quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Na Quinta de Marim romana, o hábito não fez o monge

             Quando se aduz este provérbio - «O hábito não faz o monge» –, a intenção é mostrar que mais depressa se copiam aspectos exteriores do que se vive ou adopta como modo de vida o que o exterior implica. Fácil é verificar como, por exemplo, o uso de jeans depressa se generalizou, mesmo em comunidades geralmente alheias ao que os jeans implicam como mudança de hábitos. Tornou-se moda, usa-se, sem que tal uso corresponda a nova mentalidade.
Nesse âmbito, os monumentos epigráficos descobertos na villa romana sita na Quinta de Marim, freguesia do Quelfes, concelho de Olhão, têm sido alvo de estudos interpretativos. Contudo, as possibilidades que o avanço da Epigrafia agora oferece permitem-nos novo olhar.
Fig. 1
         Veja-se o que reproduzimos na fig. 1. Representa, em miniatura, a fachada de um edifício de calcário. O rectângulo dividido por banda larga a meio dá ideia dos batentes de uma janela ou de uma porta, sob um frontispício triangular, onde, em relevo, se mostram três motivos florais esterilizados: corolas quadripétalas geometricamente concebidas com botão central. A do meio, maior que as laterais, está rodeada de circunferência em banda larga.
Têm os rectângulos molduras de duas ranhuras, a delimitar um espaço perfeitamente alisado. Aliás, toda a superfície do monumento foi bem alisada, à excepção da zona inferior, destinada, naturalmente, a ser enterrada e a ausência de alisamento acaba por garantir mais sólida fixação.
Por conseguinte, do ponto de vista estético, uma estela agradável de ver-se.
Ora sucede que esses dois espaços rectangulares se destinavam a receber dois epitáfios, encimados, cada um, pela fórmula típica de consagração aos deuses Manes, portadores das almas para o Além: as siglas D M S.
À primeira vista, no lado esquerdo, lê-se, em latim, que Patricia vixit annis XI diebus IV: «Patrícia viveu 11 anos e 4 dias». No lado direito, ler-se-á Patricius vixit annis XLIII mensibus III diebus XIV: «Patrício viveu 43 anos, 3 meses e 14 dias». Termina este letreiro pelas letras P I S P I, passíveis de serem siglas da expressão laudativa pius in suis, «piedoso para com os seus».  Mas o P I final não sabemos o que significa.
A explicação pode ser que ao canteiro foi fornecida uma minuta, por ele não cabalmente entendida. De resto, voltando atrás e vendo os nomes com mais atenção, acaba por verificar-se que lemos mal: não está escrito Patricia mas Patrlcia, nem Patricius mas Tatricius (Fig. 2).
Fig. 2

Imaginamos que as fórmulas habituais eram transmitidas ao canteiro com uns rabiscos, como amiúde acontece connosco ao escrever «Com os melhores cumprimentos» no final de uma carta: vão umas garatujas, porque partimos do princípio de que quem nos vai ler sabe exatamente o que pretendíamos escrever.
Fig. 3

Veja-se o caso da expressão sit tibi terra levis, «que a terra te seja leve» tão habitual que se escrevia em siglas. Ora, nesta lindíssima tampa de sepulcro (Fig. 3), a má interpretação da minuta resultou em S I B T R I B S (Fig. 4) – que é como quem diz «vocês sabem o que eu quero dizer».
Fig. 4


Já noutra estela, também ela em jeito de bonita fachada de templo com elegantes colunas (Fig. 5), a fórmula final saiu bem atabalhoada: T T B L  !

Fig. 5
 
Em conclusão: esteticamente, os monumentos obedecem a todos os cânones clássicos: são elegantes; no entanto, do ponto de vista da escrita, quer o escriba propriamente dito quer o encomendante não se esmeraram minimamente. Por mero descuido? É natural que não, mas sim porque a sua inclusão na cultura romana estava ainda incipiente. O ‘hábito’ era o oficial, o das regras; o conteúdo, porém, deixou muito a desejar: o ‘monge’ ainda não se encontrava bem inteirado das regras vigentes no convento!

                                               José d'Encarnação

Publicado em Sul Informação, 24-10-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/10/na-quinta-de-marim-romana-o-habito-nao-fez-o-monge/

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