quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Património de Oeiras em recuperação

              Perdoar-se-me-á se ouso referir-me a Oeiras, quando o naipe de colunistas deste número são convidados a tratar, de preferência, temas cascalenses. È que não posso deixar de me regozijar com o que li em Oeiras Atual, boletim municipal nº 253 (Set/Out), acompanhado de eloquente edição especial – e não queria adiar mais a referência.
            Logo na 1ª página, a mais de metade, a grande panorâmica sobre todo um espaço verde, a contrastar com o que é mais habitual apresentar de Oeiras, os contínuos aglomerados prediais sempre a crescer, os ninhos de empresas quais cogumelos... Não. Ali é um enorme espaço verde. E, em caixa, ao alto, a remeter para a p. 7: CONSEGUIMOS / VAMOS RECUPERAR / PATRIMÓNIO NACIONAL / Casa da Pesca · Cascatas · Pombal · Casa do Bicho da Seda.
            Na pág. 3, o editorial, assinado por Isaltino Morais, tem como título «Património: o dever de não esquecer o nosso legado». Em realce a assinatura do auto de cedência ao Município, por 44 anos, da utilização de parte da antiga Estação Agronómica Nacional, onde há a perspectiva de investir oito milhões de euros na recuperação do conjunto monumental em que se inclui a Casa da Pesca.
            De outro protocolo se fala, assinado com o Ministério da Defesa, tendo em vista «a manutenção e dinamização, para fruição pública, do Forte do Areeiro, onde será instalado, em breve, o Centro de Interpretação da Linha de Fortes da Defesa da Barra».
            Também a igreja e o convento da Cartuxa fazem parte dos projectos camarários, assim como a intenção de «devolver o mar e o rio aos oeirenses».
            Esta motivação política de uma cidade ou vila junto ao mar ou a um rio deles vir a usufruir e não a ser deles separada tem sido adoptada um pouco por toda a parte em Portugal, e a criação do chamado «paredão» em Cascais é disso um bom exemplo. Lisboa, mormente depois da Expo 98, compreendeu-o cabalmente e iniciou, no seu trecho poente, todo um conjunto de arranjos urbanísticos que permitiram à população e aos visitantes essa comunhão com o Tejo que, até há bem poucos anos, só era possível numa nesga estreita, em frente ao Terreiro do Paço.
             Congratulamo-nos.
            Em Cascais, o passeio pela orla marítima desde a vila até ao Guindo, hoje, assaz concorrido, oferece espraiar de vistas pelo Oceano além.
            Voltando a Oeiras, que foi – importa dizê-lo – o arrabalde de quintas mais próximo da capital e onde se ergueram palácios ligados à realeza, gostaríamos também de ter visto integrada nos planos camarários a Quinta Real de Caxias, sobre que, aliás, a própria Câmara publicou, em Setembro de 2009, magnífico volume com o subtítulo «História, Conservação, Restauro». Aí se dá miúda conta não apenas da sua história mas também do ingente trabalho de recuperação (da cascata, de estruturas, do sistema hidráulico, das esculturas…) ali levado a efeito, ao longo de 20 meses, por mui laboriosa equipa chefiada por Carlos Beloto. Para apoio a essa actividade se chegou a constituir a Associação de Defesa, Recuperação e Estudo do Património de Caxias, apresentada a 30 de Novembro de 2016, no Palácio Flor da Murta, em Paço de Arcos. Faltaram-lhe, porém, os meios prometidos para levar a cabo os seus objectivos e também se verificou menor interesse pela Quinta, de forma que Carlos Beloto apresentou, a 2 de Janeiro de 2019, circunstanciado relatório da actividade desenvolvida e saiu. Ao que parece, a Quinta Real não tem agora quem a cuide.

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal (Cascais), nº 311, 2020-01-15, p. 6.

1 comentário:

  1. A recuperação de património nacional é sempre uma notícia agradável. É um crime permitir a degradação de monumentos em espaços privilegiados e que são legados de gerações. Se a Câmara Municipal de Oeiras vai investir na reabilitação da Casa da Pesca e envolventes belíssimos, em parte da Estação Agronómica Nacional, é motivo de aplauso. Um aplauso também para este belo texto que, deslocando-se umas linhas do concelho de Cascais, dá atenção ao que de mais importante se desenrola no concelho vizinho, porque as pessoas não vivem em compartimentos estanques. Parabéns.

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