Na
verdade, ao sentimento do Amor está sempre ligada a ideia
de Beleza, ainda que seja, como a frase deixa perceber, uma beleza com muito de
subjectivo. Imaginamos Nossa Senhora sempre bela, ainda que, n’Ela, a ideia de Beleza mude consoante os tempos e os
lugares: hoje, queremo-La aqui de cabelos loiros e olhos azuis, mas Nossa
Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, é negra e tem cabelo preto…
Por
isso, para cativar, a beleza física não é tudo ou até pode afirmar-se que
importa muito mais a beleza que se desprende do olhar, do falar, do sorrir.
«Espelho da alma» se classifica o olhar. No plano do amor, a linguagem do olhar
retrata-nos e – qual flecha de Cupido – pode atingir quem nos vê.

Um
par. Sim. Amor só não naufraga se existir a dois. E a seta não é, apenas, o objecto
a relembrar Cupido, armado de arco e flecha sempre pronto a deliciadamente
disparar. Cupido, o filho da deusa do Amor, a linda Vénus… A seta também fere,
magoa, faz sangrar…
Ao
Amor está ligada a Beleza, sim. E o sofrimento. A saudade – dor, ausência do
ente querido, vontade de o termos aqui, a nosso lado, sempre! E sofremos com a
separação!… Em romeno, a palavra
equivalente a «saudade» é… ‘dor’! Uma coincidência feliz.
Ai,
as setas marotas do Cupido bem capazes de nos ferir!...
José d’Encarnação
Publicado em P&V [Ponto & Vírgula],
boletim mensal da Escola Calasans Duarte, Marinha Grande, Fevereiro de 2019.
Adorei…
ResponderEliminarE concordo… Só acrescentaria uma coisa.
O sofrimento que o amor provoca, penso eu, não é só pela ausência, pela saudade, pela preocupação/ cuidado/ responsabilidade do bem estar do ente amado…
Para mim é também uma espécie de “dor de crescimento”, sobretudo aquando do primeiro amor (que é aquele choque de bom e de mau, aquela explosão, seja lá de que tipo de amor se trate)… Perder o controlo de si mesmo, colocar outro acima de nós mesmos, andar tão feliz que parece que não é preciso, comer, ou dormir… (exactamente aquilo que Camões descreve no seu soneto).
Andar tão perdido, que se tem noção disso. Sim, isto também provoca sofrimento, embora seja bom.
Por isso o sentido ambíguo da palavra paixão que expressa isso mesmo. Esse estado de perturbação e exaltação interior, muito nosso, durante o qual nos estamos (mesmo sem sabermos) a descobrir a nós mesmos. Altura em que se dá uma revolução interior e tudo parece mudar e trazer grande felicidade mas no desconhecido, no arame de um trapézio sem rede. Parece que já não sabemos quem somos, que já nem podemos viver como vivíamos. E como em todas as revoluções, há exageros, positivos e negativos, há perturbações, há novidades, há experiências… Tudo é excitante, tudo é bom, mas tudo implica a mesma dose de dor e desconforto e portanto sofrimento. E é fantástico, porque tudo o tudo o que vale realmente a pena exige sofrimento. Só devemos sofrer pelo que vale a pena e o amor vale a pena.
Beijinhos,
Ana Caessa