quinta-feira, 16 de junho de 2022

A mosca!

            Chata que ela é! Bem gordinha, decerto uma daquelas que fica grávida e depois busca um cantinho como que para hibernar e aí depositar os ovinhos. Põe, dizem os entendidos, 100 a 150 num dia e realiza umas 5 posturas durante uma quinzena. As crias demoram 24 h a sair e aumentam, em 4 dias, 54 vezes a sua estatura. Calcula-se que um casal de moscas pode gerar, num Verão, mais de 300 biliões de descendentes!
Foi por saber disto logo na minha juventude, que, anos seguidos, sem dó nem piedade, eu agarrava num folha de papel, encostava a mosquinha a um dos caixilhos da janela e… era uma vez! Irritava-me vê-la a voar dum lado para o outro. Distraía-me.
Agora, mercê de tantas campanhas em prol do valor dos insectos, acabo por me levantar (bom pretexto para exercício físico), abro uma das folhas da janela, agarro numa folha de papel e insisto com ela: saia para a Natureza! E digo insisto, porque habitualmente teima em não querer seguir os meus mecânicos conselhos, esgueira-se por baixo da folha e volta a bater nos vidros mais afastados. Ganho paciência e consigo libertá-la.
 
 
As varejeiras – desculpem! – essas, apesar do corpo azul-esverdeado, tão luzidio quão repelente, não gosto delas, porque me lembro sempre delas a poisar no peixe e, até, descaradamente, a depositarem lá os ovinhos. Agora, as vulgares até as aprecio, sobretudo após ter visto macrofotografias dos seus olhos, com as suas 4000 (quatro mil!...) lentes hexagonais – agradeço a Fernando Ferreira, o fotógrafo da Natureza, ter-nos facultado uma! – e saber que batem as asas ao ritmo de 350 por segundo!...
Tive acesso a uma ficha moscométrica: nome – mosca; apelido – insecto díptero; olhos – salientes; cabeça – elíptica, com antenas e tromba; cor – negra; estatura – 7 milímetros; profissão – aborrecer e contagiar!
E não resisto a transcrever o que li numa revista, em Julho de 1963:
«E se o trazer mosca (meia dúzia de pelos sob o lábio inferior) é moda masculina, como igualmente o sinal preto no rosto (mosca) foi, e é, enfeite para algumas damas; se ter mosca é sinónimo de dinheiro – não desejamos que nenhum dos nossos leitores ande com a mosca ou mereça o epíteto de mosca-morta com que os vocabulários familiares costumam brindar as pessoas sonsas ou indolentes».

                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 824, 15-06-2022, p. 12.

 

 

 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O sol-pôr

Por mais que se esmere, jamais alguém pode descrever o sol-pôr. Um dos casos em que, queira-se ou não, o feitiço dos cambiantes inebria os mais empedernidos, mesmo quando há nuvens densas de permeio e ténue raio espreita acolá como que a dizer adeus.
Neste Verão passado, ao sol-pôr, os pardais do bairro decidiram passar a noite no frondoso pinheiro manso do Luís. E era vê-los aos grupos, num chilreio, a luz da tarde fenecia, saudarem-se mutuamente, a procurar aconchego. Noutra semana, optaram pelo alto cipreste do Nuno – e foi a mesma algazarra, antes dos pios mais enternecidos de quem hesita até ao último momento em pôr a cabecinha sob a asa.
Há dias, a minha neta Maria convocou as amigas a terminarem a sua festa de aniversário sobre uma das arribas da Praia das Maçãs a contemplarem o sol a pôr-se. Mal ela sabe (ainda lhe não expliquei) que, justamente por ali, no Alto da Vigia, se encontraram inscrições dedicadas o Sol e à Lua, como divindades, tal o fascínio que o sítio despertou nos Romanos, há dois mil anos. Aliás, é nossa convicção de que os governadores da Lusitânia não gostavam de terminar seu mandato sem irem até ali, como que em peregrinação. Tem um génio próprio o local.
A 17 de Março de 1995, regressavam do Museu Nacional de Arqueologia os participantes num congresso internacional de Epigrafia, sobre religiões antigas, que se estava a realizar em Sintra. Era ao fim da tarde e, sub-repticiamente, combinei com os motoristas dos autocarros que parassem ali antes do Cabo Raso. O pessoal desceu e interrogava-se da razão da estranha paragem, se, ao que parece, inscrição romana não deveria haver por ali. Respondi que eu próprio não sabia do porquê. Até que, pouco a pouco, a sedução cumpriu-se. E foram às dezenas os disparos das máquinas fotográficas, enquanto o silêncio imperava. «José, sei un stregone!», cumprimentou-me um amigo, de olhos húmidos de emoção. Respondi-lhe: «Não, Giancarlo! O Feiticeiro não sou eu!».

Eugenia Serafini enviou-me, há dias, a pintura anexa, o que se chama (soube-o agora) um haiku ilustrado. E reza o poema:
«Os derradeiros voos salpicam de dourados desejos o sol-pôr».
Esse, o nosso anseio, quando o Sol, lento, desaparece na linha do horizonte: a certeza de que, no dia seguinte, do outro lado ele vai nascer!...        
 
                                        José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 823, 01-06-2022, p. 12.

 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Um epitáfio romano de carinhoso mistério…

 Encontra-se no Museu Regional de Beja – com o nº de inventário MRB.03005 – uma bem curiosa estela funerária romana, a merecer atenção pela carinhosa mensagem que dela se desprende.

A estela
            «Estela» é a designação ‘técnica’ dada a um monumento pétreo destinado a ser colocado ao alto. Enquanto a placa pressupõe a fixação numa parede, a estela enterra-se no chão, pelo que, habitualmente, se se tiver pensado em gravar nela uma inscrição, a parte inferior fica em branco ou porque se enterra ou porque haverá um soco munido de ranhura para a suster. No caso de que nos vamos ocupar há mesmo uma ranhura horizontal a delimitar espaço que se devia manter escondido.
As dimensões totais são as seguintes: altura, 77 cm; largura, 40; e espessura, 18. É, aliás, a escassa espessura uma das características das estelas.
De imediato salta à vista a graciosidade do conjunto. Esculpida em ‘mármore’ de Trigaches, tem um frontão triangular decorado; a inscrição foi inserida num quadrado de 24 x 26 cm, cuidadosamente moldurado, e, sob ele, uma de cada lado, gravaram-se duas rosetas hexapétalas, já um tudo-nada feridas pela erosão. Aliás, esse motivo decorativo repete-se também sob o frontão (aí, rosetas quadripétalas), como que a enquadrar tudo. Um toque de beleza.
Será, porventura, o motivo central do frontão que – além da inscrição, obviamente – mais despertará a atenção, pela sua singularidade, não apenas no quadro dos monumentos epigráficos conhecidos de Pax Iulia, mas também no âmbito da Lusitânia romana. Escrevemos, em 1984, que estávamos perante uma tipologia «estranha à região» e já se explicará porquê.
É que de um eixo central partem, como braços, em relevo, elementos a terminar em voluta, que lembrarão certamente – para os mais dados a observações botânicas – as folhas dos fetos a romper, uma evolução que não deixa de nos encantar, por quase sentirmos como é que, paulatinamente, a folha se vai desenrolando e se estende. Esse motivo foi também, durante muito tempo, típico do báculo dos bispos, qual cajado de pastor. Eram os antigos mais dados que nós a essa observação da Natureza e a dela fazerem transpor, para a vida humana, como que em símbolo, os sentimentos que inspiravam. Aqui, no feto-planta, o lento mas seguro espreguiçar-se para o alto, em busca da luz… Árvore da vida se lhe poderá chamar. Uma árvore de perene folhagem e sempre em renovação – como todos desejaríamos que fossem as nossas existências…
Não abunda a decoração de índole vegetalista nos monumentos epigrafados da cidade de Pax Iulia. Motivo idêntico a este só se encontrou num dos topos da cupa (monumento em forma de pipa estilizada) procedente da Herdade de Santa Luzia (freguesia de S. Brissos): o epitáfio de Júlio Primião, falecido aos 65 anos. Há um capitel no Museu de Faro com báculos gravados desta mesma forma; na lucerna 557 de Cartago, apresentada por Jean Deneauve no seu catálogo (prancha LVIII), o palmito assume iguais características formais.
 
A inscrição
Altura é, pois, de sabermos o que significa, em português, a inscrição latina grafada na estela:´~
 
                    Aqui jaz Híspalo, servo de Boco, de três anos.
                    Que a terra te seja leve.
                    Euhodo fez.
 
Sim, estremecemos ao ler e – caso não soubéssemos das crueldades ainda existentes nesta 2ª década do século XXI em muitas partes do mundo dito civilizado… – ousaríamos perguntar: «Como foi possível escravizar um menino de três anos?».
Sim, estremeceríamos com a nossa mentalidade actual; necessitamos, porém, de recuar dois milénios e fazer perguntas. Primeiro, ¿quem foi Euhodo? Depois, ¿porque é que foi ele quem fez (não mandou fazer!...) o monumento funerário para o menino? Finalmente, ¿por que razão se escreve – com todas as letras, dir-se-ia – que o menino foi escravo?
Ocorre voltar à descrição que fizemos e interrogarmo-nos, perante a riqueza da decoração apresentada: ¿como é possível um escravo ter monumento assim, tão bonito? E Euhodo, ao escrever «fez», manifesta não apenas orgulho na beleza que conseguiu mas, sobretudo, alegria por ter logrado mostrar desta sorte toda a sua enorme ternura pelo bebé que partiu.
            Interrogamo-nos.
            A dúvida, no entanto, esclarecer-se-á se, nessa interrogação, incluirmos o terceiro personagem mencionado na epígrafe: Boco, o dono de Híspalo! Boco era o senhor, decerto alguém importante do ponto de vista social e económico. Por conseguinte, ter sido seu escravo ou estar destinado a ser seu escravo não constituiria desdoiro mas uma honra. Euhodo – que pensamos poder ter sido o pai de Híspalo – não hesitou: também ele pertenceria à família de Boco, o senhor mui provavelmente até contribuiu para a erecção de tão sugestivo sepulcro – e, mau grado a dor sentida, a preciosa homenagem estava feita! Para sempre! De tal modo que, hoje, mais de dois mil anos passados, ainda nos enternece!
            Nada mais sabemos. Nem sequer temos registo de quando nem onde a pedra foi encontrada. Deparámo-nos com ela no Museu, nos primórdios da década de 80, ainda nem número de inventário tinha! Na cidade ou nos arredores se terá achado. Alicia-nos pensar que falará de gente vinda do Norte de África, origem que uma investigadora já sugeriu para o nome Boco. Alicia-nos pensar que Euhodo possa ter sido o oleiro da oficina de Gneu Ateio, de que se encontrou uma marca na vizinha villa romana das Represas … Mas… nada mais sabemos!

                                                                       José d’Encarnação

            Publicado em Diário do Alentejo [Beja] nº 2092, 27-05-2022, p. 13.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Sabão azul e branco

           Decerto como eu muita gente terá achado piada ao facto de, logo no início da pandemia, prontamente se ter dado a sugestão de lavar as mãos com sabão azul e branco. Uma velharia, éramos capazes de pensar, a que ora de novo se queria recorrer, por se haver reconhecido o seu valor.
            Tínhamos, de facto, em casa sabão azul e branco. Aliás, julgo que foi produto que por aqui nunca faltou. De resto, a minha convivência com ele vem desde criança. Nas décadas de 40 a 60, trabalhavam nas pedreiras de Cascais homens solteiros vindos das Beiras, do Alentejo e do Algarve. Minha mãe, que sempre conheci a trabalhar em lides complementares das domésticas, era uma das mulheres a quem eles pagavam para lhes tratar da roupa. E era com sabão azul e branco que a Maria dos Santos esfregava as calças de ganga, as camisas de flanela, as camisetas de algodão, os peúgos de linha…
A parafernália dos produtos de limpeza...
             
            Tive há dias uma rotura na canalização da cozinha. Foi necessário retirar tudo quanto se guardava sob o guarda-loiça e pasmei! Cerca de cinquenta embalagem de lá saíram! De lixívias várias, amaciadores para a roupa de cor e para a roupa branca, detergentes com as mais diversas finalidades… 46 embalagens contei eu! E lembrei-me das virtudes do sabão azul e branco, que ele, sozinho, amaciava e erradicava fortes sujidades da roupa branca e da roupa de cor, manuseado a preceito pelas mãos de minha mãe.
            As ideias foram-se atropelando, vertiginosas, enquanto preparava o telemóvel para fotografar todo aquele arsenal de limpeza, de cuja existência só agora, vendo-o assim reunido à luz do dia, eu tomava plena consciência. Ai, o meu rico sabão azul e branco! E a todas se sobrepunham as do lixo que o Miguel Lacerda e o seu esquadrão da Associação Ambiental CASCAISEA amiúde mostram, depois de mais uma campanha de limpeza na costa. E aqueloutra, também frequentemente chamada à colação, em que as embalagens de plástico são já como uma ilha no meio do oceano…
Vogando, suave, no mar de Cascais...
 
... enquanto mão caridosa a não liberta do mar!...
            Vivemos melhor. «Pronto a usar», «desinfectante de tecidos» «desinfectante mãos», «desinfectante superfícies», «eficaz contra bactérias e fungos»… Uma infinidade! Diante das prateleiras do supermercado, perdemos minutos a ler, a observar… «Será melhor este ou aquele?», «Deixa-me ler», «Quanto  custa?», «Ah este é para as lãs e o algodão»… Sim, descobriram mil formas de nos facilitar a vida. Facilitarão?
Ah! meu abençoado sabão azul e branco!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 22-05-2022: https://duaslinhas.pt/2022/05/sabao-azul-e-branco/

Viajar de comboio!

O abandono   
    Custa-me passar ali e ter de atravessar carris quase enterrados. É à entrada de Montoito, uma aldeia do concelho do Redondo, distrito de Évora. Era uma linha férrea que morreu, porque, um dia, uns senhores de Lisboa acharam que não merecia a pena manter essa ligação ferroviária para servir umas quantas aldeias dispersas pelo interior do País.
            Custa-me ir de Coimbra à Lousã, circuito até há uns anos servido por linha-férrea (o «ramal da Lousã») que, a mando dos senhores de Lisboa, rapidamente se levantou, sem que houvesse alternativa do transporte para tantas localidades dos arredores da cidade.
            Custa-me ir pela autoestrada do Sul e passar por cima da linha que ligava Beja ao Algarve e que também foi desactivada.
            Hoje, os governos «torcem a orelha e não deita sangue» – como se diz em gíria , porque, asneira feita, não sabem como a hão-de emendar. Ou melhor, já viram que têm de voltar ao tempo antigo, pois, se outrora o comboio era o meio de transporte mais barato, agora, com todas as restrições energéticas, ainda o será mais!
 
2.      Evocações
            Como moro em Cascais, sempre me habituei a ir de comboio para Lisboa. De resto, esta linha – que já chegou a ser terminal do Sud-Express! – reúne as condições ideais e muitos guias turísticos a recomendam. Sou, porém, natural do Algarve e desde pequeno que ouvia falar do «comboio-correio», a carvão. Era o comboio mais usado de Lisboa para lá. Viajava-se a noite toda, para, no dia seguinte, o correio chegar às estações.
            A palavra «estações» lembra-me a necessidade de explicar que, neste caso, não se tratava das estações de caminho-de-ferro (as gares…), mas das estações de correio. As estações requeriam, pela sua importância, que todos os comboios lá parassem, ao contrário dos apeadeiros, simples plataformas onde só paravam os comboios que assim possibilitavam a ligação entre aldeias. Hoje, com o desprezo a que se vem votando o comboio, até há estações que mais parecem apeadeiros, pois não têm bilheteira, não têm telefone, não têm pessoal, não têm café, não dispõem de serviço de táxis…
            Falei do Algarve. É lá possível que se não privilegie a ligação ferroviária (ainda em via única e não electrificada!) paralela à costa, para servir as praias algarvias? É lá possível que uma cidade da importância de Silves – ela que já chegou, em tempos idos, a ser a sede episcopal algarvia! – não ter serviço de ligação ao centro urbano, uma vez que a estação fica a distância considerável?
            E, a propósito de estações e dos comboios e suas categorias conforme a velocidade para que foram pensados – na actualidade, há o alfa, o intercidades, o regional, o urbano, o comboio de mercadorias (qual recoveiro)… –, há a história que compara a vida do Homem a um comboio. Pelos vinte anos, é um comboio urbano: pára em todas as estações; dos 30 aos 40, é regional, pára nos aglomerados mais movimentados; dos 40 aos 50, é intercidades, porque só pára nas estações principais; dos 60 aos 70/75, é alfa, está cheio de pressa e só pára uma ou duas vezes no percurso; dos 75 em diante, não circula, vai para o estaleiro!...
 
3.      De Lisboa para Coimbra
            De Lisboa para Coimbra, onde trabalhei a partir de 1976, sempre privilegiei o comboio. Não havia já a 3ª classe, de bancos de madeira, que ainda apanhei na linha de Cascais, e de bilhetes bem acessíveis; mas eu só muito tarde comecei a ter posses para viajar em 1ª e no foguete, nome por que era conhecido o antecessor do alfa. Viajava em 2ª, em compartimentos de 8 passageiros. Ouvia, por isso, habitualmente, as conversas mesmo entre pessoas que acabavam de travar conhecimento e a quem uma viagem sem conversa, sem possibilidade de contar de vidas e de doenças não tinha graça nenhuma! Tinha dificuldade, eu, em entabular conversação. Preferia preparar as aulas, ler um livro, escrever o rascunho dum artigo; nem sempre, todavia, me escapava e lá tinha de ouvir e de trocar impressões.
Sempre me agradou muito essa viagem, pelo tempo de que dispunha – primeiro, mais de três horas, agora duas horinhas bem rápidas – para me encontrar comigo mesmo, para observar os outros, para me deliciar com a paisagem. Um dos meus recentes livros de crónicas tem mesmo um título baseado na observação da lezíria ribatejana assim ao romper da manhã, quando o Sol acabara de nascer: sob as árvores, um manto branco, a geada que só mais tarde o astro-rei lograria derreter – e daí o título Geada na Sombra!
 
4.      Os ferroviários
            Uma das estações – essa de paragem obrigatória – o Entroncamento. Nasceu logo na 1ª metade do século XX, quando aí se fez o entroncamento da linha que daí seguia para a cidade da Guarda (a Linha da Beira Baixa) com a Linha do Norte, que liga Lisboa ao Porto. A maior parte da sua população original está, pois, ligada aos mais variados ofícios que o comboio alimenta, os ferroviários, desde funcionários da companhia (hoje chamada CP - Comboios de Portugal) até ao mais modesto dos operários: maquinistas, revisores, fiscais, agulheiros...
             Por falar em operários, importa não esquecer que é inglesa a invenção do comboio; por isso, os comboios circulam pela esquerda, à moda inglesa, e o nome deriva de ‘convoy’, que também designa a força armada que protege, por terra ou por mar, pessoas ou mercadorias.
E porque é que eu relacionei operários com ingleses? Porque me apareceu, há anos, a palavra ‘chulipas’ para identificar as travessas de madeira de pinheiro (agora são de cimento) que uniam os carris. Palavra estranha, essa, se não a relacionarmos com a sua função de sobre elas, as chulipas, repousarem (dormirem…) os carris. Eram os… sleepers (de sleep, sono, dormir)! Os dormentes!
            E carris faz-me lembrar «bitola», que é a distância entre um carril e outro. Usa-se em Portugal e em Espanha a bitola ibérica, de 1668 milímetros de espaçamento, como ficou convencionado a partir de 1955, diferente da europeia, a bitola-padrão, que é de 1435 milímetros. Diz-se que era também uma forma de os dois países estarem mais alheios a possíveis invasões europeias; na verdade, ir, por exemplo, de Lisboa a Paris no Sud-Express implicava, até não há muito tempo, fazer com que as carruagens-cama tivessem, de mudar de bitola, em Hendaya...
 
5.      As estações floridas
            Não quero terminar sem uma palavra ao período áureo – a meu ver – do caminho-de-ferro em Portugal, aí pelas décadas de 40/50 do século passado.
O tempo dos concursos das estações floridas, instituídos em 1941 pelos servilços de turismo e propaganda do Estado Novo, com o objetivo de «estimular o bom gosto na ornamentação floral das estações dos nossos caminhos de ferro e revelar aos turistas estrangeiros um aspeto bem caraterístico do nosso temperamento artístico e do nosso proverbial bom gosto»!
O tempo em que se primou pelo embelezamento das fachadas com magníficos azulejos, que despertam ainda hoje a admiração de quantos não andam com pressa e podem deter-se momentos diante deles. A estação de S. Bento, no Porto, vem em todos os guias turísticos. E não poucos mostrarão também os azulejos da estação do Pinhão, na Linha do Douro.
Ah! a Linha do Douro, ao longo do rio, na soberba contemplação dos vinhedos em socalco, verdes no Verão, de um quente castanho-amarelado no Outono!... Ah! A Linha da Beira Baixa, também ela ao longo do curso doutro grande rio, o Tejo, a permitir o suave deslumbre da lezíria ribatejana e a passar lá mais adiante, pela altaneira imponência das Portas de Ródão, ninho de grifos, águias e cegonhas!... Paisagens que só da janela do comboio se podem longamente apreciar!

                                                           José d’Encarnação

Ponte ferroviária no Douro

Locomotiva na Linha do Douro

Pormenor da estação do Pinhão


Comboio na Linha do Douro

Chegada de comboio à estação do Pinhão

Azulejos na estação de S. Bento (Porto)

 

Texto bilingue (em português e alemão) publicado em Portugal-Post (Correio Luso-Hanseático) [Hamburgo], 71, 05/2022, p. 34-43.

sábado, 21 de maio de 2022

Chiça, penico!...

 Abri a janela para saudar a manhã e agradecer a Deus mais um dia que me seria dado viver. Entrou um ventinho cortante e o chorrilho de impropérios saiu-me de supetão:
– Tá um frio desgraçado! Chiça, penico, chapéu de coco, abrenúncio!
Na casa-de-banho interiorizei o que instintivamente acabara de dizer: com que jêtes, môce?
            Afinal, eu digo isso muitas vezes, em circunstâncias análogas e só agora consciencializei ser também essa uma herança de meus antepassados. A meu pai ouvira eu esse desabafo, sem que bem me desse conta das palavras ali usadas.
            «Chiça» fui ver ao Dicionário da Academia: «Exclamação que exprime dor ou protesto» e que talvez derive da palavra alemã ««Scheisse», que significa ‘porcaria’. Está bem. E nem é calão, só palavra do léxico popular. Consolei-me.
            Agora, essa junção com o penico e o chapéu de coco é que não quadra bem, na aparência. Se chiça é ‘porcaria’, o penico não vai mal ali; o chapéu de coco, porém, leva-nos para altas cavalarias, senhores vestidos de fraque… Não dá a bota com a perdigota. A não ser que – popular malvadez!... – se queira de imediato atirar para a burguesia as culpas de todos os males, esse incluído! Vem depois o abrenúncio, e esse é mais lógico: frio assim desgraçado só obra do mafarrico!...
            E será que o senhor google, se eu puser a frase toda, me dá alguma dica? Pus. E deu resultado: não sou o único a perorar sobre esse tema!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 306, 20-05-2022, p. 13.

 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Cantar de galo

           – Ó Maria, despacha-te! Que andas tu praí a besoirar?
            E o Joaquim voltou-se para a vizinha:
            – É sempre assim: quando temos pressa, põe-se a encanar a perna a uma arrã e depois ainda é capaz de cantar de galo, porque eu me esquecera disto ou daquilo.
            Conversas de antigamente que nem o Partido dos Animais e da Natureza sabe fazer ressuscitar. Do tempo em que mui saudavelmente se convivia com a Natureza e se tinha criação!… Até essa frase «ter criação» não é entendida agora à primeira. Que é lá isso de ter uma capoeira ao pé ou uma coelheira? Chegava-nos a casa uns primos sem aviso prévio? Sem problema: vai-se à coelheira, mata-se um coelhinho e está o almoço feito!
        Cantar de galo. Ele acabara de galar pomposamente duas das galinhas mais airosas da capoeira. Sentiu-se feliz, abriu as asas e… cantou, qual rei! Vangloriou-se.
            Besoirar. É um bichão de cores vivas, anuncia-se com um zumbido forte, bate as asas em frenesim. Mal poisa numa flor, ei-lo que salta para outra. E depois para outra. Será que conseguiu algum pólen de jeito ou foi só para se armar e marcar território?
            Encanar a perna a uma arrã. Tarefa que não vale a pena. O melhor mesmo é, se for gordinha, perder o amor à Natureza e prepará-la para o petisco. Coxinhas de rã? – Apreciam-se! ¿Quem poderia ter a veleidade e, sobretudo, a paciência de, um dia, tentar concertar com palas ou caninhas finas a perna duma arrã? Operação longa, longa de mais – e de nulo efeito, decerto.
            O besoirar, esse, é mais do nosso quotidiano, mormente o dos anciãos: pegas agora numa coisa, lembras-te doutra e não acabas a primeira; de seguida, olhas para uma terceira e dás-lhe seguimento… No fim da jornada, ainda a primeira se não acabou… Um dia de… besoiro!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 822, 15-05-2022, p. 12.