sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Autonomia

            Dei os parabéns ao meu condiscípulo e amigo franciscano, pelos seus 84 anos. Respondeu-me:

«Minha saúde vai... suficiente! Vai acontecendo também o que a mãe dum meu confrade lhe disse: – Olha, filho, para o fim junta-se tudo!.. Mas estou bastante tranquilo e agradecido com o que Deus me deu até aqui e ainda sou razoavelmente autónomo».
Fez-me pensar esta frase. E dei comigo a passar em filme as várias autonomias.
      As eleições espanholas trouxeram de novo à baila as «comunidades autónomas».
      Algo que preocupa o eventual comprador de um automóvel eléctrico é a autonomia da bateria.
Brasão do Reino do Pineal
Estranhámos, em Julho deste ano, existir em Oliveira do Hospital a seita autodesignada Reino do Pineal, que reclama autonomia jurídica em pleno território português.
Uma das primeiras preocupações dos familiares dum viúvo ou duma viúva é a do respeito pela respectiva autonomia, contentes por ela existir, mas sempre atentos para se detectar nesse domínio a menor anomalia.
Comer sozinho, começar a andar, saber quando precisa de ir à casa-de-banho… são, para os pais, fases do seu bebé a carecer da maior atenção.
           Um dia, o Manel dispunha-se a atar os sapatos do filhote:
          – O João consegue! – foi a atitude do menino, dispondo-se ele próprio a executar a operação.
            Regozijo e aplauso selaram a façanha.
            Regozijo e aplauso, a 1 de Junho de 2014, ao comemorarmos o centenário da elevação de S. Brás de Alportel a concelho.
Autonomia! De «autós», palavra grega que significa ‘por si’; e ‘nómos’, que significa ‘lei’. A possibilidade de criar as suas leis e governar-se por si.

            Em todos os casos, uma autonomia que muito se preza e que muito apraz salvaguardar!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 323, 20-10-2023, p. 7.

 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Aqui era o quarto!

            Sempre me deliciou a frase "Aqui era o quarto".
Fazia uma pausa e olhava derredor, a ver as reações dos estudantes. Explicava-lhes depois que não havia dúvidas: o resto do mosaico, de teor geométrico, qual esteira, junto ao que restava da parede indicava, sem sombra para dúvidas, que ali houvera um leito, ali haviam repousado, há dois mil anos, seres como nós, após a labuta quotidiana.
O silêncio que pairava sobre a cidade de Conimbriga, nessa tarde serena da visita de estudo em semana da Queima, ajudava a imaginação a espraiar-se em mentes juvenis e sonhadoras... Um dia, também terão um quarto, onde almejam dormir ternamente acompanhados…
"Aqui era o quarto". Agora, mais de quatro décadas passadas sobre essas inesquecíveis visitas de estudo, não é que a frase se veste de mui outras roupagens?
 
Muito ano a lutar pelo património edificado, mormente o que é de características locais, "aqui era o quarto" transporta-me sempre para aquela casinha antiga, sobre a suavidade da colina, do lado norte da A6 antes de cortarmos para Montemor. Sinto-lhe o choro, pelo abandono a que a votaram, sempre que por lá passo. Vi, há, dias, que já caíra parte do telhado. Imagino que, algum dia, o proprietário ou um descendente dele ali venha e aponte: "Sabes, aqui era o quarto!".
Mas, nesse percurso Alentejo fora – e não só – muitas paredes decrépitas gostariam de ouvir a frase, sinal de que alguém poderia estar de novo a interessar-se por elas. O véu da tristeza as envolve.
 
"Aqui era o quarto" estamos agora a ouvir quase diariamente. O míssil caiu em cheio e tudo ficou irreconhecível. O senhor de idade, único que ousara ficar, a voz embargada, as lágrimas há muito que secaram.
 
Sob aquela aba de prédio urbano, a frase mudou de tempo: "Agora, amigo, o meu quarto é aqui!". No montinho de jornais, o canito levantou a cabeça a mostrar olhar ternurento e sereno; bem encostada à parede, a trouxa envolvida em manta velha. “É verdade, amigo, durmo aqui há seis meses. O meu quarto, agora, é aqui”.

E assim fico, de olhos nos longes do território e da História. E a frase, com todos esses instantes parados no tempo, insiste em permanecer comigo, bem viva.

                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 853, 15/10/2023, p. 10.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Flagrantes

            – Então, vizinha, não quis o outro autocarro e veio para a paragem deste lado, foi?
            – Qual quê! O motorista eu fiz-lhe sinal, mas ele não parou. Não há meio de se endireitar este país!
            A vizinha viveu, de facto, muito tempo emigrada num país europeu e decidiu passar a velhice em Portugal; nunca deixa passar uma oportunidade para verberar o que lhe parece menos bem.

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            Os serviços de comunicação duma entidade enganaram-se na data prevista para um evento, integrado nas Jornadas Europeias do Património. António, sempre interessado nestas lides patrimoniais, quis inscrever-se. Não gostou do engano:
            – Assim é difícil progredirmos, enquanto sociedade. Irra!

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            No parque de estacionamento pago, o arrumador ia vociferando com os condutores – mormente senhoras – que não lhe davam gorjeta. Mal educadamente.
            Perto, o funcionário da empresa gestora dos parques entretinha-se a ver o telemóvel. A Joaquina:
            – Olhe, amigo, boa tarde, está ali um sujeito a incomodar as pessoas no parque.
            – E que tenho eu a ver com isso? Não me estão a chatear a mim, pois não? Chamem a polícia!
            – Ah! – replicou a Joaquina. – Só o treinaram a passar multas! Já percebi.

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            Em pleno centro histórico citadino, a Maria, de braço dado com o marido, septuagenários, amparando-se, não se apercebeu do lancil e estatelaram-se ambos. De pronto, o senhor que estava perto se apressou a ajudar a levantarem-se.  «Magoou-se?». O pulso sangrava um pouco. Uma jovem tirou logo da bolsa o lenço húmido para limpar o sangue. Um vendedor trouxe a garrafa de água para lhe lavar a mão. Boa parte dos intervenientes não falava o português de Portugal. Maria recompôs-se, palpou a perna a ver se havia problema. Os dois anciãos respiraram fundo, agradeceram. Olharam um para o outro, como que a perguntarem-se: «Tens a certeza que foi real isto que nos aconteceu?».

À noite, em telefonema a uma amiga, pôs em destaque os três flagrantes de que tivera conhecimento e de que, num deles, fora parte activa.

                                        José d’Encarnação

Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 852, 01/10/2023, p. 10.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Com os emojis empobrecemos!

Houve oportunidade de salientar, na passada edição, quão rica é a língua portuguesa, mormente por, na sua origem, além do latim, ter incorporado inúmeras palavras árabes para designar objectos e acções do quotidiano.
            Atribui-se aos Fenícios a criação do alfabeto, em que cada sinal (letra) representa um som, de modo que a junção dos sons dá palavras – e por meio delas nos entendemos. Os antigos egípcios, ao invés, começaram por usar desenhos, os hieróglifos, o que tornava mais difícil expressar ideias e formar frases.
            Para as inscrições sobre pedra, os Romanos – e depois deles muitos povos – optaram por usar abreviaturas ou siglas de palavras, cujo significado bem se compreendia, por ser necessário poupar espaço.
            Hoje, multiplicam-se os chamados ‘emojis’ e ‘emoticons’, sobretudo nas comunicações digitais. Reflectem emoções e sentimentos e… poupam trabalho!
            O escritor Christophe Clavé tem chamado a atenção para esse fenómeno do empobrecimento da linguagem. É isso: em vez de escreveres «Gostei imenso do que escreveste», tu pões um coração; em vez de fazeres uma declaração de amor, copias um coração a palpitar. Ou seja, começas a não ser capaz de te exprimir, de seleccionar as palavras correctas.
Esse, o perigo para que Clavé chama a atenção, porque tudo isso faz parte de um plano universal em que, se não estivermos atentos, acabaremos por ficar enredados. Escreve ele:
«O desaparecimento gradual dos tempos (conjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projecções no tempo.»
E livros como o célebre “1984”, de George Orwell, ou “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, contam como todos os regimes totalitários sempre procuraram ‘atrapalhar’ o pensamento, mediante a redução do número e do significado das palavras.
É este, de facto, um enorme grito de alerta. Para todos. Para os pais e educadores, em primeiro lugar.

                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 322, 20-09-2023, p. 7.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Esta vontade de estar vivo!

            Paro, de vez em quando, e pergunto-me a mim próprio se não era melhor estar mudo e quedo, saboreando mui despreocupado os dias que me é dado viver…
Uma colega, há dias, garantia-me: «Leccionei durante anos e anos! Aposentei-me, parou». Eu, não: está-me no sangue a vontade de partilhar experiências e recordo quanto me agradava, após uma viagem no quadro do programa ERASMUS, contar logo aos meus estudantes o que aprendera. Sentia que, desta forma, eles, aos 20 a pouco anos, acabavam por ficar a saber o que eu aprendera aos 50. E era bom.
 João Lourenço Roque, catedrático de História no mesmo dia que eu (a 05-06-1991). também se aposentou. Ao contrário de mim – que continuei, depois da aposentação, a não abandonar a minha dama, a Epigrafia –, ele largou por completo as lides da História em que se especializara e rumou a Calvos, a sua remota aldeia natal, na freguesia de Sarzedas, concelho de Castelo Branco. Aí se dedica à agricultura, seguindo a norma dos clássicos – “o regresso à terra é o melhor” – e escreve crónicas para o jornal albicastrense Reconquista. Faz-me lembrar o nosso Ibne Mucana, de Alcabideche (Cascais), que, no século XI, depois de anos e anos nas cortes dos reinos de taifas, cansado dos sofisticados ambientes cortesãos, voltou para a terra natal e se dedicou a amanhar magras terras.
São as crónicas de João Roque revisitação constante de pessoas e lugares, para que se saiba: estão vivas, os lugares existem e carecem de atenção. Cada crónica, uma viagem sem rumo certo, aos ziguezagues (como ele próprio reconhece), ao sabor das memórias e das circunstâncias, corrente desenfreada – e nisso reside o seu encanto. É capaz de estar a falar de azeitonas e lembrar-se de Coimbra e do seu amor – e a gente vai por i com ele!...

Por isso deu à série – que recentemente reuniu em volume (Digressões Interiores 3,  Palimage, Coimbra, 2021) – esse nome de «digressões». Nesse, que reúne o que escreveu de 2017 a 2021, há páginas a não esquecer, porque retratam quanto todos nós passámos e sentimos: o tempo da pandemia! As reacções, os sentimentos, as dúvidas… «Digressão» é isso mesmo: passar dum assunto para o outro, sem tir-te nem guar-te, como quadro de rica policromia. E «interiores», para realçar a beleza ímpar dum interior que merece ser celebrado, cantado, mantido no seu melhor, mantido nas suas gentes!

José d’Encarnação.

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 851, 15-09-2023, p. 10

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

«A era da burrice»

            
Ilustração de José Luís Madeira ©

            A frase não é minha e cheguei a ela depois de ter recebido o excerto de um artigo de Christophe Clavé, autor que eu também desconhecia, que começa assim: 
“O QI médio da população mundial, que sempre aumentou desde o pós-guerra até ao final dos anos 90, diminuiu nos últimos vinte anos. É a inversão do efeito Flynn”.
Fui ver quem era Christophe Clavé. Nascido em 1968, um dos seus livros mais conhecidos é «Les voies de la stratégie», que não trata dos meios para uma estratégia militar ou económica, mas de uma outra, muito mais complexa e sorrateira: a do empobrecimento da linguagem.
Também fui saber de James Flynn, psicólogo americano que, ao escrever, em 1982, o livro «A era da burrice», demonstrou haver um «aumento sistemático e progressivo dos resultados nos testes de inteligência». A isso se chamou o efeito de Flynn. Explica-se: o normal seria que, devido às novas potencialidades tecnológicas, o quociente médio de inteligência da população aumentasse, pelo que os testes à inteligência careciam de ser periodicamente reavaliados, para os seus resultados serem credíveis. Ora, o que ora se verifica é que se está a ir, como diz o Povo, «de cavalo para burro». Esta, a referida ‘inversão do efeito Flynn’.
Daí o progressivo empobrecimento da linguagem, desejado pelos potentados que pretendem governar o mundo, aniquilando a diversidade. O erro que Mark Bauerlein, escalpelizou no livro The Dumbest Generation, «A Geração Mais Burra» (2008), de subtítulo bem sintomático: «Como a era digital estupidifica os jovens americanos e põe em risco o nosso futuro». Hoje, as crianças de 7 ou 8 anos crescem de telemóvel na mão, quando deviam começar a ler livros!...
Agora compreendo porque é que, quando eu escrevo «dera atenção», a escrita inteligente me corrige para «será atenção». O pretérito mais-que-perfeito é areia de mais para o algoritmo! E porque é que Alice Marques me disse: «Tu usas formas verbais que já ninguém usa!».
Aí está: quanto menos tu dominares a linguagem, mais facilmente nós te dominaremos a ti! Daí a urgente necessidade de dar apoio aos falares locais e ao estudo cada vez mais afincado da língua materna.
Contra os canhões da uniformização, lutar, lutar! E nessa luta ninguém – ninguém! –  está dispensado de aprender a saber disparar os canhões!

                                                  José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 850, 1-09-2023, p. 10.