quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pensar, pensar, pensar...

        Imagens de esculturas a que se convencionou dar o nome de «O Pensador» estiveram na base da reflexão que já se partilhou aqui Quiçá o tema seja, porém, inesgotável.
        Em primeiro lugar, porque «O Desterrado» – escultura em mármore de Carrara, que constituiu, em Roma, no ano de 1872, a prova final do curso de Escultura de Soares dos Reis – também poderia incluir-se nesse tipo de imagens, ainda que, neste caso, porque inspirado no poema «As Tristezas do Desterro», de Alexandre Herculano, possa constituir a saudade o sentimento maior que dessa imagem promana e não uma reflexão geral sobre a vida humana.
Depois, se a escultura tradicional angolana está envolta, como vimos, em multissecular halo espiritual, a peça escultórica carece de uma explicação que se não deu, mormente devido à singularidade esquemática do seu perfil. Daí que Helena Ventura haja comentado:
        «Não me importava de ter uma peça semelhante que, atendendo a tão remota Era, é perfeita tanto na beleza do material usado (basalto, turmalina?) como no posicionamento de tronco e membros.
        E é aqui, nesta semelhança entre mais e menos antigas, próximas e distantes, que o acto de pensar parece unir os homens de todas as gerações».
        E quase foi no mesmo sentido o que, por seu turno, Helena Coelho houve por bem escrever:
       «A imagem pré-histórica do Pensador é impressionante. Poderia ser uma escultura bem representativa do século XXI. Realmente o Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».
        Importa, pois, dar conta, desde logo, que a fotografia mostra a réplica oferecida, em Abril de 2012, pelo director do Museu Nacional de História da Roménia, de Bucareste, por ocasião da visita aí realizada por elementos do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa). A peça detém no museu o nº de inventário 15 906.

          

                                            O «casal» da época neolítica

        Trata-se de uma terracota e o que se apresentou foi apenas o elemento masculino de um casal – em inglês, «The Thinker and the Sitting Woman» – pertencente à chamada «Cultura Hamangia», datada do Neolítico Final, ou seja, aproximadamente de 5000 anos antes de Cristo. Mede 11,5 centímetros de alto e 7,5 de largura.
        A descoberta ocorreu em 1956, perto da povoação romena de Cernavodă, região de Constanţa, na bacia hidrográfica do rio Danúbio.
        Oportunas, sem dúvida, também pelo que ora acaba de se explanar, as palavras de Helena Coelho: «O Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».

                                          José d'Encarnação                                                                                

Publicado em Duas Linhas, 6 de Janeiro, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/01/transformar-a-pedra-bruta/

domingo, 4 de janeiro de 2026

Aquela imensa tristura…

             Olhava para o sítio dele. Ouvia-o chorar. Também me vieram hoje lágrimas aos olhos. Lágrimas que, subtilmente, pareciam rolar paredes abaixo até lá ao fundo, de onde eu ouvia outras lágrimas a pingar.
Transformavam-se elas em sorriso, quando sentiam o pequeno balde de zinco aproximar-se, sofrer um ajustado safanão que o deixava à banda, mesmo a jeito de receber uns escassos dois litrinhos de água bem fresquinha, vinda, não há muito, das entranhas mais profundas. Endireitava-se o balde e, à força de braços, vinha até cá acima beijar o luzidio da cimalha, ela a mostrar, ufana, os sulcos que o roçar das cordas, ao longo de décadas e décadas, lhe tinham feito.
Estou eu em crer que, há muitos anos, os baldes subiam cheios. Na década de 50, já pouco de meio passavam e era preciso ir de madrugada a apanhar a água acareada durante a noite.
 O poço do Corotelo ajudou-me a crescer. Sentia-me gente ao acordar manhãzinha cedo, antes do resto da família, para «ir ao poço». Sentia-me gente quando minha tia Chica me deixava ser eu a puxar o balde.
Por isso, tristura sofria nas últimas décadas, ao vê-lo envolto no mais incompreensível desprezo, só possível porque as chamadas ‘novas gerações’ não sabiam o que era ter sede e pareciam desconhecer o significado de nível freático.
Ali jazia a um canto, dir-se-ia,  o meu pobre amigo das infantis madrugadas.
Rejubilei, pois – não podia deixar de ser! –, quando, após tantas décadas de esquecimento, o Amigo Vítor Barros me enviou foto da jubilosa placa a perpetuar a iniciativa da Junta de Freguesia. Que bom!

Confidenciou-me o poço – com a mais que septuagenária amizade que nos liga – que voltar a ser o que era dantes, a dar de beber a quem tinha sede (era assim que rezava a obra de misericórdia…) o enchera de alegria! E compreendia bem que, na natural impossibilidade de se abrir de novo (os tempos bem são outros, amigos!...), a ideia de se mostrar bonito, caiado e com banda azul o redondo da sua boca, e a oportunidade de, através de pequena abertura gradeada, ser possível ver-lhe a fundura e, quiçá, em determinados momentos, até ouvir um saudoso pingar fresquinho.
Ideia boa, presidente João Rosa! Prossiga nesse caminho – que, aí, nós estamos sempre consigo!

                                               José d’Encarnação 

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 349, 20-12-2025, p. 17.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Natais em vias de extinção

            

            Sempre há lugar para a recordação do madeiro do Natal; das filhoses feitas ao lume das lareiras; daquele copinho na adega, vinho novo a sair da pipa; do encontro na  «missa do galo»; dos cânticos ao Menino Jesus…
Lembranças de anciãos serão; mas, felizmente também, vontades há de gente nova a consciencializar-se de que, em comunitária celebração, amizades se cimentam e, afinal, sempre é salutar manterem-se e renovarem-se tradições.
Raízes das árvores que somos, individual e colectivamente. Os ramos cortam-se uns, ajeitam-se outros; as raízes, essas, hão-de merecer todo o carinho e atenção.
Aqui e além, tanto no sofisticado Portugal urbano como no maior sossego do Interior – longe do movimentado bulício das «cidades-natais» e das «aldeias-natais», dos canitos vestidos «à Pai Natal», fogos-fátuos do mercantilismo balofo… – há ressurreições que se aplaudem, a recuperar (abençoadas!) o que outrora fazia sentido e fomentava comunidade familiar e vicinal.
E artistas há, que, à semelhança de Fra Angélico e da sua «Adoração dos Magos», dão largas a mui terna sensibilidade e plasmam de mil e uma maneiras, em todos os formatos e na maior diversidades de materiais, a eterna cena da Natividade. Isoladamente, apenas com três ou quatro pastores, ou, em explosão de alegria e convocando (dir-se-ia) o Universo inteiro, como nos presépios de Eugénio de Castro.
Veio a festividade cristã do Natal implantar-se na solenidade romana do «Dia Natal do Sol Invicto». Sol Invicto era uma divindade; o Menino, na Sua nudez, também.
Confesso desconhecer o significado último da expressão (e do voto) «Feliz Natal». Tenho dificuldade em usá-la. Prefiro desejar para essa derradeira semana do ano civil serenidade e saúde, no voto de que todos aprendamos a viver mais devagar.

José d’Encarnação 

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 885, 20-12-2025, p. 10.