sábado, 2 de março de 2019

Não é esteira, é tapete!

             Ao pensar numa crónica sobre quais as minhas impressões sobre o Brasil, designadamente recordações das viagens que, felizmente, tive ocasião de, em serviço, lá fazer, surgiu-me a ideia de chamar a atenção para o facto de o Brasil, afinal, estar bem perto de nós.
            Na verdade, todos os dias ouvimos falar no português do Brasil, quer em entrevistas na rádio e na televisão quer mesmo no dia-a-dia, porque muitos brasileiros vieram para Portugal e hoje se ocupam nos mais diversos serviços. Não, não vou dizer (embora seja verdade!...) que trabalham em ocupações que o português, por ganhar mais no desemprego do que a trabalhar, se nega a ter. Verifica-se, porém, que – tal como o português que emigra e está disposto a fazer ‘qualquer coisa’ – também brasileiro não enjeita tarefas.
            Claro, custa-nos que um país como o Brasil, com tantos recursos não consiga um equilíbrio social e económico capaz de dar um razoável nível de vida aos seus cidadãos; mas, de facto, se olharmos à nossa volta, ao nosso Portugal… a azeitona por colher, a amêndoa que seca na árvore, os úberes campos sequiosos de enxada ou de tractor, a horta ao pé da casa que já não recebe um carinho…
            Assim se nos vai a vida: a particular, porque (os que queremos) não temos mãos a medir; a pública, porque, para esses, é sempre muito curto o tempo para trabalhar eficazmente entre cada campanha eleitoral…
            Ao referir o público, o oficial, aqueles que mandam, lembrei-me de esses terem aprovado um acordo para nos obrigarem a escrever doutra forma, justamente para nos uniformizarmos com o que se escreve no Brasil. Por sinal, dizem-me, o Brasil não assinou. Abençoados! Quem, em Portugal, pensou no Brasil, viu assim os seus burrinhos caírem todos na água; mas não se interessou e eles já se afogaram todos!
            Mentalidade tacanha, miopia institucionalizada, que nem sequer se dá ao trabalho de verificar que, no computador, ao tentarmos escolher o inglês como idioma de escrita, ele nos pergunta se é o inglês do Belize, do Caribe, das Filipinas, do Reino Unido!... 18 (dezoito!) são as opções! Do Português… duas!
Esteira algarvia, de S. Brás de Alportel, feita de tamiça.
            Quando, pela primeira vez, cheguei ao aeroporto do Rio, ao tentar saber onde iria buscar a bagagem, dei com a palavra ‘esteira’. Não se diz lá tapete, diz-se esteira. Um termo muito mais clássico, genuíno. As nossas esteiras de tamiça. Não dizem classificar um monumento, dizem ‘tombar’. Nós temos a Torre do Tombo, exactamente com esse sentido! Enriquecemo-nos, pois, nesta mui serena aculturação linguística, que só os que usufruem do poder insistem em ignorar, do alto da sua bem isolada torre de marfim. Coitados!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 749, 2019-03-01, p. 11.

2 comentários:

  1. Ana Teresa
    2 de março às 12:59

    E continuam a dizer tabelião e, em vez de irem ao notário, vão antes ao cartório. Em vez de carta de condução, carteira de motorista.

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  2. Ju, sexta-feira, 5 de Abril de 2019 20:43
    Quanto à foto da esteira, também eu convivi com quem as fazia muito bem (as esteiras, não as fotos...) e aprendi a fazer essa empreita que antes se usava apenas nas casa humildes e que, hoje, são peças de arte que qualquer pessoa importante não se importa de possuir.

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