva a crer que poderemos estar perante uma família de colonos itálicos, que teria, nestes arredores da cidade de Pax Iulia (actual território do concelho de Alvito), a sua casa de campo, a sua «villa», como se designava na altura. Um Cornélio casado com uma Júlia, que poderia pertencer ao escol da cidade (que se chama, recorde-se, «Paz Júlia».
É monumento que, pelas suas características físicas e pela paleografia (modo de gravação das letras) será datável do século I ou mesmo da primeira metade do século II da nossa era.
Foi dado a conhecer por Abel Viana n’O Arquivo de Beja, volume 15, de 1958, página 36; e retomado, nesse mesmo ano, por Fernando Bandeira Ferreira, que o publicou na 2ª série, vol. III da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa (páginas 164-165). Passou, por conseguinte, a estar incluída no rol das inscrições romanas da Península Ibérica. Um monumento de que os pacenses muito se devem orgulhar; ficamos contentes de ele estar a bom recato na quinta donde muito provavelmente proveio, ainda que não saibamos em que circunstâncias o seu achamento aconteceu.

                    José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo, 25-09-2026, p. 10.

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