sábado, 29 de outubro de 2016

Esta louca correria!

         Nota prévia: o texto que segue foi apresentado na minha página do facebook,ontem, sexta-feira, 28. As reacções foram tantas que optei por o reproduzir aqui.
 
         Antes de mais, voto de mui sereno fim-de-semana!
         E faço esse voto, porque serenidade… precisa-se, mesmo quando se pretende enviar uma mensagem a alguém.
         Sei que andamos todos numa lufa-lufa, que os mandantes nos estão sempre a pedir ‘coisas’ para ontem e que há objectivos a cumprir, «há objectivos a cumprir»!... Eu diria, antes, que «há uma vida para viver» e que, se não nos consciencializarmos disso, nos vamos mesmo esquecer de a viver!
         - Hoje deu-lhe para discurso moral, foi, amigo?
         - Não! É que desejava mostrar, através de um exemplo, o muito que recebo e que prova quanto andamos apressados e nem sequer reparamos bem no que estamos a fazer!
        Ora veja-se: recebi hoje, 28-10-2016, uma mensagem que trazia como anexo FEIRANOJARDIM_FolhetoFinalA5-MAIO2016.
           Pode o meu amigo dizer-me o que 'isto' significa?
           Muito simplesmente que quem enviou nem sequer reparou na legenda!
          Vá lá que, em vez de «folheto final», não vem «flyer» ou «ecart», palavras que seriam ainda mais… ‘curiosas’ e que superabundam!...
           Pois se eu lhe disser que esse folheto se refere a uma feira a realizar-se… a 5 de Novembro de 2016 (!), que nada tem a ver com Maio… - compreenderá que… há a necessidade urgente de parar!
           Por isso, repito, Amigo: tenha um mui sereno fim-de-semana!
 
                                                                             José d'Encarnação
 
 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Um clarinete de… ouro!

Anna Paulová
            Amiúde nos presenteiam com concertos de piano e orquestra, de canto e orquestra. Agora, de clarinete e orquestra não recordo de nada. Por isso, não foi sem curiosidade que fui – somos ‘clientes’ fiéis… – ao Concerto de Outono da Sinfónica de Cascais no final da tarde de domingo, 23, no Auditório da Boa Nova, porque o programa incluía, na 1ª parte, a seguir à abertura da primeira ópera romântica alemã «Franco Atirador», de Carl Maria von Weber (1786-1826), o concerto para clarinete nº 1 em fá maior op. 73, em que a solista era Anna Paulová, nascida em Praga (1993) e com um notabilíssimo palmarés de galardões.
            Claro, apreciámos – como sempre! – o virtuosismo da Sinfónica, sabiamente dirigida pelo dinâmico e infatigável Nikolay Lalov, mas encantou todo o auditório, completamente esgotado, o talento ímpar de Anna Paulová, no domínio perfeito de um instrumento que, no decorrer da execução, facilmente passava dos altos para os baixos, dos fortes para os suaves – e sempre num sorriso cativante, que o longo vestido vermelho com lantejoulas fazia sobressair. Só por essa actuação teria valido a pena sair de casa nessa tarde morrinhenta.
            A sinfonia nº 4 em mi menor op. 98, do Johanes Brahms (Hamburgo, 1833; Viena, 1897) preencheu deliciosamente a 2ª parte do concerto. J. Brahms é, como se sabe, colocado a par de Beethoven e de Bach – os três bbs… - e a sua 1ª sinfonia foi saudada, pelo extraordinário impacto que teve, como a «10ª sinfonia» de Beethoven, porque – dizia-se – depois da extraordinária 9ª do Mestre, nada melhor poderia acontecer. E aconteceu.
            O inegável êxito de mais este concerto prova que a cultura musical ganha cada vez mais apreciadores – a despeito das políticas oficiais de miserável apoio às instituições, às escolas e aos músicos… Segunda conclusão: que andou muito bem o Executivo Municipal de Cascais quando deliberou dar luz verde à ousada proposta de Nikolay Lalov.

                                                         José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 25-10-2016:
http://www.cyberjornal.net/cultura/cultura/musica/um-clarinete-de-ouro

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ele pisou o risco!

           No livro de Ferreira de Andrade, Cascais – Vila da Corte, há, no final, uma série de apêndices. Refere-se parte deles a cartas de confirmação enviadas pelos monarcas aos senhores de Cascais: que sim, senhor, podiam continuar a manter o senhorio que seus antepassados lhes haviam doado. E, de quando em vez, lá se especificavam bem os limites do território doado, não houvesse por aí abusivas interferências.
            Quem estudou a Idade Média, ouviu falar em confirmações e inquirições. Confirmações eram esses documentos; inquirições eram assim a modos da ASAE, postada a ver quem tinha pisado o risco, porque adregava frequentemente os nobres darem ordens aos seus homens de passarem por aqui e por ali e mexerem nos marcos de propriedade, avançando-os para lá, de modo a, pouco a pouco, o território aumentar.
            Então em relação aos baldios, que eram aqueles terrenos que o Povo tinha para se espraiar à vontade, apascentar os rebanhos, apanhar lenha… a ganância era maior e lá iam os representantes do Povo, os homens-bons, reclamar em Cortes: «Aqui d’el-rei que o senhor nos roubou terras!». E el-rei, que nessa altura auscultava o Povo, nomeava inquiridores para tentar saber como fora. E o Povo ficava a ganhar.
            Um tema aliciante para os historiadores da Antiguidade é o estudo dos limites das províncias e das cidades romanas. Aliciante, porque sempre controverso e porque, afinal, nunca se chega a conclusão convincente.
            Sempre os povos se mataram uns aos outros por causa das fronteiras e é por isso que caem, diariamente, que nem tordos, irmãos nossos no Médio Oriente. E, nas famílias, até por partilhas se pega na caçadeira e lá vai chumbo!
            Hoje, fronteiras não há! Ou melhor, há, mas no papel, porque se instituiu o «espaço europeu», onde cada qual se movimenta como quer. Está mal, porque se trata de um exemplo péssimo para os detentores do poder. Também eles acham que podem movimentar-se como querem e que todo o território é deles, e dele podem usufruir. Não é para semear cevada ou milho ou plantar batatas, couves ou rabanetes, mas para riscarem o chão e, em vez de espantalhos ou CDs velhos para a pardalada ter medo e não comer a produção, pespegam assim a modos de uns robôs com um mecanismo de engolir moedas. Por todo o mundo assim é, e a fábrica desses espantalhos está a ganhar bué da massa e a fazê-los cada vez mais sofisticados, até comandados à distância!...
            Não adianta o Povo queixar-se, porque já não há Cortes nem, por outro lado, tem o Povo quem o possa representar perante o «Big Brother», aquele de que, em 1949, George Orwell vaticinava vir a existir em 1984, mas que veio antes e que ora ganhou tentáculos enormes, qual gigantesco polvo, tão rijo, tão rijo, que nem dá para se comer à lagareiro no restaurante aqui do bairro.
            Queixou-se o Ezequiel, um amigo meu beirão, ao chefe do departamento de trânsito do município dele. Resposta:
            – Quando o senhor compra um frigorífico, tem de saber primeiro se há espaço lá em casa para o pôr, não é? Assim é com os carros. Não se compram se não houver garagem para os pôr!
            Retorquira-lhe o Ezequiel que, quando fora para aquela casa, ele, o irmão, os tios, a famelga toda deixava o carro na rua, porque a rua era de todos e não havia ideia de garagens nem meio-garagens.
            – Mas agora é assim! – retrucou o Chefe.
            O Mário calhou a deixar a carripana com os pneus de trás menos de meio metro em cima dum risco amarelo. Foi multado.
            – Mas… eu deixei mesmo no limitezinho, amigo!
            – Está a pisar o risco, não está?
            – Está.
            Aproveitou, pois, para augurar, de todo o coração, ao amigo que nem ele nem a esposa nem os filhos nem os pais nem os avós, um dia, sejam eles a pisar o risco!...
            Estamos bem cientes: com fronteiras e com inquisidores não se brinca! E quando elas, as fronteiras, ameaçam alargar-se mais e mais, não há homem-bomba que valha!

                                                                  José d’Encarnação
                        Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 161, 26-10-2016, p. 6.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Medalha de mérito cultural grau ouro do município de Lagos para o Prof. José Maria Pedrosa Cardoso

             Em cerimónia solene, a decorrer no próximo dia 27, Dia do Município, a Câmara Municipal de Lagos vai galardoar com a Medalha de Mérito Cultural Grau Ouro o Doutor José Maria Pedrosa Cardoso, Professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que reside em Oeiras.
            O município premeia, desta forma, a intensa actividade que o Doutor Pedrosa Cardoso desenvolveu na cidade no âmbito da Música, em que é especialista e de que, aliás, foi mui competente docente universitário.
            Deve-se-lhe, por exemplo, a criação, em 1976, do Grupo Coral de Lagos, que se tem notabilizado, pela cultura ‘a capella’ da boa música, tendo por lema a divulgação musical até aos mais recônditos lugares. Notáveis são, do seu repertório, os trechos populares com arranjos eruditos de Fernando Lopes Graça, de Sérgio Ribeiro e outros.
            Deve-se ao professor a criação dos Cursos Musicais de Férias de Lagos, entre 1978 e 1981, em que intervieram renomados mestres de violino (por exemplo, Alberto Gaio Lima), piano (Olga Prats), direcção musical, clarinete, trombone, entre outros, como o barítono José Oliveira Lopes, idos vários deles da Orquestra Gulbenkian com os respectivos alunos. E também se lhe deve a organização da série de Grandes Concertos, durante mês e meio, no Verão, em que chegava a haver dois a três concertos por semana.
            Na sequência do Grupo Coral, surgiu a Academia de Música de Lagos, que já conta com 25 anos de existência e tem sucursais em Portimão e Lagoa, onde leccionam mais de 90 docentes, nas várias áreas musicais. E também a Câmara criou uma Escola de Música, muito frequentada.
            Lagos entrou assim, pela mão do Doutor José Maria Pedrosa Cardoso, no número das localidades portuguesas onde à Música se confere culturalmente um estatuto especial. É, por isso, reconhecendo esse elevado mérito, que ora lhe é mui justamente outorgada a Medalha de Mérito Cultural Grau Ouro, distinção com que obviamente muito nos congratulamos.
                                                             
                                                           José d’Encarnação
Publicado em Cyberjornal, 25-10-2016:

A pitoresca história do 1º marquês de Cascais em livro

            «Creio que o leitor não foi enganado quando lhe prometi contar a alegre história da romanesca embaixada do marquês de Cascais, e o excêntrico termo da existência do famoso embaixador» – assim conclui Alberto Pimentel o seu livro «Um Português Derretido – A Pitoresca História de D. Álvaro Pires de Castro, 1º Marquês de Cascais».
            E é que não se sai da leitura enganado, não. É mesmo uma história pitoresca, para não dizer picaresca, a deste senhor, que viria a falecer «cristãmente, com todos os sacramentos da Igreja, nos primeiros dias de Agosto de 1674».
            Há algum tempo que se andava para dar à estampa esta obra de 60 páginas, que poderia muito bem integrar a série «Memória de Cascais» de que a Câmara Municipal deu à estampa pelo menos oito breves volumes, um dos quais, o 8º, é também de Alberto Pimentel e tem por título «Cascaes In Sem Passar a Fronteira», publicado no ano 2000.
            As diligências não tiveram êxito e, por isso, a dinâmica editora Apenas Livros, dirigida pela incansável Fernanda Frazão – que a esta edição quis agregar, mui gentilmente, a Associação Cultural de Cascais – acaba de dar à estampa a obra, integrada, com o nº 30, na colecção «Ofiúsa – páginas de história portuguesa».
            Congratulamo-nos vivamente com a iniciativa. É mais uma bonita árvore na floresta – já vasta – de livros sobre a riquíssima história cascalense.
            Contactos da Apenas Livros: apenaslivros2@gmail.com e tel. 21 758 22 85.             

                                                                   José d’Encarnação

Publicado em cyberjornal, edição de 25-10-2016:

sábado, 22 de outubro de 2016

Aplausos para uma política ímpar de integração

             Não é a primeira vez que me congratulo com o facto de S. Brás de Alportel ter logrado uma integração ímpar dos estrangeiros aqui residentes.
            Ocorre-me amiúde a imagem da ida às Baamas, onde, estrangeiros e bem estranhos que éramos, sempre nos saudava com um largo sorriso – «you welcome!» – quem connosco se cruzava. Esse sentimento tenho em S. Brás, ao verificar como os estrangeiros por aqui se movimentam como se na sua terra natal se encontrassem. Aliás, tal atitude ficou bem patente na adesão enorme dada pela ‘colónia’ estrangeira às comemorações do centenário: também eles se incorporaram a rigor no cortejo evocativo.
            Fiquei, por isso, muito satisfeito ao verificar que esse exemplo já ultrapassou as fronteiras do Algarve e teve eco pelo País. Refiro-me ao facto de, em boa hora, Notícias de S. Braz ter transcrito com todo o relevo, que se aplaude, na página 24 da edição de Setembro, a reportagem que o jornal Público publicara: «Estrangeiros estão a mudar a vida cultural de São Brás de Alportel – Cultura tem mais adeptos que o futebol».
            Tudo isso se deve, claro, ao carácter hospitaleiro do nosso povo e, de modo especial, à clarividência demonstrada pelas diversas entidades que operam no concelho, privadas e públicas, sendo de realçar, nesse aspecto, naturalmente, tanto a Câmara Municipal como, de modo muito especial, o Museu do Trajo, ponto de encontro preferencial quer para manifestações musicais quer para exposições de artes plásticas.
            Aproveitava, porém, esse aplauso para uma chamada de atenção, que não é novidade nenhuma e estou certo de que os responsáveis têm disso plena consciência: há os que nos procuraram e acolhemos e há os naturais, boa parte deles envelhecidos e sem grandes possibilidades de deslocação. Exemplifico, puxando a brasa à minha sardinha: quem vive no Corotelo ou na Fonte da Murta ou mesmo nos Vilarinhos onde é que, a pé, pode ir comprar leite ou pão?
 
                                   José d’Encarnação
Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 239, 20-10-2016, p. 11.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A loucura institucionalizada

             Peço desculpa por me atrever a abordar um tema cujos actores podem, porventura, ser alheios ao seu quotidiano. Ou talvez não, porque se me afigura que esta loucura é assim como aquelas ervas daninhas dotadas de enorme capacidade de propagação e não há herbicida capaz de as exterminar ou, pelo menos, de lhes suster o avanço.
            Um exemplo: vais participar, em capital estrangeira, numa reunião da tua especialidade e a tua expectativa, longamente acarinhada, será: vou aí reencontrar amigos de décadas, que há alguns anos não vejo e com os quais apenas mantenho contacto, de vez em quando, através de correio electrónico. Daremos aquele abraço real tanta vez repetido virtualmente; tomaremos um café ou, à hora da refeição ou na pausa-café, dirás da tua vida, saberás das deles, de filhos e de netos, e transmitirás, olhos nos olhos, aquilo que o correio electrónico é incapaz de fazer. Sim, poderias ter comunicado também por skype ou pelo messenger; mas… não é a mesma coisa!
            Puro engano!
            A maior parte desses teus amigos apareceram meia hora antes do horário previsto para a sua intervenção e, na pausa-café, é «olá e adeus!», porque devem partir de seguida para outra reunião que, aproveitando o ensejo, fora previamente agendada para a mesma cidade. Ou, então, necessitam de ir apanhar o comboio porque, noutro local ou no seu próprio local de emprego, outra actividade os espera!
            Uma correria!
            Por detrás dessas vidas a correr está o sistema instituído por entidades superiores, que determinaram objectivos rígidos a cumprir, sob pena de não se avançar na carreira, de se ficar a marcar passo ou, simplesmente, de, sem aviso prévio, não se ver renovado o contrato.
            Pensava – sei agora que ingenuamente – que essas «entidades superiores» eram presididas por pessoas, que também tinham família, que gostavam de ter momentos de pausa, que apreciavam o cultivo da amizade… Não! Presidem-nas autómatos, ligados a computadores cheios de gráficos, que lhes chegam através da internet de outros países com características completamente diferentes do seu, mas que, apesar disso, eles vão procurar introduzir, porque… «vem de fora!» e tem, por isso, de ser bom.
            «Indignai-vos!», proclama Stéphane Hessel. Indignação precisa-se! Contra esta loucura institucionalizada que, obviamente, não leva a sítio nenhum!

                                                  José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 694, 15-10-2016, p. 12.