Somos, amiúde, avessos a usar lugares-comuns, porque sabemos como despidos andam do seu significado próprio. Ouso, porém, usar um deles: saímos «de alma lavada».
Na verdade, essa
foi, sem dúvida, a agradável sensação de quantos lotaram o Auditório Senhora da
Boa Nova, na Galiza – São João do Estoril, no final da tarde de domingo, 25: o
concerto de homenagem a José António Piñeiro Nagy encheu-nos as medidas,
lavou-nos a alma.
Acrescente-se
que a imagem do homenageado projetada em fundo, como que a integrar o lote de
músicos, proporcionou um sentido ambiente de bem-estar, também proporcionado inclusive
pela manifesta dedicação de todos e cada um dos membros da orquestra, onde o
renomado clarinetista António Saiote literalmente se integrou. Realce -se que o
facto de Nikolay Lalov se haver auto-dispensado de dirigir o espetáculo,
deixando tal função a um primeiro-violino e ao próprio António Saiote – que
muito discretamente a souberam exercer – contribuiu eficazmente para a criação
dum clima de homenagem bonita, tranquila, cativante, a que todos os executantes
(sentíamos) gostosamente se associaram.
Abriu a sessão
Nikolay Lalov, que emotivamente historiou o seu relacionamento com Piñeiro Nagy
e o grande mérito da actividade ímpar desenvolvida pelo homenageado. No final,
também o músico convidado, António Saiote, se referiu elogiosamente ao que
Nagy, com tenacidade e enorme carácter inovador, lograra levar a bom termo.
Ouvimos, na
primeira parte do espectáculo, o 2º andamento do Concerto para Clarinete e Cordas,
do compositor e pianista lisboeta Armando Mota; uma ária de Joly Braga Santos (1924-1998),
com extraordinário arranjo de Eduardo Seabra, pleno de delicadeza e suavidade;
a bem conhecida Canção do Mar, de Ferrer Trindade, num bonito arranjo do
bracarense Artur Caldeira; a eterna «Sol de Inverno», de Nóbrega e Sousa, em espetacular
arranjo de Pedro Ramos e, a finalizar, Temas Portugueses para Clarinete e Cordas,
de Artur Caldeira, em que o diálogo entre o clarinete e as cordas, diga-se de
passagem, foi verdadeiramente excepcional.
Vídeo: https://youtu.be/q81Vee7UAaw
Após o
intervalo, ouviu-se Serenata para Cordas em Dó Maior, Opus 48, do compositor
russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky, nos seus quatro andamentos (sonatina, valsa,
elegia e final).
Recebemos,
na ocasião, o livro Prima la Musica dopo le Parole («primeiro, a Música;
depois, as Palavras») que reúne, nas suas 244 páginas, toda a documentação referente aos
50 anos dos festivais de música, a que o homenageado esteve intrinsecamente ligado.
Acompanhou-o bonita colecção dos 50 respectivos cartazes.
José d’Encarnação
Publicado em Duas Linhas, 27-10-2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/um-momento-irrepetivel/




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