terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Matamos quem nos quer salvar!

            Recebi já o postal de Natal do Doutor Jorge Paiva, do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. Paladino da biodiversidade, que, o ano passado, nos brindou com o livro Natal Verde, colectânea dos postais enviados ao longo de 30 anos, Jorge Paiva pôs, este ano, bem fundo, o dedo na chaga por que estamos a passar.
            Fiquei estupefacto, digo desde já. Sabia que as árvores eram importantes, pelos mais variados aspectos: a beleza, os frutos, as essências que das suas folhas se podem extrair, o oxigénio que fornecem… Enfim, mil e uma razões para as protegermos. Agora, que nelas vivam seres ultramicroscópicos – os mixomicetes – fundamentais para o equilíbrio da espécie humana jamais me passaria pela cabeça!...
            Eu conto o que o Professor nos diz no seu postal natalício: os mixomicetes vivem nas florestas, quer na manta morta quer na superfície das plantas; assim, quando se abate uma árvore, matam-se também os mixomicetes, cujo alimento (pasme-se!) são microrganismos como leveduras, fungos, bactérias, vírus… E agora veja-se:
            HIV / SIDA: a sida surgiu na floresta da África Tropical. Os culpados? Os macacos. Mas… não estariam esses macacos cheios dos vírus que a ausência dos mixomicetes das árvores derrubadas deixou proliferar?
            ÉBOLA: esta febre hemorrágica também nasceu na África Tropical, causada por vírus que deviam ter sido comidos pelos mixomicetes – e não o foram, porque a floresta o Homem a foi desbastando…
            COVID-19: também se diz que foram os morcegos que a transmitiram ao Homem, porque portadores do vírus Betacoronavírus… que a ausência de mixomicetes deixou proliferar!
            Temos apenas 20% das florestas que existiam quando o Homem surgiu na Terra. E é nesta Terra, conclui o Doutor Jorge Paiva, que «temos vindo a dizimar predadores de microrganismos, que podem vir a ser agentes de novas enfermidades letais e que não vamos poder controlar».
            Sem florestas, a Terra tornar-se-á inabitável para os seres humanos.

                                                                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 789, 15-12-2020, p. 12.

Mixomicetes. Esporocarpos com capilício reticulado,
sobre restos de madeira de coníferas, nos Alpes franceses, a 2000 metros.
Uma das fotos que ilustram o cartão do Doutor Jorge Paiva.

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Longevidade...

            Segundo reza a Bíblia, viveu o patriarca Matusalém 969 anos nesta terra. Exemplo maior e único de longevidade e se, hoje, ninguém aspira a ser tão idoso, certo é que não serão assim tão raros os que pensam poder chegar aos 100, «desde que com a cabecinha no sítio», amiúde se acrescenta e compreende-se porquê.
Até não há muito, raros eram – e dignos de grande festa – os centésimos aniversários, com direito a fotografia no jornal local e a refeição comemorativa com a grande família derredor ou mesmo na aldeia. Recorda-se que foi admiração Manoel de Oliveira ter ultrapassado essa marca e se haverem escrito crónicas a confirmar ser a actividade física e mental a grande fomentadora da possibilidade de uma idade avançada.
Contraria-se, assim, aquela perspectiva «reforma = igual a tempo para nada fazer». Lembro que um amigo meu me explicara que outro amigo comum e colega nestas lides da docência universitária «estava na cama».
– Na cama? Doente, não? – perguntei.
– Ouviste bem: ele está «na cama» e não «de cama»!
– Como assim?
            – Acha que já fez muito na vida e, agora, outros que façam! Ele fica na cama!...
            Desatámos a rir com a facécia, e ainda que soubéssemos não ser facécia mesmo. E o meu colega foi permanecendo na cama até que outro repouso, o eterno, lhe foi proporcionado.
ooo
            Dois motivos me levaram a redigir esta crónica.
O primeiro aí está: o de já estar a ser mais corrente a ultrapassagem do centenário; do segundo, ligado a Cascais, já se dirá em seguida.
Em S. Brás de Alportel, como pode ler-se na agenda cultural cuja capa se reproduz, celebrou-se no domingo 25 de Outubro a Festa dos Centenários, através das redes sociais do Município. Nas páginas 16 e 17 da agenda (uma das poucas que teima em manter-se no papel!) está o «Dossiê Sénior», a fornecer de cada um dos sete «com 100 ou mais anos completados até março de 2020» (a festa fora planeada para esse mês…) os dados biográficos mais salientes: actividades desenvolvidas e descendência que tem. São eles: Maria Natália, nascida a 25 de Dezembro de 1919; Porfírio Lopes Dias, nascido a 1 de Junho de 1919; Maria Adélia, nascida a 3 de Junho de 1919; Selerinda Maria, nascida a 5 de Março de 1919; Maria de Sousa, nascida a 17 de Setembro de 1917; Joaquim Varela, nascido a 13 de Maio de 1915 e Maria da Conceição, que é a que está na capa e que, entretanto já faleceu, nascera a 22 de Dezembro de 1912!
O segundo motivo evoca o que já aqui se disse acerca do elogio feito a Cascais por Frei Nicolau de Oliveira no seu, Livro das Grandezas de Lisboa publicado em 1620:
«E assim é a mais sadia terra que se sabe em Portugal e em que os homens mais vivem e mais sãos e donde de todo está desterrado um mal que a tantos consume a vida, que é a malenconia» (fol. 78 verso).
Vem, de seguida, o elogio às virtudes terapêuticas das suas águas, o que também se prende com a longevidade. Não se insiste hoje tanto que os idosos (e não só!...) bebam água? Não se proclama que emanam das águas poderes sobrenaturais? Quem se não lembrará daquela telenovela brasileira que fez as nossas delícias, em que o médico praticamente para todas as maleitas mandava beber água de determinada fonte? E ainda hoje, quando abrem ao público as vulgarmente chamadas «Termas Romanas da Rua da Prata», não há quem se muna de garrafões para de lá trazer água milagrosa?!...
 Ora o Padre Marçal da Silveira, prior da Assunção, ao responder, em 1758, ao 22º quesito ordenado pelo Marquês de Pombal «se tem alguns privilégios, antiguidades ou outras coisas dignas de memória», depois de esclarecer que, no século XVII, no grande incêndio que lavrara nas casas do Senado, todo o arquivo ardera assim como «todos os seus papéis de maior porte», declara, não sem alguma solenidade:
«As coisas mais dignas de memória é [sic] viver aqui a gente de idades mui avantajadas e com boa saúde».
E põe de enfiada, «para além do ermitão de Santa Marta que, já se disse, morrera de 120 anos», os seguintes:
– Roque Fernandes, o «Borgeis», que faleceu a 28 de Maio de 1597, com 117 anos de idade, segundo consta a folhas 164, do Livro 2º dos Defuntos;
– Catarina Luís, a «Negrela», com 108;
– Garcia Afonso, falecido a 5 de Setembro de 1580, o qual viu, em seus dias, vivos, filhos, netos, bisnetos e terceiros netos, a 4ª geração (Tomo I dos Óbitos, fol. 231);
– Brícia Álvares, com 120, falecida em 17 de Maio de 1608;
– Brites Álvares, a «Estorninha», de 113 para 114 anos;
– Brízida Ribeira, com 118, falecida em 18 de Maio de 1626 e seu pai, de 115 (tomo 3º do livro da freguesia, folhas 131);
– no ano de 1651, Maria Lopes, a «Mata Sete», com 105 anos;
– e, no século XVI, cinco homens com mais de 100 anos e sete mulheres de outros tantos mais.
(Não sei o que significaria a alcunha Borgeis; negrela e estorninha são pássaros e as alcunhas aludiriam, pois, ao seu aspecto físico ou modo de andar).
Naturalmente, Ferreira de Andrade faz-se eco, em 1964, no seu Cascais – Vila da Corte (p. 139) desse auspicioso elenco; assegura ter ouvido dizer em pequeno que a pneumónica não matara ninguém no Linhó; e não hesita em atribuir toda essa longevidade à excelência do clima, «varrido pelos ventos da Serra e purificado pela proximidade do Oceano», detendo-se, nas p. 140-146, a falar das propriedades das suas águas, não sem, antes, ter ir buscar ao livro de Borges Barruncho (Apontamentos para a História da Villa e Concelho de Cascais, 1873, p. 64), a informação de que, entre 1868 e 1872, haviam sido nada menos do que 52 as pessoas aqui falecidas entre os 70 e os 80 anos, 19 entre os 80 e os 90, 8 dos 90 aos 100; e uma senhora que já era centenária «há muito tempo», pois na tabela figura na coluna dos 100 aos 110!... E também Borges Barruncho não hesita (p. 65):
«As águas potáveis são excelentes».
E pronto. Por aqui nos ficamos – não sem mui secreta esperança de que, «com a cabecinha no sítio»! – também nós, um dia, possamos engrossar esse tão auspicioso rol!

                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, a 24 de Novembro de 2020: https://duaslinhas.pt/2020/11/a-longevidade-esta-em-cascais/