Dei comigo a pensar, nos momentos matinais de uma operação tão comezinha e corriqueira como lavar os dentes. Nunca imaginara eu descrever os gestos inconscientemente mecânicos que ela implica e como – exactamente por serem inconscientes, sem necessidade de os acompanhar com o pensamento – podem ser momentos aproveitáveis.
O
prazer que se sente nesses gestos. Aliás, aos actos de higiene está sempre
ligada uma sensação agradável que instintivamente
nos ajuda a praticá-los. Em nós e nos animais. Sinto o prazer do Spike, o
labrador, quando o escovo; e o do Maio, gato, quando lhe passo a escova pelo
dorso que se arqueia…
Verifiquei
hoje que é tudo automático: o pegar no copo e enchê-lo de água à torneira
(amiúde me lembro da cidade do Cabo que não tem água potável – e dou graças a
Deus!); o ir buscar a escova e tirar-lhe o resguardo; o estender da pasta
(cuidado, não é preciso muita, que ‘no poupar está o ganho’); o referido
escovar segundo as regras aprendidas logo na instrução
primária, de prótese na mão esquerda à espera de escova ela também (e agradeço
por ter prótese, que minha avó materna sempre a conheci completamente
desdentada, porque no seu tempo não havia próteses ou dinheiro para elas); o
alívio do bochechar final; a possibilidade de secar lábios e mãos numa toalha
ou mesmo no toalhão de banho (privilégio este também!)...
Tudo
automático, pois. O pensamento, porém, fixara-se já, sem pressas nem inquietação, no que haveria para fazer nesse dia. E o
bloquinho lá estava, no lugar certo, com o lápis ao pé, para, entre uma
escovadela e outra, se necessário, ali apontar algo a não esquecer, o tema
possível para a próxima crónica no Renascimento ou a
pesquisa que importava ainda fazer para completar o raciocínio daquele artigo
científico que está entre mãos…
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 754, 2019-05-15, p. 11.
João Paulo Gomes
15 de maio às 16:29
Tive um Labrador que adorava que lhe escovassem os dentes. Raça danada para a brincadeira e para comer!