quarta-feira, 21 de junho de 2023

As notas

            Não, recuso-me a entrar na telenovela que encantou os políticos portugueses em meados do passado mês de Maio, acerca das notas que estariam no computador governamental eventualmente roubado e que, por esse provocado alarido, devem ser incendiárias q. b.

Ao longo da vida, uma pessoa vai dando importância a muitas notas, diferentes para cada época da sua existência.
Quando pequeninos e adolescentes, as notas em cada uma das disciplinas escolares. Elas consubstanciam o que os professores consideram ser o nosso nível de aprendizagem. Notas boas valem miminhos; notas más equivalem a ralhos, corte de regalias adquiridas…
Durante o curso – tecnológico ou científico – havia outrora o hábito de irmos tomando notas do que o professor explicava, pois nem tudo vinha na ‘sebenta’ (quando esta existia) ou nos livros recomendados. Hoje, conta-me o meu filho, que ousou seguir a carreira de professor do pai, já notas se não tomam, porque o professor fala, fala, mas eles, os estudantes, estão noutra, a ver os telemóveis, na expectativa de que o docente lhes passe o PowerPoint explicado na aula, onde eles mais não foram do que ‘corpos presentes’, como naquela missa que se celebra em prol do falecido, que está no caixão, ali, e já não pode tomar notas…

A nota final de curso, qualquer que ela seja, vai depois acompanhar-nos a vida inteira. Se notável, escarrapachamo-la bem visível no currículo; se sofrível, apenas se escreve «completou com aproveitamento» o curso de serralheiro, de alfaiate, de Sociologia, de Engenharia Informática…
Após a formação, as notas já têm significado diferente: quantas notas vou receber ao fim do mês? Ou, se se adrega comprar casa, «quanta nota é que isso me vai custar?».
Detestamos notas de culpa. Detestamos notas de multa, sobretudo se passadas à socapa.
Tenho em cada canto da casa blocos de notas; sempre que me lembro de algo a fazer, corro a anotar. Quanto às outras notas, as de euros, vamos tentando gastá-las como Deus é servido – e geri-las o melhor possível, para o nosso bem-estar e o dos outros, que é para isso (assim o entendemos) que essas notas têm valor!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 319, 20-06-2023, p. 13.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Esta Babel em que estamos!

             Chama-se Fonética a ciência que estuda os sons humanos. Linguística é, por seu turno, a forma de os exprimir por signos.

            Admiramo-nos, de vez em quando, com a infinidade de línguas e dialectos – e respectivos signos estranhos – vigentes pelo nosso mundo. Conta a Bíblia, no livro de Génesis (11, 1-9), cujo inspirado autor também terá ficado pasmado ao verificar tamanha diversidade, que foi esse um castigo de Deus, por o Homem O ter querido alcançar, construindo imensa torre, a «torre de Babel». E que castigo! – podemos exclamar nós, hoje, ao sentirmos a dificuldade em nos entendermos nessa verdadeira babel.
A torre de Babel, imaginada por José Luís Madeira

            Foi, em tempos, o Latim uma língua quase universal, em boa parte do mundo dito, então, “civilizado”. Houvera antes, diz-se, o indo-europeu. Em 1887, Ludwik Lejzer Zamenhof criou o esperanto, em jeito de aglutinação, para todos nos entendermos; o inglês aspira, agora, a ser esse elo privilegiado. O certo é que… as diferenças mantêm-se e até se corre sério risco de se acentuarem, haja em vista, por exemplo, o que se passa na vizinha Espanha, com a crescente afirmação do catalão, do basco, de galego, do valenciano… face ao castelhano adoptado há muito como língua oficial.

Vêm estas considerações a propósito das bem oportunas crónicas «Mais linguagem à moda antiga», inseridas por João Lourenço Roque no seu mais recente livro Digressões Interiores 3 (Palimage, Coimbra, 2021). Mostra João Lourenço Roque com inúmeros exemplos como é que a população da sua zona beirã (freguesia de Sarzedas, concelho de Castelo Branco) se exprime no quotidiano, Há expressões  e palavras próprias; mas há, sobretudo, uma forma própria de as pronunciar: o som ar final transforma-se em er – escuter (por escutar), esbarrguer-se (por esbarregar-se)…

Vale a pena sorrirmos com uma das pitorescas frases que cita (p. 34) e que só pronunciada em voz alta se logra compreender:

«Antontem andava a labrar com os bezerros, espindurei a marenda numa carrasqueira baixa, quando dei pela trilha um cão esfrangalhou-me a bolsa toda, comeu-me o conduto e abalou com o pão nos dentes».

 

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 846, 15-06-2023, p. 10.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Multidão de verdes!…

            Amanheceu há umas duas horas. Ao fundo, as ondinhas insistem, uma após outra, a irem lamber a areia, ao pé da íngreme falésia xistosa. Só muito de longe chega aqui o seu marulhar, apenas dois pardais em desafio estridente cortam a aragem fraca.


Jaz no parque uma dezena de rulotes, de portas abertas umas, preguiçosas inda outras, na certeza de que delas sairão daí a pouco os ocupantes surfistas – que o mar d’Arrifana os aguarda lá em baixo. A autarquia aljezurense tarda em dar prioridade a construir ali sanitários públicos, só disponibilizou os da praia e o pessoal organiza-se como pode. Servem para isso as abundantes moitas de que, no seu topo, a falésia se reveste.
Sempre apreciei deveras o mato. Não, nunca quis ser bicho-do-mato nem tenho especial vocação para isso, agrada-me conviver. O mato, para mim, era o lugar onde surpreendia cobras, lagartos, lagartixas; onde apanhava erva-de-São-Roberto e bagas de zimbro (cheguei a vender ao quilo); onde podia apreciar o sabor acre dos murtinhos silvestres; onde apanhava amoras e abrunhos (medronhos só em alguns deles); onde armávamos aos pássaros nos silvados e troviscos…
Volto a admirar este mato, aqui, a proteger as infinitas camadas oblíquas que o xisto grauváquico da arriba deixa ver. Manto verde matizado de mil colorações, que até contrasta com o verde berrante da vedação virgem daquela vivenda ao pé. Lá ao longe, sobranceiro, sentinela, alto marco geodésico branco cintado de negro. Mas, até lá, a perder de vista, esta infinita sucessão de verdes, verdadeiro paraíso da passarada livre. Aqui e além, ainda se mostra tímida flor branca de giesta, réstia de Primavera a findar…
Esse e todos os matos me encantam, lições duma biodiversidade real, que não carecem de livros para nos explicar a sua imprescindível importância e real necessidade. Que o mato, hoje, acaba por ser apetecível é por outros motivos:
– Já viste quantos lotes eu poderia construir ali? E com esta vista de mar! E este sossego! E este contacto com a Natureza!...
– Desculpa – atalhei – tu falaste em lotes a construir e em contacto com a Natureza?!...

Até o casalito de pardais que o ouviu deu uma gargalhada das deles!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 845, 01-06-2023, p. 10.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Raízes!

           Minuciosamente, acocorado, o Nuno arrancava, um a um, os pés de relva sãos, para os transplantar depois nas chagas que o vírus americano lhe provocara no relvado, como em muitos do Algarve e da Grande Lisboa. Uma praga sem antídoto à vista!

            E dei comigo a pensar na palavra «raízes».
            Palavra que todos os dias me soa:
– É este vaso cheio de raízes e já nem terra quase tem.
– São as raízes fortes destas árvores que levantam as pedras da calçada.
– É a guerra a destruir, impune, ancestrais monumentos que os povos consideram suas raízes.
– São as gentes daquela freguesia que, por via de desenraizado decreto de Lisboa, gizado em obscuro gabinete economicista, protestam contra a forçada união com uma outra, nada consentânea com as suas raízes tradicionais.
– É a raiz de alteia: «Devias tomar chá de alteia, homem, que te aliviava essa tosse!»…
            Luta o Nuno contra as raízes daninhas do seu relvado. Luta a Maria contra o  basto raizame do seu vaso de gerânios. Lutam os homens do Património Cultural para que, cegamente, se não destruam as raízes antigas. Lutam os técnicos das autarquias para que se revitalizem e se não deixem estiolar as fecundas raízes da Tradição. Ai, senhores, esta Quinta-feira da Espiga! – saudades!
 
                                                           José d’Encarnação 
 
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 318, 20-05-2023, p. 13.
 
 

Nunca mais!

            Decerto se ouviu de novo, com emoção, tanto no 25 de Abril como no 1º de Maio, o grito «Fascismo nunca mais!». Um bom desejo, de facto – para nós, Portugueses, e para o mundo, quando, agora, se vai sabendo de tantos fascismos por esse planeta além, tanta tortura e mortandade!...

Reencontrei, há dias, a Genoveva.
– Então, já temos novidades em relação à casa?
– Oooh!... Nunca mais disseram nada! Garantiram-nos que voltariam para ver o estado em que se encontra e nada. Nunca mais disseram nada!

«Nunca mais!». O desalento estampado no rosto de quem dispõe de casa pertencente a um departamento do Estado, em mui precárias condições de habitabilidade. Aquando das grandes chuvadas, o telhado abateu. Lá se conseguiu, depois das mais variadas diligências e empenhos, que uns senhores viessem ver o que se passava. Que voltariam, disseram. Não voltaram. Não deixaram contactos. E Genoveva, já septuagenária, o marido com alzheimer, espera. Desespera!
Quando por i tanto se apregoa das casas devolutas, quantas do Estado e de instituições públicas não conhecemos nós!...
Mas, confesso, o que me doeu foi esse «nunca mais» embrulhado na mais profunda melancolia e desvontade de viver assim!...
Claro, também me lembrei daquela tarde em que, regressado da pedreira, ao saber que eu pregara mentira da grossa, meu pai pegou no cavalo-marinho e ameaçou, com voz grossa:
– Tu nunca mais me voltas a mentir, ouviste?
O cavalo-marinho era um pedaço de pneu de camioneta, preparado em jeito de chicote, que pendia atrás da porta. E meu fofo bem sabia quão doloroso ele era!
Preferia que Genoveva me tivesse respondido:
– Ainda não vieram; mas lá virão decerto.
Gostava que esse «ainda não» reflectisse réstias de esperança. E que, aliás, de semblantes carregados, olhares tristes, a expressão «nunca mais» começasse a ser visceralmente banida, substituída por um sorridente «ainda não». E não é que – com esse, mais suave, ‘ainda não’ – até nos sentiríamos melhor?!...

                                                                       José d’Encarnação   

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 844, 15-05-2023, p. 10.

 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Esconderam o imperador!

            E por ali ficou, sem ver a luz do Sol, durante mais de dois milénios!

             Ele bem ordenara: quero o meu nome sempre bem à vista, por todo o meu Império, em tudo quanto seja obra de monta, pois nada pode ser feito sem o meu beneplácito, directo ou alcançado por intermédio dos meus fiéis mandatários!
            O nome e os meus títulos. Que sou imperador, porque subi ao trono pela força das armas; sou César, porque foi Júlio César o meu pai adoptivo e eu lhe sucedi; sou augusto, porque os deuses assim me quiseram: que viesse para aumentar a felicidade de todos e afastar de vez a angústia que a muitos acabrunhava! Por isso, aliás, sou Pai da Pátria e Sumo Pontífice, interlocutor privilegiado entre os homens e as divindades!...
            Mas neste caso, Senhor, vosso nome, além de cortado a metade por quem já de vós nada sabia nem queria saber, vosso nome aguentou camadas de argamassa por cima!
– Que palavras estão aqui, Amigos? Será bruxaria? O melhor é mesmo escondermos tudo isso bem escondido, que esta pedra assim acaba por estar mesmo a calhar aqui!
E, na tarde desse dia, os operários assim fizeram. Há séculos, decerto!
            Outro dia, houve, no entanto, em que outros homens decidiram recuperar a torre antiga, renovar-lhe o aspecto. Deram em descascar as camadas e eis senão quando o nome do imperador surgiu! Esse mesmo: o de Augusto, o primeiro imperador romano!
Que teria ele mandado fazer em Viseu para aí termos uma pedra com o seu nome? Ou será que se trata apenas a menção cronológica de um evento qualquer ocorrido «no tempo em que era imperador César Augusto»? Ou quiseram as gentes de Viseu levantar monumento em sua honra, reconhecidas por benesse vinda da Roma longínqua?
            Truncaram-te o nome, Augusto! Partiram a inscrição em que tudo isso viria, supostamente gravado para todo o sempre! Ficámos, pois, sem resposta!...
A não ser que, num outro dia, num dos edifícios por perto, se nos depare o que ora falta!
E todos ficaremos mais contentes!

                                                                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 843, 01-05-2023, p. 10.

 Post-scriptum: Um dia, porém, houve uns senhores que ousaram tentar adivinhar o resto do escrito. Pelo menos uma boa parte. E deu o seguinte:


 

                       

quinta-feira, 20 de abril de 2023

A história de um retábulo!

            Praticamente em todas as edições se tem publicado o pedido para se subvencionar o restauro do retábulo da capela do Senhor dos Passos da nossa igreja matriz. Já dei de muito boa vontade o meu óbolo e, agora, operação quase concluída, pedimos à arquitecta Marta Santos nos desse conta do que foi feito e do que esse retábulo poderia, de facto, representar no contexto da arte religiosa regional.

Aceitou Marta Santos esse repto e, no próximo número de ‘SBA Revista de Cultura’, virá artigo seu a esse propósito.

Sempre me encantou nesse tipo de trabalho o que se encontra por baixo, porque as várias camadas de pintura aí feitas ao longo de séculos acabam por ocultar o primitivo e acrescentar outros elementos.

Ficámos, assim, a saber que o original data da 2ª metade do século XVI, que é um exemplar notável e «importante testemunho do património cultural da região algarvia». Haviam sido escondidos – imagine-se! – um arcanjo, um anjo e a imagem do pelicano, símbolo da Eucaristia.

            E achou-se também uma curiosa frase latina, em quatro linhas; a primeira ainda está por decifrar, mas nas outras lê-se: SV[M] EQVATV[S] ME (ou MI, que estará por MIHI). Não encontrei, por enquanto, a passagem das Escrituras donde poderá ter sido retirada. O significado, contudo, não parece oferecer dúvida: “equatus” está por “aequatus”, que quer dizer ‘igualado’, ‘tornado igual’. Embora num latim sintaticamente não rigoroso, a frase poderá, por conseguinte, traduzir-se por «Eu sou igual a mim mesmo», eco, porventura, da frase que Deus disse a Moisés: «Eu sou aquele que sou!», consignada no livro do Êxodo (3, 14).

           

                                                           José d’Encarnação

 

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 317, 20-04-2023, p. 13.