sábado, 5 de março de 2022

As gavetas

Roubo o título a um dos mais recentes livros do nosso cardeal José Tolentino Mendonça, «Introdução à Pintura Rupestre» (Assírio & Alvim, Outubro de 2021). Inserto na p. 35, o poema reza assim:
            Uma velha cosmogonia
            associava a gaveta à ferida primordial
            dizendo ser o buraco por onde escoamos
            gota a gota
            a porção que nos coube do dilúvio
 
Não nos coube muito, é certo, mas dá para ir atafulhando coisas e mais coisas e, a determinado momento, «Eu acho que tinha posto isso aqui, mas no meio disto tudo como é que eu o vou encontrar?». E dá-nos na veneta despejar tudo no chão!
Na verdade, aquele foi mesmo um buraco por onde se foi escoando muita coisa, gota a gota!...
A palavra «gavetas» trouxe-me à mente três imagens.
Bem, a primeira é essa, amiúde arreliadora, a da desordem mais completa de algumas das nossas gavetas! Como está habitualmente fechada, a gaveta não mostra o que vai lá dentro e remexê-la à cata de qualquer coisa traz sempre aquele nervoso miudinho a crescer desamparado… Hoje, até já inventaram assim uma espécie de caixinhas com compartimentos, para ajustar na gaveta e dão um jeitão!... Abençoados!


A segunda é a dos contadores orientais que a gente vê nos museus. Cheios de gavetinhas, algumas de segredo. A proprietária (sim, tinha que ser proprietária e não proprietário!) sabia exactamente o conteúdo de cada uma.
A terceira imagem que me ocorreu foi a do quarto de vestir de D. Irene Ferreira do Amaral, esposa de Álvaro Sousa, no Casal de Monserrate, Monte Estoril: «camisas brancas», «peúgas pretas», «botões pequenos»… Uma infinidade de etiquetas a identificar o conteúdo de cada gaveta e a facilitar aquele momento apressado em que já estamos atrasados para a cerimónia… Achei um mimo!
Fez-me bem, na juventude, a leitura d’«A Arte de Estudar», de Mário Gonçalves Viana (Editora Educação Nacional, Lda – Porto, 1945). Obrigou-me a reflectir na importância da organização tanto a física como, sobretudo, a mental. O dar atenção a um pensamento de cada vez, sem atropelos! Ai, mas as gavetas!…
 Nota: A imagem do contador indo-português é do Museu dos Condes de Castro Guimarães, de Cascais. Muito agradeço a pronta e gentil cedência.

José d’Encarnação 

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 817, 01-03-2022, p. 12.

quarta-feira, 2 de março de 2022

A propósito de O Suave Jugo, o mais recente livro de António Salvado

            Intrigante, a imagem da capa: Cristo com Sua coroa de espinhos? Homem pensativamente acabrunhado, sob esse «jugo» (qual?) ainda que proclamadamente «suave»?
Refiro-me ao mais recente livro de poemas do consagrado poeta albicastrense António Salvado, intitulado precisamente O Suave Jugo. Uma edição MCMN, apoiada pelo Município de Castelo Branco. Outubro de 2021. 56 páginas. Bem sugestivos desenhos a carvão de Miguel Elias, dramáticos na sua negridão e emaranhada textura.
Na I parte se recolhem poemas, que foram na sua maior parte lidos, explica o Autor, nos «Encuentros ‘Los Poetas y Dios’», realizados em Toral de los Gusmanes (Léon), em vários anos. Treze poemas, presididos pela imagem de Cristo em pose de flagelação.
Na II, elucida de novo o Autor (p. 23), estão incluídos poemas «dispersos por revistas portuguesas e espanholas» (muitos foram mesmo traduzidos em castelhano, embora aqui venha só a versão original), «e em horizonte temporal, no que se refere à sua publicação, muito largo». Abre-a uma triste flor de largas pétalas nuas. Na p. 42, Cristo carrega a cruz; na 44, está crucificado.
A III parte é um rei mago no seu camelo quem na abre. Mais poemas nascidos desses encontros dos poetas com Deus, que se me permita a alteração sintáctica.
Se o último poema do livro, pungente oração, consubstancia todo o sentir do Poeta não ousarei afirmá-lo, embora o pressinta. Todas as emoções, amarguras, confidências, soluços por que, ao longo do livro e do tempo e da vida, foi passando? Quiçá.
Primeiro, uma dúvida sua: se Deus se dará conta de que nele, Homem, se cruzam «o céu e a terra», que é como quem diz esse diálogo permanente entre a montanha e o vale, o subir e o rastejar.
Sente-se, afinal, remador, a cortar a força das águas para chegar aonde Ele existe «sem tempo» – e o Homem a carecer de tempo, qual borboleta que, fechada no casulo, espera o momento de o romper... Contudo, é também prisioneiro, a implorar libertação – «Olhos abertos mas sem nada verem, / passos cansados mas sem movimento…»), tendo a impressão de que, afinal, o seu Senhor está bem longe. Por ele suspira, alfim: «Antes do sal da morte, / Senhor, que eu chegue a Ti».
Perpassa por todo o livro esse arreigado misticismo, que busca arrimo em S. Juan de la Cruz, Santo António, S. Francisco, Santa Teresa de Ávila…
Publicado o livro num 3º trimestre do ano, aureolado de permanente ligação com o Divino, o Autor não poderia deixar de aludir ao Natal. E fá-lo com aquela maviosidade que do Menino promana («mãozinhas cheiinhas de ternura»), não sem, no poema «Endividam-se…» (p.14), pôr mesmo o dedo na ferida aberta por muitos Natais de artifício, no doloroso contraste entre o «jantar bem lauto e bem comido» e «o doce olhar da Mãe   enternecido / e o bafo d’animais p’r’ò aquecerem…». «Natal sem presépio» (p. 29) evoca os incêndios de Pedrógão Grande: «onde acolher-Te em tal destruição / […] p’ra que outra vez Tu possas renascer / na manjedoura que também ardeu?». Não esquecendo estoutra prece singela: «Rogo-Te: que a Tua mão / ponha fim à pandemia» (p. 31).
Lê-se de afogadilho este O Suave Jugo – que, afinal, não foi tão suave assim, nem o de Cristo e muito menos é o nosso! – na avidez de querer mais e chegar ao fim. Erra, porém, quem, ao terminar, ouse pôr-lhe um ponto final. Não há ponto final a pôr. Reticências talvez – a obrigarem a voltar atrás, aqui e além, naquele momento mágico antes do quotidiano adormecer.

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Reconquista [Castelo Branco] nº 3961, 10-02-2022, p. 31.

 

terça-feira, 1 de março de 2022

As desventuras de um tutor de bairro, em Cascais

           Aceitei de braços abertos o convite que me foi endereçado, em 2009, para ser tutor do bairro onde resido, a Pampilheira, pela empresa municipal Cascais Ambiente. Não esperava, todavia, que a minha missão viesse a ter tantos episódios mui interessantes de contar.
 
 O Bairro da Pampilheira
O núcleo inicial do bairro chama-se ainda hoje (mas só os mais antigos é que sabem) Barraca de Pau, porque a essa barraca se dirigiam os moradores dos lugares circunvizinhos quer para beberem um copo, buscar mercancia na taberna, na mercearia e na padaria ou, simplesmente, para conviver. A comunidade aí formada era constituída não apenas por saloios de raiz (poucos) mas sobretudo por gente dos Algarves e do Alentejo, que viera para o trabalho nas pedreiras ou nas quintas de pendor agrícola existentes.
            Nasceu o Bairro da Felicidade, cujo nome lembrava a mãe do Manuel Martins (o «Manel da Barraca»), falecido não há muito. O prédio era, e é, grande e mantém dependências agrícolas com alfaias, que, um dia, importará recuperar, entre as quais, uma das carroças dos anos 50.
            Sempre foi esse o meu ambiente desde pequeno e, por isso, ser tutor desse bairro era uma honra.
          Acontece, porém, que o bairro está na saída e entrada poente de Cascais e há, naturalmente, questões de trânsito – ou, como hoje se diz, de Mobilidade Urbana – que importa encarar com olhos de ver. Também para isso estão os moradores, mais do que os técnicos camarários, mormente os que se habituaram a estar nos gabinetes.
         Confesso, por tal motivo, manter um relacionamento difícil com a Divisão de Trânsito e Mobilidade da Câmara de Cascais. Não tive estudos nesse âmbito e rejo-me pelo que julgo ser o senso comum.
 
  1. O lugar para o frigorífico
            O primeiro embate – digamos assim – de que nunca mais me esqueci e já ocorreu há largos anos, aconteceu quando tive o privilégio de ser recebido pelo respectivo Chefe, que, por sinal, fora meu aluno nos Salesianos do Estoril. Ia contar-lhe o caso da Rua da Bela Vista, em Cascais, aonde então eu ia frequentemente e tinha dificuldade em arranjar lugar para estacionar e dei conta de que um vizinho morava num prédio com garagem e pintara no chão, a traços amarelos, um espaço teoricamente reservado para duas viaturas (ele só tinha uma). Aliás, na sequência, um outro morador, funcionário municipal e meu amigo de infância (andámos na escola juntos), lograra que, no prédio a seguir, onde morava, fossem colocados pilaretes, a fim de também aí se não estacionar. Achei que devia reclamar dos traços amarelos.
– Professor – retorquiu-me o Chefe – quando compra um frigorífico tem de saber previamente onde é que o vai colocar.
– Tens razão – concordei de pronto.
E vim-me embora.
Os traços amarelos continuam lá e o senhor já morreu.
 
  1. Placa à direita?
Da outra vez, o senhor vereador, perante a minha insistência, teve a gentileza de me vir buscar com o Chefe da Divisão, para eu lhe explicar onde é que me parecia dever pôr-se uma placa a identificar o Bairro da Pampilheira na Avenida Eng.º Adelino da Costa. Mostrei. Retorquiu o Chefe:
– Mas se puser a placa aqui, do lado direito de quem vai para norte, como é que se sabe que o bairro é também do lado esquerdo?
Pedi então ao Senhor Vereador que o motorista nos levasse até à rotunda que nós chamamos «de Birre». Fizemos inversão de  marcha, parámos e mostrei a placa que, do lado direito, diz CASCAIS.
– Cascais é daqui prá frente, tanto do lado direito como do esquerdo, não lhe parece?
E assim a ­– repetidamente solicitada – placa PAMPILHEIRA ainda não foi colocada na avenida. Meti ao barulho o presidente Judas, o presidente Capucho, o presidente da Junta… Nada! Placa não há!
 
  1. Pró hospital é por aqui?       
            Quando se sobe pela 3ª circular, pode haver alguma dúvida, à entrada para a A5 se, para ir para o hospital, se segue pela autoestrada ou não.
Sugeri que se pusesse aí placa a indicar a direcção correcta. Não fui atendido, por se ter considerado desnecessário.
É o que eu digo: não tenho estudos!
 
  1. E o Cobre é prá frente!
            Ao sair da autoestrada para Cascais, há, antes dessa «rotunda de Birre», uma placa que indica a direcção COBRE em frente. Para o Cobre, no entanto, ou se entra logo ali, na rotunda, à esquerda, ou não há mais placa nenhuma a indicar quando é que pode voltar-se para o Cobre. Não consegui ainda explicar (que raio de professor me saíste, ó Zé!) e uma das respostas que já recebi, por mais do que uma vez (porque eu sou do género ‘água mole em pedra dura…’), sempre nos mesmos termos, foi:
                              
«Na sequência de informação prestada pela Divisão de Trânsito e Mobilidade, após deslocação de técnico ao local,  verificou-se que a indicação de Cobre no painel direcional está correta. Indica uma das possibilidades de entrar na localidade do Cobre pela via distribuidora, a Av. Eng.º Adelino Amaro Costa, pelo que a mesma  não será alterada» (Refª E-DCID/2019/23023, email de 27/04/2020 16:15 h.).
Tenho esperança que, qualquer dia, um Senhor Presidente venha ver e tenha força para mudar a posição do nome (é só isso que basta fazer!!!).
  
  1. Os mais difíceis 90 graus!
            Consegui, com o incondicional apoio dos serviços camarários e o empenho pessoal do vereador Frederico Nunes, que, na empena altamente degradada dum edifício central do bairro, o pintor de renome internacional Rocket01 (o  nome artístico do inglês  Chris Butcher) pintasse o mural que faz as delícias dos residentes e dos muitos passantes. Sucede, todavia, que é negro o fundo escolhido pelo artista e, por tal motivo, o recanto formado no entroncamento das ruas Eça de Queiroz e Diogo do Couto se tornou mais sombrio à noite. Acresce que por aí – através de passagem deveras angusta – se vai aceder ao agora agradável recanto ajardinado que dá para a Rua Fernão Lopes.
            Pareceu-me – cá está o estuporado senso comum! – que seria fácil resolver essa obscuridade: bastava pedir à E-Redes que rodasse 90 graus a posição do candeeiro! Isso propus aos serviços camarários:
«Ocorrência nº: 2912838
Categoria: Ocorrências » Iluminação Pública » Avaria
Descrição: Tendo em conta a concretização do mural na empena do prédio de esquina entre as ruas Diogo do Couto e Eça de Queiroz, no Bairro da Pampilheira, solicito os bons ofícios dos respectivos serviços camarários para se solicitar à EDP a alteração de orientação do candeeiro de iluminação pública do poste que fica mesmo defronte do mural.
Trata-se de uma zona não muito iluminada e a orientação do candeeiro no sentido da Diogo do Couto (em vez de estar para a Eça de Queiroz) não só evitaria esse espaço de penumbra mas, sobretudo, acabaria por iluminar o painel agora concluído, o qual, mantendo-se a orientação em que o cadeeiro ora está, permanece na sombra, o que é acentuado pelo facto de ser negro o fundo do mural».
Asneira! Porque é que eu havia de falar do mural?
Por isso, cá veio a resposta (email de 24 de setembro de 2021 09:30 h, Ocorrência nº [#2912838]):
«No seguimento do seu contacto, que agradecemos, cumpre-nos informar que, de acordo com a Divisão de Obras de Vias e Infraestruturas, a luminária que se encontra orientada para a rua Eça de Queiroz não pode ser deslocada para a rua em questão».
Perdão, desta vez não foi a Divisão de Trânsito, tenho o azar de encontrar várias pela frente!
Retorqui (email desse mesmo dia às 10.39 h):
«Claro, para um leigo, mudar a posição de um candeeiro de uma para outra face do poste não se afigura tarefa complexa para a EDP; razões técnicas haverá, que muito me agradaria me fossem comunicadas».
Não tive, na altura, resposta às razões técnicas, mas vim a tê-las mais tarde (email de 16/11/21 12:20  h):
«No seguimento do seu contacto, que agradecemos, e após nova consulta ao departamento responsável, cumpre-nos informar que a função da iluminaria [sic] é iluminar a via pública, pelo que não se nos afigura correta [sic] alterar a posição da mesma a função da iluminação pública é iluminar a via pública e não as empenas ou fachadas dos edifícios».
Entretanto, o meu email de Setembro voltou a aparecer nos serviços, certamente por outra via; foi-lhe, pois, dada outra referência (E-DCID/2021/20900) e acabei por receber (email de 21/02/2022 11:21 h. – Ocorrência nº IOL-2912838) o seguinte:
«No seguimento do seu contacto, que agradecemos, cumpre-nos informar que de acordo com a Divisão de Obras de Vias e Infraestruturas, mantemos a informação prestada. A função da IP é iluminar a via pública e não as empenas ou fachadas dos edifícios».
Rendi-me. Da E-Redes, do Porto, disseram-me que nada podiam fazer, sem mandado expresso da Câmara. Perdi também esta batalha. Se Deus me der vida e saúde, não me apetece, todavia, perder a guerra, mesmo que o Senhor Presidente – que também foi meu aluno – não possa intervir. Sei que os chefes não duram sempre e, se Deus quiser, a gente ainda vai estar por cá mais uns tempinhos. Eu ou outro tutor! Oxalá!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 28-02-2022: https://duaslinhas.pt/.../as-desventuras-de-um-tutor-de.../