Quando se aduz
este provérbio - «O hábito não faz o monge» –, a intenção é mostrar que mais
depressa se copiam aspectos exteriores do que se vive ou adopta como modo de
vida o que o exterior implica. Fácil é verificar como, por exemplo, o uso de jeans
depressa se generalizou, mesmo em comunidades geralmente alheias ao que os jeans
implicam como mudança de hábitos. Tornou-se moda, usa-se, sem que tal uso
corresponda a nova mentalidade.
Nesse âmbito,
os monumentos epigráficos descobertos na villa romana sita na Quinta de
Marim, freguesia do Quelfes, concelho de Olhão, têm sido alvo de estudos
interpretativos. Contudo, as possibilidades que o avanço da Epigrafia agora
oferece permitem-nos novo olhar.
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| Fig. 1 |
Têm os rectângulos
molduras de duas ranhuras, a delimitar um espaço perfeitamente alisado. Aliás,
toda a superfície do monumento foi bem alisada, à excepção da zona inferior,
destinada, naturalmente, a ser enterrada e a ausência de alisamento acaba por
garantir mais sólida fixação.
Por
conseguinte, do ponto de vista estético, uma estela agradável de ver-se.
Ora sucede que
esses dois espaços rectangulares se destinavam a receber dois epitáfios, encimados,
cada um, pela fórmula típica de consagração aos deuses Manes, portadores das
almas para o Além: as siglas D M S.
À primeira
vista, no lado esquerdo, lê-se, em latim, que Patricia vixit annis XI diebus
IV: «Patrícia viveu 11 anos e 4 dias». No lado direito, ler-se-á Patricius
vixit annis XLIII mensibus III diebus XIV: «Patrício viveu 43 anos, 3 meses
e 14 dias». Termina este letreiro pelas letras P I S P I, passíveis de serem
siglas da expressão laudativa pius in suis, «piedoso para com os seus». Mas o P I final não sabemos o que significa.
A explicação
pode ser que ao canteiro foi fornecida uma minuta, por ele não cabalmente
entendida. De resto, voltando atrás e vendo os nomes com mais atenção, acaba
por verificar-se que lemos mal: não está escrito Patricia mas Patrlcia,
nem Patricius mas Tatricius (Fig.
2).
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| Fig. 2 |
Imaginamos que
as fórmulas habituais eram transmitidas ao canteiro com uns rabiscos, como
amiúde acontece connosco ao escrever «Com os melhores cumprimentos» no final de
uma carta: vão umas garatujas, porque partimos do princípio de que quem nos vai
ler sabe exatamente o que pretendíamos escrever.
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| Fig. 3 |
Veja-se o caso
da expressão sit tibi terra levis, «que a terra te seja leve» tão
habitual que se escrevia em siglas. Ora, nesta lindíssima tampa de sepulcro (Fig. 3), a má interpretação
da minuta resultou em S I B T R I B S (Fig. 4) – que é como quem diz «vocês sabem o que
eu quero dizer».
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| Fig. 4 |
Já noutra estela,
também ela em jeito de bonita fachada de templo com elegantes colunas (Fig. 5), a fórmula final
saiu bem atabalhoada: T T B L !
Em conclusão: esteticamente,
os monumentos obedecem a todos os cânones clássicos: são elegantes; no entanto,
do ponto de vista da escrita, quer o escriba propriamente dito quer o
encomendante não se esmeraram minimamente. Por mero descuido? É natural que não,
mas sim porque a sua inclusão na cultura romana estava ainda incipiente. O ‘hábito’
era o oficial, o das regras; o conteúdo, porém, deixou muito a desejar: o ‘monge’
ainda não se encontrava bem inteirado das regras vigentes no convento!
José d'Encarnação
Publicado em Sul Informação, 24-10-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/10/na-quinta-de-marim-romana-o-habito-nao-fez-o-monge/






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