Extasiava-me, do
pátio de trás da casa de minha avó, no Cerrito, a olhar para a banda dos Vilarinhos
e a espraiar a vista desde a Gralheira ao Malhão, quedando-me, em prece, no
vulto da igreja de S. Romão.
Embevecia-me
aquele sereno verde imenso, de mui variegadas tonalidades, pontilhado do branco
alvacento das casas.
Pelo
final da tarde, os dois moinhos da Fonte da Murta – o de pura farinha e o de rolão
– recortavam-se, altaneiros, no céu alaranjado ao sol-pôr, como num conto de
fadas. Aí, nesse noroeste, se encontram com S. Brás os concelhos de Loulé e
Faro. Um êxtase a qualquer hora do dia.
E
assim via a minha terra.
E
assim a considerava berço de poetas, como os que, nos últimos tempos, eu leio
na página inteira que o Notícias de S.
Braz lhes dedica, abraço ímpar no quadro dos jornais portugueses. Era nessa
paisagem, dizia eu com os meus botões, que se bebia inspiração, que decerto
encantara o Aleixo e até obrigava meu pai a falar-me em rimas de vez em quando.
Por
conseguinte, esse era o tema: a paisagem são-brasense como património a salvaguardar. Eis senão quando abro o Guia de Portugal. Busco as páginas em
que se poderia falar de S. Brás. E pasmo. Afinal, sempre fora assim! O que, do
alto da casa de minha avó, no Corotelo, sempre fizera os meus encantos, também
já outros enfeitiçara também. Senti de novo o olor acre e bom das flores de alfarrobeira,
a cativar abelhas; deliciei-me com a beleza do farto candeio cinza numa promessa
de boa azeitona arretalhada. E não resisti. Mudei o tema. Vou partilhar emoções.
No
Guia de Portugal, esse primeiro
repositório das belezas do País, publicado pela Biblioteca Nacional de Lisboa
em 1927, há, no volume II, sobre «O que se ver no Algarve», esta frase, de Raul
Proença:
«É
preciso conhecer as vilas, as aldeias, os campos, a serra, o mar (no
Barlavento), para sentir e amar o Algarve como ele deve ser sentido e amado –
como um dos mais lindos, originais e sugestivos rincões da terra portuguesa. O
que há, pois, a ver e admirar nesta província são sobretudo os aspectos
inconfundíveis da sua paisagem e os traços pitorescos da sua vida regional» (p.
210).
Sedutora,
a descrição da viagem a partir de Barranco do Velho:
«A
estrada para S. Brás continua com belos pontos de vista para a direita, num
solo extremamente movimentado. Aparecem as primeiras figueiras. O caminho
coleia. Os outeiros da esquerda lembram jardins em terraços. As ondulações do
terreno, as sucessivas quebradas da montanha, os vales cultivados, a vegetação
mais exuberante, as massas verdes dos pinheiros tomando as encostas, tornam o
panorama encantador. Vê-se já Alportel, mais além o Farrobo sobre um outeiro e,
de repente, numa brusca transição, entramos no jardim algarvio, o Chenchir dos Árabes. A mutação não pode
ser mais completa. Desaparecem o mar de montanhas, os pinheirais ondeantes, os
sobreiros, as colinas doces e boleadas. Deixámos a região do xisto, entramos na
dos calcários. É o Algarve propriamente dito que começa, com as suas árvores
baixinhas, as suas casas brancas, as suas chaminés mouriscas e os seus
pequeninos campos divididos por piteiras. Transpusemos 200 a 300 m., e parece que entramos
em outro mundo» (p. 216).
Depois
de se ter falado de Loulé, ruma-se a S. Brás de Alportel «por uma estrada
pitoresca, uma das mais animadas do Algarve. Belas vistas à direita para a
campina cheia de casais e de arvoredo e para a linha de cerros que nos separa
do mar» (p. 230).
Confesso
que tive de ler duas vezes, por não querer acreditar no que, a determinado
momento, vi escrito. É que se explica que de S. Brás se pode «regressar a Faro
por um caminho mais longo mas mais pitoresco» e, ao chegar a S. Romão de Vilarinha [sic], «começa a trepar-se uma colina até
subir a meia encosta o monte do Corotelo,
numa deliciosa varanda sobre os outeiros e os campos circundantes. Poucas vezes
se tem ocasião de apreciar no Algarve panorama tão colorido e gracioso. Esse panorama
ainda aumenta de amplidão se, fazendo uma pequena pagarem no Corotelo, nos
tentarmos a subir por uma íngreme vereda à assentada em que se erguem os
moinhos da Fonte da Mural [sic]. Para o S. estende-se o mar num circuito
de muitas milhas, desde as paragens de Tavira e Albufeira. Para o N. é um
verdadeiro rosário de aldeias, que fecha ao longe na massa compacta de S. Brás,
enquanto no horizonte se arredondam duas cadeias de cerros dispostos em anfiteatro
desenhando um largo quadro de estilo rocaille,
que seria inteiramente belo e amável se não tão desnudos de vegetação esses
cerros calcinados. Nas alturas dezenas de moinhos, ao vento propício, rodam
continuamente a sua cruz de Cristo…» (p. 243).
Voltei
atrás, à página 242, porque aí se destacava, a negro, S. Brás de Alportel. Começa-se por explicar que tem 10 961 habitantes
e que era «ainda há pouco tempo a mais populosa aldeia do País». Ora toma! Referem-se
as «fábricas de moagem a vapor, rolhas, velas e fogos de artifício; indústria caseira
de capachos e golpelhas e outros artigos de palma».
Assustei-me
com o que li a seguir o que se escrevera – «não tem o menor interesse artístico
ou monumental» –, mas logo recuperei do susto, pois de imediato se acrescenta
que «fica situada numa das mais encantadoras regiões do Algarve, quase na transição
do barrocal para a zona montanhosa».
Por isso, «de qualquer das açoteias da vilória a vista se perde sobre uma nesga
de terra intensamente agricultada, coberta de alfarrobeiras e amendoeiras». «A
certas horas do dia», conclui Raul Proença, «isto atinge o deslumbramento».
ooo
Fechei
devagarinho o livro de capa verde com o grande escudo dourado de Portugal ao
centro.
Fiquei
a saborear o que lera.
Sonhei
que vão despertar vontades para não se deixarem cair tradicionais telhados de
canas, em casas por habitar; para, em comunidade, se acolherem as amêndoas, os
figos, as alfarrobas, a azeitona grada e boa que vão ficando nas árvores por
não haver quem os acolha; para, em suma, se acarinhar, qual inigualável brinde
da Natureza, esta nossa paisagem que urge salvaguardar.
José d’Encarnação
Publicado em SBA Revista de Cultura, 1, Outono de 2020, p. 6-8.