quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Este saudável encontro de gerações

            Já se antojava uma tertúlia bem agradável, porque o tema  se revelava pleno de actualidade. A possibilidade de reencontro entre avós e netos, nessa mui saudável – e sempre desejável – partilha de experiências. Nem sempre tal é possível e muitos avós levarão consigo para o túmulo o desgosto de não lhes ter sido permitido esse contacto.
            Da minha parte direi que muito aprendi não apenas com meus pais na juventude (em ambiente meio urbano) mas também nesse maravilhoso tempo de férias em que eles me enviavam para casa de minha avó materna e onde, sem peias, lograva muito aprender desde a apanha da azeitona, do figo, da amêndoa e da alfarroba, à forma de crestar o mel nas colmeias e à ida à serra apanhar lenha para o forno de cozer pão. E via minha avó amassar a farinha e pôr-lhe o fermento; via-a a amassar, pôr a massa a levedar e não hesitar em aceitar que eu pusesse a mão na massa para ajeitar um bolinho que ia depois ao forno para grande alegria minha. Com meu avô paterno, sempre de cachimbo ao canto da boca, chapéu de feltro na cabeça e lenço ao pescoço, fui à alfarroba, naquela carroça garrida puxada por um macho (ou uma mula, já não sei!); por vezes, era eu que a guiava, deixava ele. Enfim, muito do que sei do campo com eles aprendi nas férias, assim como a alegria de mariscar com meu tio Fernando na Ria de Faro e saborear depois aquelas amêijoas que só minha tia Rosairinha sabia temperar a preceito!
            Perdoar-se-me-á se me alonguei! É que, hoje, meus filhos, pelas circunstância da vida, já nada dessa experiência lhes foi dado usufruir. E meus netos muito menos! E tenho pena.
Alice Vieira a autografar o volume
            Essas lembranças me surgiram ao ouvir, no átrio do Casino Estoril, na passada segunda-feira, 13,  a apresentação – e ao ler depois – o livro de Alice Vieira e Nélson Mateus, Diário de uma Avó e de um Neto, Confinados em Casa.
            O neto foi adoptado, mas a ideia consistiu, durante o ano de 2020, em trocarem mensagens – naturalmente, por correio electrónico, embora Alice Vieira tivesse preferido por via postal, à mão… – sobre as recordações que ambos tinham de suas vidas passadas e, sobretudo, acerca do quotidiano.
Apresenta-se, pois, o livro (que, diga-se desde já, se lê num ápice!...) como «uma ponte entre gerações que ensina como a alma está algures entre a vivacidade dos jovens e as memórias dos mais velhos, e que podemos criar algo de mágico ao juntar os dois».
            Alice mantém a vivacidade que todos lhe conhecemos, apesar dos seus 78 anos. Recolheu-se para a Ericeira durante a pandemia e continua a escrever, porque isso lhe está no sangue desde sempre! Nélson foi-a espicaçando e… o livro aí está. Para ser saboreado.
            A apresentação esteve a cargo de Júlio Isidro (por sinal, foi ele quem ‘lançou’ a Alice há muitos anos!...) e tudo resultou numa tertúlia entre amigos, a conversarem sobre o que é isso de os mais novos poderem saber o que os mais velhos fizeram. De como, por exemplo, a água era, já nessa altura, um bem essencial, que se poupava a todo o custo, e a da bacia onde se lavavam as mãos ia depois regar as couves. «No ginásio, não imaginas o que me custa ver pessoas que fazem a barba com a água a correr continuamente, ou que não desligam o duche», desabafou o ‘neto’ (p. 140).
            É isso o livro: uma troca de impressões sobre o nosso quotidiano. «Hoje é tudo muito fácil. Os meninos tiram cursos superiores, pagos pelos paizinhos, não querem estar em Portugal, pegam no avião e vão viver para outros países. Mas no meu tempo… muitos íamos para França, para fugir à miséria e à ditadura de Portugal. Ficávamos nos bidonvilles, bairros miseráveis, piores que os nossos bairros de lata na altura. E trabalho, só como porteiras das madames, e era um pau…» (p. 84).
Com Toni Muchaxo e Isabel Miguéis

           
  Muito agradável a tertúlia, repito, pelo ar descontraído que Júlio Isidro, Alice Vieira e Nélson lhe souberam dar, proporcionando a troca de experiências.
Na assistência, Severino Moreira, o bancário que, um dia, tendo-se reformado, respondeu a um casting para Pai Natal e é hoje – há 23 anos! – o conhecido Pai Natal do Centro Comercial Colombo. Sim, as barbas são verdadeiras, já as tinha agora, a bastantes semanas de ir ‘actuar’. Mas a sua ‘actuação’ (contou) enriquece-o e dá-lhe oportunidade de conviver com muita gente. Uma jovem brasileira disse-lhe, um dia: «Pai Natal, eu preciso de um namorado! Arranja-me um namorado!». No ano seguinte, voltou: «Já tenho namorado!». E vai-lhe enviando as fotos dos filhos…
Disse Severino que ser Pai Natal é como estar num confessionário…
A linha do tempo: os livros de Alice Vieira   
           
             Enfim, se a exposição patente no átrio do Casino, «Retratos Contados», conta em imagens a vida de Alice Vieira («60 anos de jornalista e 41 de obra literária»), o mais importante a realçar deste encontro e deste livro é, sem dúvida, a importância da memória. Antes de nós, outros vieram, outros viveram, outros labutaram para que, hoje, de tantas benesses viéssemos a usufruir!
               Cada história, cada carta, uma lição!...

                                          José d’Encarnação

 

3 comentários:

  1. A vivência geracional é o sustentáculo da história de um povo!... Recordar é uma forma de orar. (Varela Pires)

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  2. Desculpa o triste comentário....mas hoje os netos, com os seus avós terão o conhecimento do que é um Lar da terceira idade (?) se se derem ao incomodo de lá irem ver os avós.

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  3. Em todas as épocas sempre houve quem se portasse bem e mal - se cada geração for de 25 anos (?) eu já percorro a quarta - a espécie humana tem em geral melhorado...mas devagarinho! Abraços -

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