sábado, 24 de novembro de 2018

Hortas urbanas – o milenar retorno à terra!

             Pelos finais do século I antes de Cristo, intensificou-se o fenómeno urbano em Roma, designadamente após a subida ao trono do imperador Augusto. A cidade ganhou sedução e, paulatinamente, os campos começaram a ser abandonados, um processo que, pelos meados do século II, já os irmãos Gracos haviam tentado estancar, ainda que sem grande êxito.
            Não causou, pois, admiração que o imperador, vendo quão nefastas consequências tal êxodo rural podia acarretar, houvesse sugerido ao seu grande apoiante Mecenas que financiasse Virgílio para que, em grandioso poema, louvasse em verso as maravilhas da vida campestre. Surgem, assim, as Geórgicas, escritas de 37 a 30 a. C., onde Virgílio dá conta do que então era necessário saber em relação não apenas aos trabalhos agrícolas propriamente ditos, mas também aos cuidados a ter com a criação de gado e, até, às normas para uma correcta apicultura!
            Aliás, já antes Virgílio se comprazera em poemas pastoris, as Bucólicas, dando a entender como a paisagem rural e os seus encantos poderiam constituir cenário ideal para os encantamentos do Amor!... Também não andavam perdidos os ecos dos ensinamentos de Varrão (116 – 27 a. C.), que escrevera sobre «as coisas do campo», um tratado que terá em Columela, nos meados do século I da nossa era, excelente continuador.
            Não nos admira, portanto, que a segunda metade do século XX, com a repetição de um grande êxodo da Província (como então se dizia) para a Cidade, a nostalgia das vida rural e dos seus ritmos se tenha feito sentir! E foi esporádica – mas existiu! – a tentação de ocupar a varanda ou encher de terra a banheira (de pouco uso, a princípio…) para nela se plantarem coentros, hortelã e salsa, aqueles condimentos frescos que era preciso ter sempre à mão!...
            O fenómeno das hortas urbanas começou clandestinamente: de tudo o que era espaço (público ou mesmo privado) disponível junto de moradias ou de prédios se apropriavam os vizinhos, vedando-o para marcar a propriedade, e nele se cultivavam tomates, batatas, couves, favas, ervilhas… Enfim, tudo o que a alimentação habitual requeria de legumes. E até uma ou outra árvore se chegava a plantar. Nem sempre as autoridades municipais concordavam com essa apropriação do espaço público e, por isso, sob pretexto de que o iriam ‘urbanizar’ (entenda-se, adequar à vida da comunidade…), amiúde obrigavam a arrancar tudo, mesmo sem dar prazos para aproveitamento do que estava a amadurecer.
            Daí que, progressivamente, se tenha pensado em apoiar (em vez de reprimir) essa legítima tendência da população, cientes (os políticos, finalmente!...) de que a maioria dos habitantes da Cidade tinham na Província, no meio rural, as suas verdadeiras raízes, que importava respeitar.
            E se inclusive nos taludes das estradas dos arredores citadinos as hortas se multiplicavam, até como passatempo de fim-de-semana para os urbanos, a cidade de Lisboa deu o exemplo com a criação de uma horta urbana, estabelecendo regras para a sua correcta utilização por parte dos vizinhos, que, amiúde através das Comissões de Moradores, aos seus talhões se haviam candidato.
            Hoje, pode ler-se, por exemplo, que é com orgulho que em Chelas, na freguesia de Marvila, concelho de Lisboa, numa zona abandonada até 2011, está, agora, «o maior espaço urbano do país para albergar hortas»; 4,5 hectares de horta «repartidos em 300 talhões para cultivo, cada um com 160 metros quadrados», salientando-se como «a sustentabilidade social se liga à agricultura urbana, no sentido de esta ser uma actividade que promove o sentido de comunidade, bem como o seu entrosamento na sociedade urbana mais alargada».
            O exemplo da capital está a ser seguido por inúmeros municípios do País, que não deixam de publicitar com carinho essa iniciativa, relevando os grandes benefícios – sociais, económicos e ecológicos – daí advenientes. E quando, em Cascais, gizámos, há 15 anos, o plano de pormenor a enquadrar a villa romana de Freiria, não deixámos de reservar espaço, junto ao ribeiro que perenemente lhe corre ao pé, para nele se instalarem hortas mui agradáveis, como que a recordar os ensinamentos dos agrónomos romanos ou ecos dos poemas virgilianos!...
            Há quem diga que a História não se repete. Repetição igual, como rigorosa causa-efeito, não; mas que fenómenos idênticos geram consequências idênticas, sim. E, por isso, não há motivo para não se recordarem as atitudes políticas e culturais assumidas há dois mil anos, quando as de hoje dessoutras são claro eco, mesmo que inconsciente!

                                                                       José d’Encarnação

            Publicado em Hamburgo, na revista Portugal-Post – Correio luso-hanseático, 64, Novembro de 2018, p. 14-16. [Este número da revista é dedicado à protecção do meio ambiente; o artigo tem versão alemã, sob o título «Nach tausend Jahren zurück aufs Land!»].
Hortas comunitárias inauguradas, em Abril de 2016,
numa urbanização dos arredores de Cascais.

Panorâmica do Vale Horticola de Chelas (Lisboa).

2 comentários:

  1. É sempre um gosto ler as suas crónicas.
    Obrigado.

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    1. Muito obrigado! E, como imagina, é também para mim um prazer sentir alguém do outro lado e - ainda por cima! - com palavras de incentivo!

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