sexta-feira, 29 de março de 2019

E o Brasil aqui tão perto!...

            Quando chamo um técnico para resolver um problema com a televisão ou a ligação à Internet, bate-me à porta, normalmente, um brasileiro; tive duas funcionárias vindas do Brasil. Para eles, a pergunta é sempre a mesma da minha parte:
            – Donde é?
            – Do Brasil.
            – Isso eu sei, pela pronúncia; mas donde?
            Lá me especificam se de Vitória do Espírito Santo, de Minas, de Curitiba… E acaba-se sempre por trocar impressões sobre o que visitei, o quanto me seduzem a paisagem e as gentes.
            A 17 de Fevereiro, no programa «Vozes da Lusofonia» da Antena 1, a cantora negra brasileira Bia Ferreira descreveu as suas impressões, ao desembarcar agora, pela primeira vez em Portugal:
            – Eu estou noutro país e percebo tudo o que leio!... Maravilha!
            Decerto, essa a impressão também do português que chega ao Brasil, nesta altura já mais familiarizado com as diferenças de terminologia, porque quotidianamente as ouve.
            Da primeira ida ao Brasil, em 1989, recorto dois aspectos:
            – Ao jantar, sobrou bastante comida; e logo o dono do restaurante se apressou a propor-nos que levássemos o resto numa «quentinha». Hoje, é prática corrente em muitos restaurantes, designadamente aqueles onde costumamos ir; nessa altura, era novidade.
            – Ficámos alojados num apartamento da Siqueira Campos, uma das perpendiculares à Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio. Depressa nos integrámos na vizinhança, de mútuo cumprimento diário. E era um gosto passear no calçadão, gente de todas as idades, no maior dos à-vontades, em exercício ou descontraidamente, parando aqui ou além para se refrescar com uma água de coco… Como se para tudo houvesse o maior tempo…
             Numa das outras idas, o destino final foi Pelotas, no Rio Grande do Sul, junto ao Uruguai. A terra do charque, carne seca ao sol, nas fazendas chamadas, por isso, charqueadas. De uma, a Charqueada São João, agora adaptada a receber visitas, verdadeiro museu na grande casa senhorial, trouxe fotografia, como a legenda mandava.
            Rio Grande do Sul é o território das colónias: a Alemã, a Francesa… vestígios da intensa imigração no decorrer da II Grande Guerra. Povo hospitaleiro ali, é mescla das mais diferentes nacionalidades, algo de que já me apercebera ao verificar a origem dos mais variados apelidos que os brasileiros mantêm. Pelotas, a capital, será a mais portuguesa das cidades brasileiras, pelas suas tradições lusas, nomeadamente a doçaria, que é a nossa! Afinal, também Portugal ali tão perto!
            Gente brava, habituada a tratar do gado, os gaúchos, mas de uma docilidade extrema no trato. A indispensável cuia do chá-mate ou do chimarrão passa de um para o outro, sem cerimónias...
            Uma multiculturalidade que não despreza, porém, as mais antigas raízes. Numa das noites do congresso sobre precisamente a Antiguidade Oriental e a Antiguidade Clássica, o jantar foi de acepipes à maneira do Médio Oriente, com o tradicional lava-mãos de água perfumada antes de ir para a mesa.

                                              
                                                           José d’Encarnação
Publicado em P&V – Órgão do Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente, Escola Calazans Duarte, Março de 2019, p. 26.

Uma padaria na 'villa' romana de Freiria!

            Uma das áreas de mais difícil interpretação da villa romana de Freiria (S. Domingos de Rana Cascais) foi o que denominámos «as grandes termas do Sul», por serem de ‘termas’ as estruturas mais visíveis e e mais bem reconhecíveis.
             Verificara-se, contudo, desde o primeiro momento dos trabalhos, que o local sofrera as mais diversas modificações ao longo dos tempos, mesmo durante a época romana.
            Havia, por outro lado, aquela lenda de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda, que dissera à pastorinha com fome: «Vai às terras de Freiria e lá encontrarás uma padeira. Pede-lhe pão!». Teriam sido, imagina-se, mais ou menos estes os termos usados pela Senhora. E a pastorinha foi e, como se adivinha, o milagre da multiplicação dos pães aconteceu: quanto mais pães lhe dava, mais pães surgiam na fornada!...
            Havia as modificações nas estruturas arqueológicas, havia a lenda… Será que se encontrariam vestígios de um forno de cozer pão?
            Encontraram-se.
       
          E, juntamente com uma nossa colega, a Doutora Macarena Bustamante-Álvarez, da Universidade de Granada, o Doutor Guilherme Cardoso deu agora a conhecer os pormenores, que poderão ler-se – certamente com agrado – acedendo ao artigo «Un pistrinum en el ager de Olissipo. El complejo artesanal del asentamiento rural de Freiria (Cascais, Portugal)», publicado no nº 28.1, de 2019, p. 157-172, de SPALRevista de Prehistoria y Arqueología de la Universidad de Sevilla, mediante o atalho que lhe dá acesso: http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.07 .

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 25-03-2019:
http://www.cyberjornal.net/cultura/cultura/historia-e-patrimonio/uma-padaria-na-villa-romana-de-freiria

sábado, 23 de março de 2019

Escola Primária dos Vilarinhos

              Maria Helena Rodrigues teve a gentileza de me enviar mais um documento daqueles que, perdidos numa gaveta, se revestem, afinal, caso se não deitem fora, de grande significado, mormente para a história local.
            Desta feita, a cópia a papel químico, como então era de uso, do programa previsto para o domingo 11 de Agosto de 2002. Uma comissão, constituída pela Zéa, pela Sanchinha, pelo Armando Romão, pelo Joaquim Gomes e pelo Luís Gonçalves de Brito, decidiu promover um almoço de confraternização entre os alunos da década de 40 da antiga Escola Primária dos Vilarinhos.
            Para além da reprodução da fotografia do edifício da escola, houveram por bem pôr os retratos das professoras: Juliana Rosa Soares, nascida a 10-07-1899 e falecida a 29-06-1984, e Adelina da Conceição Carvalho Lourenço (1902 – 1949).
            Houve missa de acção de graças na igreja de S. Romão e depositaram-se flores nas campas das professoras e dos alunos.
            Não transcrevo a ementa do Restaurante Zé Dias, para não aguçar o apetite (pois essas iguarias ainda hoje lá se servem, está bem de ver!...), mas gostaria de sublinhar uma frase que é bem nossa e que, no meio das palavras e das frases correntes emprestam um toque de intimidade que certamente não terá faltado nesse reencontro de seniores: o bacalhau com natas foi acompanhado com… saladinha de alface! Um mimo esse diminutivo!
            E outro pormenor me chamou a atenção: o preço vinha em euros e em escudos! Porventura essa conversão poderá ter assustado alguns: 3 contos!!! Eu vou dar 3 contos por um almoço!? Não, amigo, foram só… 15 euros!
            Não esgoto hoje o assunto, não! É que, no verso da folha, estão surpresas de que na próxima crónica é obrigatório fazer-me eco!
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 268, 20-03-2019, p. 13.



sexta-feira, 22 de março de 2019

Catarina Ribeiro Pires - Uma cascalense pelo mundo!

Uma conversa telefónica
            De vez em quando, há uma surpresa! Não que seja o acaso a no-la proporcionar, mas porque a oportunidade surge e nós nos decidimos a agarrá-la!
            Vidas há por toda a parte que merecem ser contadas, nomeadamente aquelas em que o espírito positivo e a vontade de ultrapassar barreiras à primeira vista intransponíveis podem constituir exemplo, numa altura em que – demasiadas vezes! – nos contam também histórias de quem espera pachorrentamente que o maná lhe caia do céu, que os currículos enviados em série sem sequer se ter uma ideia exacta do sítio para onde se mandam, porque o que interessa mesmo é mandar!... «Estou farto de mandar currículos para todo o lado e… nada!».
            A surpresa para mim veio da conversa com uma amiga cascalense, que, também ela, muito tem logrado ultrapassar. Perguntei-lhe pela descendência, como é conversa habitual para os que já se encontram na curva descendente. E disse-me da Catarina, sua filha, nascida em Lisboa, mas cascalense desde sempre, uma… aventureira!
            – Aventureira?
            – Sim, imagina!
            Em traços largos me contou. E eu decidi não deixar escapar a oportunidade e meti conversa com a Catarina, que dá agora pelo nome de Cata ou Cat e, para os colegas de trabalho, «Cat on set»!
            Vamos lá, Cat. Conta-me então como foi.

«Eu queria ser médica!»
            – Pois eu o que queria era ser médica, porque ajudar os outros sempre me fascinou. Quando tinha 10 anos, comecei a jogar ténis. Começou como um hobby, mas rapidamente se tornou na minha vida. Durante 6 anos, joguei ténis de alta competição. Sempre fui boa aluna, mas o ténis era o que eu gostava de fazer. Passava todo o meu tempo nos courts; mesmo assim, consegui uma média altíssima, o que me permitiria entrar em Medicina; mas, na verdade, esse meu sonho de pequena estava a perder forma… Aos 16 anos, quando somos “obrigados” a escolher uma área, eu sabia que seria Saúde; mas, se não era Medicina, o que poderia ser? Fisioterapia foi a escolhida. Durante o meu percurso como atleta, passara muitas horas nos gabinetes de Fisioterapia por motivo de lesão; era um ambiente a que estava habituada e, assim, poderia ligar a Saúde ao Desporto. Formei-me, pois, em Fisioterapia, no ano de 2004, na Universidade Atlântica.

O salto para… um mundo estonteante!
            Sentiste-te bem nessa área, satisfazias os teus dois objectivos: o ténis e a ajuda aos outros, onde, imagino eu, não apenas tratavas da parte física, mas também ensinavas que, para amparar o físico, o espírito, o dinamismo, o não esmorecer constituem uma terapêutica imprescindível. Estavas nas tuas sete quintas, como se costuma dizer…
            – Sim, poderia estar, se eu não estivesse sempre a magicar novidades. E, de facto, passados alguns anos a trabalhar na área da Fisioterapia, decidi experimentar uma coisa completamente diferente: a Publicidade!
            Publicidade?
            – Sim, tem tudo a ver com a vontade de ir mais além, de promover…
            E a oportunidade caiu do céu ou foste tu à procura dela?
            – Ora aí é que começa a correria! Houve, outro dia, a maratona de Lisboa, não foi? Pois eu creio que, a partir do momento em que peguei no telefone, a corrida teve início, assim com um tiro de pistola, sabe como é!... Encantava-me o trabalho de produção. Imaginava a adrenalina de estar num set, o ‘fazer acontecer’, o stress sadio de noites sem dormir, a gravar…
            Espera aí: essa ideia surgiu-te assim do nada?
            – Propriamente não: eu já ensaiara algumas experiências a brincar, conhecia algumas pessoas dentro dessa área da publicidade, isso bailava-me na mente e apetecia-me tentar uma reviravolta de 360 graus.
            Pegaste então no telefone e…
            – Larguei tudo, fiquei mesmo sem trabalho e liguei para a Elisa de Paula: «Elisa, preciso que me dês uma oportunidade! Põe-me dentro de uma produção, arranja-me qualquer coisa. Não preciso que me pagues, não quero cachet, quero é aprender, quero dar tudo o que tenho cá dentro. Se gostarem, de mim, perfeito! Se não gostarem, agradeço-te o voto de confiança!».
            E a Elisa proporcionou-te a oportunidade…
            – Proporcionou. Estive dois dias integrada numa equipa, com pessoas que não conhecia, num ambiente de loucos, sempre com o nervosismo à flor da pele, mas com a certeza de que era mesmo aquilo que eu queria fazer nos próximos anos de vida.
            Uma primeira experiência bem positiva, portanto!
            – Sim, correu tudo bem e, desde esse dia, nunca mais parou! Já trabalhei durante muito tempo como assistente de produção (freelancer) nas melhores produtoras nacionais e com os melhores profissionais dentro da área, sempre (é curioso!) com o sentimento que saltava de produção em produção: o de «estar em casa!».
            Corrias, porém, o risco de essa situação se manter, sem possibilidade de ires mais além!
            – Um risco calculado, claro. O certo é que ganhei a confiança de alguns chefes de produção, que me começaram a dar ainda mais responsabilidades e a chamar-me para desempenhar cargos com maior visibilidade.
            E o bichinho continuou a morder…
Em Venice (Los Angeles),
com um dos murais de Vhils como fundo
            – Pudera! O bichinho pela área começava a crescer cada vez mais! Um dia, ao voltar de uma viagem aos Açores, estava eu ainda no aeroporto, toca o telemóvel: era o convite de uma produtora com quem eu nunca tinha trabalhado! Uma pergunta simples: ¿estás disponível para começar amanhã uma produção para uns americanos que vão estar em Portugal a filmar durante uns dias? Pensei em dizer que não, uma vez que estava a retornar do que me parecera o paraíso e já havia outra produção em vista…
            Mas, aventureira como és, claro que aceitaste!
            – No dia seguinte, pelas 8 horas da manhã, lá estava Cat on set! A equipa era muito grande, portugueses e americanos, numa produção um pouco diferente das que eu já houvera visto e trabalhado. Situação diferente e um «Ainda bem que aceitei!» sempre presente!

80 águas de coco frescas… já!
            Uma vida também sempre diferente, Catarina, e, decerto, com muitas peripécias e casos a resolver urgentemente e à última hora.
            – Eu conto. Um dia, ao filmarem no Elevador da Bica, em Lisboa, a produtora americana, que começara a fazer os pedidos mais estranhos, quis 80 águas de coco frescas! Dizer que, em pleno mês de Julho, com um calor intenso em Lisboa, à volta de 40 graus naquele Verão, é difícil satisfazer um pedido tão específico… é pouco! Não tinha tempo para pensar muito e, portanto, desatei a correr, só com um «como?» e um «onde?» na cabeça. Nisto – a sorte protege os audazes! – dou com uma loja que tinha expositor de sapatos orgânicos e outras tantas coisas vegan, biológicas. «Por acaso, não tem águas de coco?... 80?... Frescas?...». «Por acaso, tenho e estão frescas!». Assim contado, até parece simples estar no sítio certo à hora certa, parece fácil, mas deixa um rastilho de trabalho para trás! 80 águas frescas em dois sacos que achava que iam rebentar a qualquer segundo, e a uma velocidade-torpedo para voltar ao local de filmagens e entregar as ditas à produtora, Emilie Muller, a americana a quem chamavam de boss. Ela, muito curiosa, a olhar atentamente para os sacos, abre de seguida uma lata e solta um «Like it!».
            Um alívio, claro!
            – Pudera! Não imaginava que alguma vez pudesse vir a ser testada pela qualidade da água! Mas este «like it!» soube-me mesmo bem! Acontece, porém, que nem tempo tive para conseguir recuperar o fôlego da ‘maratona-águas-de-coco’! É que novo pedido exótico surgiu, debaixo de uma Lisboa merecedora de uma sombra: 50 barras de chocolate, com 90% de cacau, de sabores vários, à excepção de morango e baunilha!
            Mais uma prova de força e nova ida à loja milagrosa, não?
            – Exacto, porque eu já sabia que também tinha barras de chocolate. Dei comigo a pedir a todos os santinhos para que fossem de 90% cacau e... «jackpot!»: o senhor tinha tudo! Para mim, foi o herói do dia!!!!

E tem sido um correr mundo!…
            Tudo se facilitou depois, como é natural.
            – A partir desse dia, a produtora americana, a «boss» Emilie Muller, fez questão em que a presença de ‘Kate’ fosse mais assídua on set e o resultado dos dez dias de filmagens não me poderia ter surpreendido mais. Assim, comemorava-se num hotel o final das filmagens, quando, a dado momento, me chamaram para uma reunião, numa sala ao lado. As duas produtoras executivas americanas. «Tens o teu passaporte em dia? Gostávamos que continuasses a trabalhar connosco, mas terias que ir para Marrocos amanhã!
            – E foste.
            – Fui. Sem pensar muito e sem palavras que possam descrever o momento em que sentes a tua vida a mudar, com todas as células do corpo. No dia a seguir e no avião rumo a Marraqueche, era como se eu tivesse tirado o passaporte para o resto da aventura. Seguiram-se Los Angeles, Nova Iorque, Nova Orleães, Carolina do Norte, Madrid, Barcelona, Macau, Singapura, Tailândia, Hong Kong…
            – E agora, que é feito de Catarina Ribeiro Pires, nascida oficialmente em Lisboa, mas nada e criada em Cascais?
            – Cat ou, como lhe chamam quando está lá fora, Cat on set, prepara uma produção que passará novamente pela Ásia, mas, desta vez, Bali e Tóquio são as cidades escolhidas, e prevê que a sua estada em Nova Iorque se prolongue por mais algum tempo. Neste momento, faz direcção de produção na cidade «que nunca dorme» e o seu sonho…
            – Sim, continuas a sonhar?
            – O meu sonho é voltar a Portugal, estar à frente de uma produtora internacional e conseguir aplicar as minhas convicções ambientais e sociais em todos os meus trabalhos. Acredito que podemos mudar o mundo e devemos fazê-lo em todas as valências da nossa vida.

                       Entrevista conduzida por José d’Encarnação

Publicada em Cyberjornal, edição de 22 de Março de 2019:
Entrevista para o documentário de uma amiga
Um instantâneo de Brooklyn (Williamsburg), onde tem residência

quarta-feira, 20 de março de 2019

Nem sempre a ganância é rainha!

             Claro, o pobre desconfia sempre quando a esmola é grande. Mas regozija-se enquanto a esmola existir!
            Assim, os utentes do Centro de Distribuição Postal de Cascais (Pampilheira) e da respectiva loja dos CTT, do Hospital CUF Cascais, do Centro de Inspecções Automóveis, das várias oficinas mecânicas e de um centro de artes marciais por a Mobi Cascais ter transformado um terreno abandonado, na Rua Fernão Lopes, em mui agradável parque de estacionamento de acesso livre. Congratulamo-nos! E nunca será de mais congratularmo-nos!
O novo parque de estacionamento, na Rua Fernão Lopes (Pampilheira - Cascais)
            Há na mesma rua – mas sem acesso por ela – um outro parque, dito «informal», poeirento, que incomoda grandemente os vizinhos, e tem-se a secreta esperança, primeiro, que venha a fazer-se o acesso pela Rua Fernão Lopes e, segundo, que o piso se torne menos… poeirento.
            E… a ganância, amigo, não queria falar de ganância?
            É verdade, ia-me esquecendo! Queria só ficar com as coisas boas…
            Essa diz respeito a uma atitude completamente oposta: na Estrada do Guincho (a Nacional 247, que, ao que parece, terá passado para a dependência da Câmara), junto a uma assaz apreciada zona de lazer, aonde os munícipes vão para tomar um café, para almoçar ou, simplesmente, para, numa leitura, sorverem a longos haustos os bons ares do mar ou, até, para fazerem umas compritas nas agradáveis lojas que lá há – estou a falar, entende-se, da Costa da Guia, sobre a falésia… – decidiu a empresa municipal Mobi Cascais, decerto com a complacência de todas as forças políticas (não dei conta, mas posso estar distraído, de que alguma tenha protestado…), decidiu pôr… parquímetros!
            Não lembrava ao Diabo, que tem ali bem perto a sua Boca do Inferno e o restaurante que antigamente dava pelo nome de Casa do Diabo, nem aos mortos que repousam um pouco mais acima no cemitério, não lhes lembraria plantar ali parquímetros. Pois à empresa municipal, pobrezinha como está, alembrou angariar ali umas moedinhas…
            Claro: a intenção é óptima! Está ao lado a tenda de aluguer das bicas. É de aproveitar! Mais saudável em todos os aspectos, pois então! Vai uma pedalada?

                                                                                  José d’Encarnação
Publicado em Cyberjornal, edição de 20-03-2019:

A Penélope dos nossos dias

              É por de mais conhecida a história de Penélope. Demorava seu marido, Ulisses, ido para a guerra de Tróia, e antojou-se à família que o melhor era Penélope voltar a casar. Fiel ao marido que amava, Penélope, assediada por muitos pretendentes, acabou por aceitar a insistente proposta, mas impôs uma condição: precisava de acabar primeiro o manto com que seu pai se haveria de amortalhar. Acedeu o pai e Penélope desmanchava de noite o que de dia ia tecendo, de forma que dificilmente se encarava o dia em que ela estaria disponível para novos esponsais…
            Sabe-se quanto essas histórias antigas – esta narrada na Odisseia, um dos poemas maiores da Humanidade, atribuído a Homero – acabam por ter sempre um conteúdo eterno e uma actualidade flagrante. E, assim, atendendo ao testemunho dado por esta insigne personagem, que fazia de dia e desfazia de noite, também não há motivo para as interrogações que, em termos de obras públicas, amiúde o vulgar cidadão que nada percebe desses tratos se põe:
            – Então, inda há pouco alcatroaram a estrada e só agora é que se lembram que ali tinham de fazer também passar a rede eléctrica subterrânea?
            Rede eléctrica posta, alcatrão reposto, é bem possível que, de novo, a estrada se esventre, porque faltava a tubagem para o gás canalizado!... E sorte haverá se, por não darem atenção a eventuais plantas de localização, uma picaretada não rebente com o cano da água e venha daí farto repuxo!... «Vossemecê bem me disse que por i passava um cano, mas não falou das horas a que ele passava!...».
            Também eu me interrogava, até que me explicaram que era assim mesmo: no orçamento da empreitada estava sempre incluída a destruição do feito e a reposição subsequente. Não havia nada a fazer! A partir daí, não mais me ralei com esses casos e meti a viola no saco.
            Hoje, porém, que o leitor me desculpe, tirei-a. ¿Então não é que andaram uns operários, ao vento e até à chuva, durante semanas, a pôr todo direitinho o lancil no novo troço da 2ª circular entre a Adelino Amaro da Costa, em Cascais, e a Rua de Santana, e, agora, um senhor, sempre cheio de dores nas costas (pudera!), de disco eléctrico nas mãos, deu em separar o lancil em toda a sua extensão, pedra a pedra, decerto porque os pobrezinhos dos seus predecessores não acertaram no nível e fizeram asneira?
Lancis em baixo, lancis em cima...
            Ai, Penélope, Penélope, se hoje viveras, verias como a tua malha nada era em comparação com as malhas que ora este mui ilustre Império tece!...
                       
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal (Cascais), nº 273, 2019-03-20, p. 6.

sábado, 16 de março de 2019

Patrimoniices cascalenses 28


                                                       A padaria da Barraca de Pau
 
 
          Sim, acertaram a Fernandinha Borges e a Vera Araújo Soares, não fosse a Vera nada e criada nesse Bairro da Pampilheira, cujo núcleo inicial deu precisamente pelo nome de Barraca de Pau, em torno do estabelecimento do pai do «Manel da Barraca» (taberna e mercearia), aonde se ajuntaram, de modo especial, os que, vindos do Algarve, foram trabalhar para as pedreiras próximas. A chaminé que se mostrava era a da antiga padaria desse lugar, que felizmente ainda se mantém, embora tenham acabado por completo as suas funções. E ainda bem que essa memória se conserva!
          Justificou-se assim, com essa imigração, o aparecimento da padaria e ali se abasteciam as populações dos lugares circunvizinhos, no segundo quartel do século XX, quando havia uma padaria aqui, outra acolá (no centro de Cascais, era célebre a padaria do Paulino, por exemplo, ao cimo da actual Afonso Sanches). Havia pão na Malveira e, por estas bandas saloias – Cobre, Birre, Torre, Areia… –, era à Barraca de Pau que se ia ou lá se abasteciam os padeiros que nos vinham trazer o pão à porta!
          Recordar-se-á que a esse variado número de padarias sucedeu a actual União Panificadora de Cascais (Panisol), formada para evitar a concorrência e mais eficientemente se programar uma actividade comum.
                                                                                José d’Encarnação