sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A arte de bem escrever

             Bem no sei, o título não prima pela originalidade, que já o senhor el-rei D. Duarte escreveu «A Arte de bem Cavalgar Toda a Sela», que teve como título inicial O Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela; o meu colega Cristóvão Pereira sabiamente dissertou sobre a ortografia de língua portuguesa, definindo-a como «a arte de bem escrever ao longo dos séculos» (Boletim de Estudos Clássicos, 55, 2011, p. 133-140»; e até a senhora D. Margaret Thatcher redigiu um livro sobre «A Arte de bem Governar» (não foi, decerto, por ele, que Donald Trump estudou…). E já que se fala em estudar, um dos meus livros de cabeceira data de 1943, está muito sublinhadinho desde a minha juventude, deve-se ao grande mestre Mário Gonçalves Viana e chama-se «A Arte de Estudar».

            Tudo artes, portanto, que se aprendem com o estudo e a experiência. Para se escrever nos jornais, também é preciso arte, mormente porque o jornalista procura ser o mais aliciante possível.
            Vem tudo isto a propósito de uns recortes que amigo meu me enviou, em ar de crítica ao pouco profissionalismo neles patente. É bem provável que já corram mundo, com milhares de visualizações. Achei-lhes piada, porque, no fundo, além da pressa em que se vive, esses títulos demonstram a enorme capacidade que o português tem de pôr em prática a máxima de que «a bom entendedor meia palavra basta». Ora veja-se:
            «Morreram 430 mortos nas estradas portuguesas» – título do Jornal de Notícias.
            A 6 de Março de 2014, um diário anunciava: «Carro capota com 4 pessoas e uma mulher».
 
         
   Numa das legendas da CMTV, sempre em directo e em primeiro: «Dois mortos em fuga». Esta, confesso, é um mimo, porque resume às mil maravilhas o que era preciso explicar, se não fôssemos todos inteligentes e não percebêssemos logo que houve um valdevinos que matou duas pessoas e se pôs em fuga. Para legenda televisiva, era complexo e o pessoal não tinha tempo para ler tudo!... Também a CMTV legendou doutra vez: «Acidente na A1 Três viaturas feridas». E pronto!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 791, 15-01-2021, p. 11.

 

 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Que grande seca!...

             Pronuncie-se ‘séca’, vocábulo que tem dois significados principais: o meteorológico, falta de chuva, e o do dia-a-dia, amiúde usado na nossa juventude (e não só!) quando o senhor fazia um discurso que nunca mais acabava e não usava formas de nos chamar a atenção: «ca ganda seca!»…
«O Semeador»
            Neste aspecto – como noutros, obviamente – há que seguir os ensinamentos de Cristo: o pessoal só compreende se lhes falares terra-a-terra, se lhes souberes contar uma história! Não foram isso as parábolas evangélicas? E não estamos nós sempre a referir-nos à parábola do filho pródigo ou à do semeador?... E o que são as fábulas dos senhores Esopo, Fedro e La Fontaine? Pequenas histórias com uma ‘moral’ no fim!
Achei piada ao meu ortopedista, outro dia, quando – para me explicar os exercícios que deveria fazer para retomar a motricidade do braço direito – me falou em «mexa a sopa da esquerda para a direita e depois ao contrário», «varra a cozinha», «limpe o pó à secretária!». E fazia os gestos correspondentes. Não vou esquecer. 
 Sem histórias, um discurso é uma seca. Isso mesmo eu tentei explicar ao Provedor  do Ouvinte da Antena Um neste Verão. Depois do noticiário das 9, havia sempre um minuto de conversa ou, se calhar mais, com um senhor da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Coitado do senhor! O que vale é que não era sempre o mesmo. O mesmo era sempre o que vinha no papel: as perguntas do jornalista e as respostas correspondentes. Ele era proibições disto e daquilo, ele eram recomendações da mais variada ordem para não se perturbar o combate ao fogo!... A gente já nem ligava e via-se mesmo que ambos os interlocutores já estavam fartos daquela lengalenga.
            Ora, se de permeio viesse a história do incêndio do dia anterior, provocado por uma máquina ou por um cigarro, a história do bom combate havido há dois dias, porque a população alertou a tempo, o ouvinte até dizia: «Deixa lá ver como é que foi ontem e o que é que correu bem ou mal!».
            ¿E, aqui para nós, os incêndios são devidos a quê? ¿Não explicou já o Prof. Jorge Paiva que, para evitar o que chama de «piroverões» (verões ardentes), o que é necessário é: a re-humanização das montanhas, pôr lá gente; e, «após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada»?
            Pois.

                                                           José d’Encarnação

Nota: Reproduz-se o quadro «O Semeador», de James Tissot (Brooklyn Museum).

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 790, 01-01-2021, p. 11.

 

 

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

A paisagem são-brasense – Património a acarinhar!

                Extasiava-me, do pátio de trás da casa de minha avó, no Cerrito, a olhar para a banda dos Vilarinhos e a espraiar a vista desde a Gralheira ao Malhão, quedando-me, em prece, no vulto da igreja de S. Romão.

            Embevecia-me aquele sereno verde imenso, de mui variegadas tonalidades, pontilhado do branco alvacento das casas.
            Pelo final da tarde, os dois moinhos da Fonte da Murta – o de pura farinha e o de rolão – recortavam-se, altaneiros, no céu alaranjado ao sol-pôr, como num conto de fadas. Aí, nesse noroeste, se encontram com S. Brás os concelhos de Loulé e Faro. Um êxtase a qualquer hora do dia.
              E assim via a minha terra.
            E assim a considerava berço de poetas, como os que, nos últimos tempos, eu leio na página inteira que o Notícias de S. Braz lhes dedica, abraço ímpar no quadro dos jornais portugueses. Era nessa paisagem, dizia eu com os meus botões, que se bebia inspiração, que decerto encantara o Aleixo e até obrigava meu pai a falar-me em rimas de vez em quando.
            Por conseguinte, esse era o tema: a paisagem são-brasense como património a salvaguardar.       Eis senão quando abro o Guia de Portugal. Busco as páginas em que se poderia falar de S. Brás. E pasmo. Afinal, sempre fora assim! O que, do alto da casa de minha avó, no Corotelo, sempre fizera os meus encantos, também já outros enfeitiçara também. Senti de novo o olor acre e bom das flores de alfarrobeira, a cativar abelhas; deliciei-me com a beleza do farto candeio cinza numa promessa de boa azeitona arretalhada. E não resisti. Mudei o tema. Vou partilhar emoções.
            No Guia de Portugal, esse primeiro repositório das belezas do País, publicado pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1927, há, no volume II, sobre «O que se ver no Algarve», esta frase, de Raul Proença:

            «É preciso conhecer as vilas, as aldeias, os campos, a serra, o mar (no Barlavento), para sentir e amar o Algarve como ele deve ser sentido e amado – como um dos mais lindos, originais e sugestivos rincões da terra portuguesa. O que há, pois, a ver e admirar nesta província são sobretudo os aspectos inconfundíveis da sua paisagem e os traços pitorescos da sua vida regional» (p. 210).

            Sedutora, a descrição da viagem a partir de Barranco do Velho:

         «A estrada para S. Brás continua com belos pontos de vista para a direita, num solo extremamente movimentado. Aparecem as primeiras figueiras. O caminho coleia. Os outeiros da esquerda lembram jardins em terraços. As ondulações do terreno, as sucessivas quebradas da montanha, os vales cultivados, a vegetação mais exuberante, as massas verdes dos pinheiros tomando as encostas, tornam o panorama encantador. Vê-se já Alportel, mais além o Farrobo sobre um outeiro e, de repente, numa brusca transição, entramos no jardim algarvio, o Chenchir dos Árabes. A mutação não pode ser mais completa. Desaparecem o mar de montanhas, os pinheirais ondeantes, os sobreiros, as colinas doces e boleadas. Deixámos a região do xisto, entramos na dos calcários. É o Algarve propriamente dito que começa, com as suas árvores baixinhas, as suas casas brancas, as suas chaminés mouriscas e os seus pequeninos campos divididos por piteiras. Transpusemos 200 a 300 m., e parece que entramos em outro mundo» (p. 216).

            Depois de se ter falado de Loulé, ruma-se a S. Brás de Alportel «por uma estrada pitoresca, uma das mais animadas do Algarve. Belas vistas à direita para a campina cheia de casais e de arvoredo e para a linha de cerros que nos separa do mar» (p. 230).

            Confesso que tive de ler duas vezes, por não querer acreditar no que, a determinado momento, vi escrito. É que se explica que de S. Brás se pode «regressar a Faro por um caminho mais longo mas mais pitoresco» e, ao chegar a S. Romão de Vilarinha [sic], «começa a trepar-se uma colina até subir a meia encosta o monte do Corotelo, numa deliciosa varanda sobre os outeiros e os campos circundantes. Poucas vezes se tem ocasião de apreciar no Algarve panorama tão colorido e gracioso. Esse panorama ainda aumenta de amplidão se, fazendo uma pequena pagarem no Corotelo, nos tentarmos a subir por uma íngreme vereda à assentada em que se erguem os moinhos da Fonte da Mural [sic]. Para o S. estende-se o mar num circuito de muitas milhas, desde as paragens de Tavira e Albufeira. Para o N. é um verdadeiro rosário de aldeias, que fecha ao longe na massa compacta de S. Brás, enquanto no horizonte se arredondam duas cadeias de cerros dispostos em anfiteatro desenhando um largo quadro de estilo rocaille, que seria inteiramente belo e amável se não tão desnudos de vegetação esses cerros calcinados. Nas alturas dezenas de moinhos, ao vento propício, rodam continuamente a sua cruz de Cristo…» (p. 243).

            Voltei atrás, à página 242, porque aí se destacava, a negro, S. Brás de Alportel. Começa-se por explicar que tem 10 961 habitantes e que era «ainda há pouco tempo a mais populosa aldeia do País». Ora toma! Referem-se as «fábricas de moagem a vapor, rolhas, velas e fogos de artifício; indústria caseira de capachos e golpelhas e outros artigos de palma».
            Assustei-me com o que li a seguir o que se escrevera – «não tem o menor interesse artístico ou monumental» –, mas logo recuperei do susto, pois de imediato se acrescenta que «fica situada numa das mais encantadoras regiões do Algarve, quase na transição do barrocal para a zona montanhosa». Por isso, «de qualquer das açoteias da vilória a vista se perde sobre uma nesga de terra intensamente agricultada, coberta de alfarrobeiras e amendoeiras». «A certas horas do dia», conclui Raul Proença, «isto atinge o deslumbramento».

ooo

            Fechei devagarinho o livro de capa verde com o grande escudo dourado de Portugal ao centro.
            Fiquei a saborear o que lera.
          Sonhei que vão despertar vontades para não se deixarem cair tradicionais telhados de canas, em casas por habitar; para, em comunidade, se acolherem as amêndoas, os figos, as alfarrobas, a azeitona grada e boa que vão ficando nas árvores por não haver quem os acolha; para, em suma, se acarinhar, qual inigualável brinde da Natureza, esta nossa paisagem que urge salvaguardar.

                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em SBA Revista de Cultura, 1, Outono de 2020, p. 6-8.